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Unicamp é líder em ranking de depósitos de patentes enquanto USP se destaca em royalties gerados por licenciamento de tecnologia (1 notícias)

Publicado em 11 de setembro de 2019

Por Bruno de Pierro

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foi a instituição brasileira que mais depositou patentes no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em 2017, com 77 pedidos, de acordo com o relatório Indicadores de Propriedade Industrial 2018, divulgado pelo órgão em junho. A boa colocação no ranking não é novidade na trajetória da Unicamp, que há décadas tem uma política ativa de proteção à propriedade intelectual. Dados da universidade mostram que ela tem 1.121 patentes vigentes, das quais 13% são exploradas comercialmente. Em 2015, foram assinados 15 contratos de licenciamento de tecnologias com empresas. Em 2017, o número subiu para 22. Esses contratos geraram mais de R$ 1,34 milhão em royalties à Unicamp – mais do que o dobro dos ganhos registrados em 2016, R$ 660 mil, mas ainda aquém do pico de 2015, de R$ 1,93 milhão.

Tal desempenho, embora crescente, foi superado, em volume de recursos, pela Universidade de São Paulo (USP), cujos contratos de licenciamento renderam R$ 2,49 milhões em 2017. Atualmente, a universidade acumula 1.299 patentes vigentes no Brasil. O número de contratos de licenciamento vem se mantendo estável nos últimos anos: foram cinco em 2015 e quatro em 2017. “Estamos trabalhando para que a universidade adote um papel mais ativo no sentido de procurar empresas e atrair parcerias, em vez de esperar que as companhias nos procurem”, observa o biólogo Antonio Carlos Marques, coordenador da Agência USP de Inovação. “Nossa estratégia consiste em reunir informações sobre as patentes e fazer contato com potenciais usuários”, diz ele. A ideia é multiplicar casos como o Vonau Flash, uma nova formulação do Vonau, medicamento para o controle de náuseas e vômitos. A versão foi criada pelo Laboratório de Desenvolvimento e Inovação Farmacotécnica (Deinfar), da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, em parceria com a empresa Biolab Sanus. O contrato de licenciamento foi assinado em 2005 e representa a maior fonte de royalties da universidade.

Os dados do INPI mostram que as universidades mais uma vez dominaram o ranking das instituições do país que mais depositaram patentes em 2017 (ver quadro). A única empresa que aparece entre os 10 primeiros da lista é a CNH Industrial, que fabrica máquinas agrícolas e caminhões leves. Essa característica do sistema de ciência, tecnologia e inovação do Brasil destoa da realidade de nações desenvolvidas, onde as empresas são as principais interessadas em proteger e explorar propriedade intelectual (ver Pesquisa FAPESP nº 123). O montante dos contratos de transferência de tecnologia firmados por instituições de ciência e tecnologia tem crescido nos últimos anos no país, chegando a R$ 437,8 milhões em 2016, de acordo com o relatório do Formulário para Informações sobre a Política de Propriedade Intelectual das Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação do Brasil (Formict), elaborado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Do total de valores contratados, R$ 34,4 milhões correspondem a licenciamento de direitos de propriedade intelectual.

Em 2016, o formulário foi preenchido por 278 instituições – 193 públicas e 85 privadas. No total, foram contabilizados 823 contratos de licenciamento de direitos de propriedade intelectual, envolvendo, por exemplo, patentes, softwares ou cultivares. A região Sudeste foi a que apresentou o maior montante de recursos contratados: foram firmados 59 contratos de licenciamento que somam R$ 21,5 milhões (ver tabela ao lado). “A geração de novas patentes e contratos de licenciamento pode receber um novo impulso graças à regulamentação recente da legislação sobre ciência, tecnologia e inovação”, avalia Antenor Corrêa, analista do MCTIC e coordenador do Formict, referindo-se à Lei nº 13.243/2016, regulamentada em fevereiro pelo governo federal (ver Pesquisa FAPESP nº 265). O texto autoriza que os Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs), como as agências de inovação da USP e da Unicamp, deixem de ser apenas órgãos das universidades e constituam personalidade jurídica própria, como entidade privada sem fins lucrativos.

No caso da Unicamp, um dos maiores contratos de licenciamento de tecnologia foi celebrado com a multinacional Cargill Agrícola, que emprega uma técnica para produzir gorduras de baixo teor de ácidos graxos saturados, desenvolvida por pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos. O processo, licenciado em 2014, é aplicado na produção de alimentos, como biscoitos. Estratégias adotadas nos últimos anos pela Agência de Inovação da Unicamp, a Inova, buscam alavancar a transferência de tecnologias para o setor produtivo. “Mais do que depositar patentes, nossa missão é promover contratos de licenciamento para que o conhecimento acadêmico chegue à sociedade”, afirma o físico Newton Frateschi, diretor da Inova. A agência da Unicamp tem procurado estreitar a relação com o setor produtivo, para intensificar o acesso das empresas às inovações desenvolvidas na universidade. Recentemente, a Inova aderiu à iniciativa 100 Open Techs, uma plataforma on-line criada pela organização sem fins lucrativos Wenovate, que busca conectar interesses de empresas com soluções criadas no âmbito acadêmico. No ano passado, a instituição inscreveu 192 tecnologias desenvolvidas por seus pesquisadores, que resultaram em 85 reuniões de negócios com empresas.

A Inova também investe na construção de outra plataforma para incentivar a interação entre pesquisadores e as empresas-filhas da Unicamp, que inclui companhias formadas por alunos, ex-alunos ou pessoas com vínculo empregatício com a universidade, start-ups instaladas na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp) e empreendimentos cuja atividade principal deriva de uma tecnologia licenciada pela instituição. “Funcionará como um grande fórum”, diz Frateschi. “As empresas poderão informar quais são suas demandas e criar canais de diálogo diretamente com outras firmas ou laboratórios da Unicamp. É uma forma de acelerar a transferência de tecnologia.”

Para estreitar relações com o setor produtivo, a Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que também tem um histórico de proteção à propriedade intelectual, iniciou este ano um processo de reestruturação. “Estamos nos preparando para atuar como uma agência de negócios”, diz a advogada Juliana Crepalde, coordenadora-executiva da CTIT-UFMG. As mudanças, diz ela, devem favorecer a proliferação de novos contratos de licenciamento e de codesenvolvimento. “Como o marco legal permite novos modelos de interação com a indústria, inclusive que as universidades tenham alguma participação acionária em empresas, nosso núcleo poderá se dedicar mais à função de gerir ativos tecnológicos de forma qualificada e estratégica”, diz. “Também será possível promover a transferência de tecnologia a partir de acordos de codesenvolvimento, que integram equipes de pesquisadores da UFMG e de empresas parceiras, e não apenas atuar como um órgão que deposita patentes”, explica Juliana. Em 2017, os contratos de licenciamento mediados pela CTIT-UFMG geraram mais de R$ 650 mil em royalties. O pico foi registrado em 2015, quando foram alcançados R$ 956 mil. Entre as tecnologias licenciadas no ano passado está uma utilizada para identificar fraudes em produtos de origem animal a partir de um teste baseado em DNA.

Promovemos licenciamentos para que o conhecimento chegue à sociedade, diz Newton Frateschi, da Unicamp

Há NITs que têm explorado diferentes modalidades de transferência de tecnologia. “Uma das funções da universidade é produzir e transferir conhecimento. Isso pode ser feito de várias maneiras e não precisa, necessariamente, gerar royalties”, afirma o biólogo Wagner Cotroni Valenti, diretor da Agência Unesp de Inovação, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Segundo Valenti, a universidade obteve royalties resultantes de contratos de transferência de tecnologia, mas não dispõe de dados consolidados sobre valores. Neste ano, a agência iniciou um processo de reestruturação. Também se dedica ao licenciamento não só de patentes, mas também de cultivares vegetais e de tecnologias sociais, aquelas que compreendem técnicas e metodologias, muitas vezes simples e de baixo custo, para resolver problemas e demandas da sociedade. Um exemplo é um sistema para ajudar catadores de materiais recicláveis a empurrar suas carroças sem prejudicar a coluna. A tecnologia foi criada dentro da Incubadora de Cooperativas Populares da Unesp (Incop-Unesp), em Assis, e doada a cooperativas de catadores.

Uma das instituições de ensino e pesquisa mais bem colocadas no ranking de patentes do INPI é a Universidade Federal de Campina Grande, com 70 pedidos depositados em 2017. Outra é a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com 66 pedidos. As duas instituições somam 136 pedidos de patente – mais do que a Unicamp e a USP juntas (ver gráfico). “O depósito de patentes vem aumentando a cada ano, mas a procura para licenciar tecnologias e processos ainda é muito baixa”, ressalva o químico Petrônio Filgueiras de Athayde Filho, diretor-presidente da Agência UFPB de Inovação Tecnológica (Inova-UFPB). Criada em 2013, a agência acumula 225 patentes depositadas no Brasil, mas que ainda não geraram royalties. De acordo com Athayde, um dos principais entraves é que o estado da Paraíba ainda não dispõe de um parque tecnológico forte, com empresas ávidas por explorar inovações. “Por isso, estamos agora iniciando um processo de incubação de startups e procurando parceiros e empresas interessadas em nosso portfólio em outros estados do país”, diz.