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Unicamp e IAC desenvolvem ferramenta de gestão da produção

Publicado em 28 julho 2017

O Brasil exportou 33 milhões de sacas de 60 quilos de café entre junho de 2016 e maio de 2017, o que gerou uma receita cambial da ordem de US$ 5,6 bilhões no período. Embora revelem a importância desse produto para o agronegócio e a economia do país, esses números poderiam ser ainda mais robustos, caso as propriedades cafeeiras tivessem um nível de gestão mais elevado. A constatação faz parte de pesquisa realizada pela Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC). O estudo envolveu um método inovador para identificar o grau de gestão da produção nas regiões cafeeiras brasileiras.

O trabalho foi coordenado pelos pesquisadores Flávia Maria de Mello Bliska e Antonio Bliska Júnior, ela do IAC e ele da Feagri. A ferramenta, desenvolvida inicialmente para o cultivo de flores, foi batizada de Método de Identificação do Grau de Gestão (MIGG) e, neste projeto conjunto, foi alimentado com uma série de informações relacionadas à atividade da propriedade cafeeira. O sistema estima o nível de gestão da unidade produtora, numa escala que vai de 1 a 9, sendo “1” o mais baixo e “9” o mais elevado. “A ferramenta está disponível no site da Feagri e tem acesso livre para os produtores interessados em avaliar o grau de gestão da sua propriedade. O objetivo é estimular o cafeicultor a encarar a sua atividade como um negócio, como uma empresa rural”, explica Bliska.

Antes de o MIGG ser disponibilizado para consulta, porém, os pesquisadores foram a campo para validar a ferramenta, aplicando um questionário com 64 questões. Durante três anos, eles percorreram aproximadamente 25.000 quilômetros do território brasileiro, visitando as principais regiões cafeeiras do país. Eles estiveram pessoalmente em Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Rio de Janeiro e Paraná, além de São Paulo. Propriedades de Rondônia e do Distrito federal também foram avaliadas, com a participação de colaboradores locais. “Ao todo, avaliamos mais de 1.000 propriedades em todo o país. Foi um trabalho de fôlego, mas muito produtivo e enriquecedor”, considera Flávia.

De acordo com a pesquisadora do IAC, um obstáculo que ela e Bliska, que são casados, tiveram que superar foi a desconfiança dos cafeicultores em relação às intenções da pesquisa. “Embora nós não fizéssemos perguntas sobre faturamento, muitos se mostraram reticentes, possivelmente temendo que alguma resposta pudesse ser monitorada por órgãos fiscalizadores, como a Receita Federal. Outra dificuldade foi explicar para os produtores rurais o conceito e o funcionamento da ferramenta, embora nós tenhamos nos esforçado por simplificar ao máximo as perguntas do questionário”, acrescenta a pesquisadora do IAC.

No contato que mantiveram com os cafeicultores, os pesquisadores constataram que uma parcela significativa deles, algo como metade do universo avaliado, não adota princípios consagrados de gestão empresarial em suas atividades. “Muitas decisões são tomadas com base na intuição ou na tradição. Não há, por parte de muitos deles, preocupação em identificar, por exemplo, quem é o seu cliente e o que este realmente deseja em termos de qualidade do produto. Esse é um dado importante, visto que, ao atender à exigência do cliente, o cafeicultor pode agregar valor ao seu produto”, pondera Flávia.

Também foi possível verificar, complementa Bliska, que um contingente importante de produtores não se preocupa com a questão da sucessão familiar. “Nós constatamos muitos casos nos quais as novas gerações deixam as localidades de origem para estudar, e não retornam mais ao campo. Sem alguém da família para continuar tocando a propriedade, esta corre um sério risco de deixar de produzir”, pondera. Outro ponto importante observado pelos autores da pesquisa é o baixo acesso à tecnologia e o uso nem sempre adequado de defensivos agrícolas e equipamentos de proteção individual em algumas propriedades.

Um dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi que o nível de gestão varia bastante entre as propriedades analisadas. “Nós encontramos grau 8 de gestão em uma propriedade de cinco alqueires e grau 4 de gestão em uma propriedade 20 vezes maior”, compara Flávia. Segundo ela, o banco de dados gerado pelo levantamento de campo está disponível para pesquisadores interessados em investigar temas como gestão, cooperativismo, sustentabilidade, segurança e saúde do trabalhador rural.

Além disso, conforme os cafeicultores forem utilizando o MIGG para verificar como está a evolução do grau de gestão de suas propriedades, esse banco de dados será automaticamente atualizado, visto que as informações serão registradas a cada acesso. “Além de fornecer subsídios para que os agricultores melhorem a gestão de suas propriedades, transformando-as em empresas rurais, os dados gerados por essa ferramenta também são úteis para os tomadores de decisão. As informações podem servir de base à formulação de políticas públicas para o setor cafeeiro. Um aspecto que ficou muito claro é que os agricultores familiares, que produzem grande parte da safra de café do Brasil, carecem de assistência técnica para melhorar todas as etapas de produção”, assinala Bliska.

Outras culturas

A ferramenta desenvolvida pelos pesquisadores da Unicamp e IAC é bastante versátil, como eles relevam. Conforme Bliska, com algumas adaptações não muito complexas, o MIGG pode ser utilizado para avaliar o nível de gestão de propriedades rurais que produzem outros tipos de culturas, como flores, hortaliças, frutas etc. “O MIGG tanto pode ser usado no caso de um produto específico, como a uva, quanto para um segmento inteiro, como as frutas”, sustenta.

Flávia informa que existe a possibilidade de, numa nova etapa da pesquisa, a ferramenta ser utilizada pelos produtores de flores de Holambra, município vizinho a Campinas. “Estamos trabalhando nesse sentido”, revela. O trabalho coordenado pelos dois pesquisadores contou com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O projeto também teve a colaboração de diversas empresas, cooperativas e sindicatos rurais.

O estudo rendeu, ainda, diversos trabalhos científicos, que foram publicados ou divulgados em revistas e congressos do Brasil e do exterior, incluindo Grécia, Portugal, Eslováquia, Costa Rica, Colômbia, Rússia e China. Ademais, foi objeto de trabalhos de conclusão de curso e dissertações de mestrados. “Também é importante destacar que contamos com a colaboração de pesquisadores de outras instituições de pesquisa, como Iapar, Incaper, Epamig, etc, sem as quais não teríamos alcançado os resultados que pretendíamos”, finaliza a pesquisadora.