Notícia

Jornal da Unicamp

Unicamp integra Genoma Funcional do Boi

Publicado em 12 maio 2003

Por RAQUEL DO CARMO SANTOS
Cinco anos depois do início das atividades em genômica no Brasil, a Fapesp anuncia um novo modelo em pesquisa nesta área. Em parceria com a Central Bela Vista Genética Bovina, a fundação irá realizar o Genoma Funcional do Boi. A pesquisa avança no sentido de que será feito, simultaneamente, tanto o seqüenciamento puro e simples como a análise funcional dos genes para estudar sua possível aplicação. O trabalho será focado, principalmente, na identificação de genes da raça nelore (a mais importante da bovinicultura brasileira) que possam ser utilizados para desenvolver produtos e tecnologias para aumentar a produção, melhorar a qualidade da carne, a eficiência reprodutiva dos animais e a resistência do rebanho. Orçado em US$ 1 milhão, dividido igualmente entre a fundação e a Central Bela Vista Genética Bovina, o Genoma Funcional do Boi deverá estar concluído em 18 meses, segundo estimativas da Fapesp. A Unicamp participa no projeto através do Programa Genomas Agronômicos e Ambientais (AEG) da Fapesp, que abriga 20 laboratórios da Rede Onsa, um instituto virtual de genômica criado em 1997. Para isso, a Universidade conta com equipamentos e pesquisadores do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG) e do Instituto de Biologia (IB). O coordenador do Laboratório de Genoma do CBMEG, professor Paulo Arruda, destaca o envolvimento da Unicamp neste mais recente estudo. Segundo o pesquisador, desde o início a Universidade é considerada um dos pilares na implantação da rede de seqüenciamento. Ele lembra o papel importante e fundamental no desvendamento do código genético da bactéria Xylella fastidiosa — responsável pela praga do amarelinho que acomete os laranjais —, Genoma Cana e outros programas em andamento. Para o professor Gonçalo Amarante G. Pereira, do IB, que também está envolvido no projeto, o Brasil tem uma vocação óbvia para a agropecuária e este tipo de trabalho é importante para que a atividade esteja apoiada em alta tecnologia. Ele calcula que a participação da Universidade irá corresponder, no Genoma Funcional do Boi, a aproximadamente 20% das seqüências a serem processadas. Ele esclarece que o Programa AEG é composto por cinco unidades de seqüenciamento no Estado de São Paulo montadas nas universidades de São Paulo, Federal de São Carlos, Estadual Paulista, Mogi das Cruzes e Unicamp. Em cada uma delas vários laboratórios estão habilitados a processar as informações disponibilizadas em uma biblioteca de genes a ser montada para o estudo do boi brasileiro. Além desta etapa, os pesquisadores da Unicamp e das outras quatro unidades também farão a descrição dos genes seqüenciados com base em informações dos bancos de dados já existentes. Posteriormente esses dados serão repassados para a execução do trabalho de bioinformática. A raça bovina Nelore, na qual as pesquisas devem se concentrar, é responsável por 80% das 183 milhões de cabeças da pecuária brasileira. Para decifrar o código genético, serão feitas coletas de tecidos em diversas idades do boi, especialmente da hipófise e do hipotálamo, dos sistemas produtivos, imunológico e digestivo, além de tecidos musculares adiposos. O conhecimento desta seqüência genética deve também antecipar dados sobre a adaptação das raças européias às condições tropicais e também poderão servir de base para o desenvolvimento de marcadores genéticos, medicamentos e outros produtos ligados a esta área. Lançamento - O lançamento oficial do Genoma Funcional do Boi aconteceu no dia 7 de maio, na sede da Fapesp, em São Paulo e contou com a presença do governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin; do secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, João Carlos Meirelles; do presidente da Fapesp, Carlos Vogt; do reitor da Unicamp, Carlos Henrique de Brito Cruz; do presidente da Central Bela Vista, Jovelino Mineiro e do coordenador do projeto, professor Luiz Lehmann Coutinho, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, além de outros reitores e pró-reitores de universidades paulistas, políticos e pesquisadores. Alckmin destacou o marco histórico que o trabalho irá representar para o Estado de São Paulo e Brasil. Lembrou que São Paulo sozinho responde por 2/3 da exportação de carne bovina do país. "Por isso investir na qualidade e produtividade é fundamental". O governador acredita na necessidade de saltos de maior vulto para se avançar para o conhecimento e transformá-lo em produto comercial. Já o secretário Meirelles não conseguiu esconder o entusiasmo com o programa. Segundo suas estimativas, o Brasil deve anunciar ainda este ano a posição de maior exportador mundial de carne, ultrapassando os Estados Unidos e Austrália, tradicionalmente líderes no setor. A soma anual alcançará 1, 2 milhão de toneladas". Em sua opinião este é um dos mais importantes motivos para se investir na produtividade da carne.