Notícia

Jornal do Brasil

Unicamp cria uma tinta mais barata

Publicado em 01 fevereiro 1997

Por FABRÍCIO MARQUES
SÃO PAULO - Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveu um novo tipo de pigmento branco para tintas de parede que, além de mais barato, tem vantagens ambientais sobre o oxido de titânio, usado mundialmente. Numa pesquisa iniciada no final da década passada, a equipe do professor Fernando Galembeck, do Instituto de Química da Unicamp, começou a investigar novas aplicações dos fosfatos, subprodutos do ácido fosfórico, usado na indústria de fertilizantes. Os fosfatos tem uma propriedade curiosa: uma vez aquecidos, eles produzem microscópicas e resistentes cápsulas de ar. A surpresa foi descobrir que estas bolhas transformavam os fosfatos em pigmentos. Uma tinta de boa qualidade é aquela em que o pigmento, que dá cor à tinta, e a resina, que a fixa na superfície, tem índices de refração da luz diferentes. Quando isso acontece, a luz bate na superfície pintada e se reflete, impedindo que se veja o que havia antes na parede. O oxido de titânio tem um índice de refração alto, que, associado ao índice de refração baixo de resinas como o látex, dão a cor. Pois o mesmo efeito foi alcançado com um tipo de fosfato, o de alumínio. As microbolhas de ar deram ao fosfato um índice de refração bem mais baixo que o das resinas. Como o que importa é a diferença entre estes índices, notou-se que o material era um bom substituto do oxido de titânio como pigmento: a tinta reflete bem a luz. "Testamos a nova tinta numa parede da universidade há dois anos, e a pintura resiste até hoje", diz Galembeck. A descoberta interessou à indústria de fertilizantes Serrana, que tem uma mina de fósforo na cidade paulista de Cajati. A Serrana investiu R$ 150 mil no projeto da Unicamp e já tem um contrato de exclusividade para explorar o pigmento. Em 1998, a Serrana planeja investir US$ 10 milhões na construção de uma fábrica para produzir 30 mil toneladas anuais do fosfato de alumínio. "Ainda falta fazer alguns acertos nesta tecnologia, previstos para este ano", diz João de Brito, gerente do Departamento de Tecnologia da Serrana. O problema do fosfato de alumínio é que, na primeira mão de tinta, tem-se a impressão de que a pintura não pegou. Só depois que a tinta seca é que a boa cobertura se fixa. Num primeiro momento, a Serrana quer convencer as fábricas de tinta a misturar os pigmentos, usando 30% do fosfato de alumínio e 70% do oxido de titânio. A produção do oxido de titânio depende de reações químicas violentas e produz rejeitos poluentes, ao contrário do que acontece com a produção do fosfato de alumínio. A única indústria que fabrica o óxido de titânio no Brasil, na Bahia, despeja no mar uma lama poluente extraída do minério do titânio. "Não faria mal raspar uma parede pintada com tinta à base de fosfato e jogar a poeira na terra, para enriquecê-la", diz o professor Galembeck. A Serrana aposta que o preço do novo pigmento vai convencer us indústrias de tinta: o fosfato de alumínio custa US$ 1,3 dólar o quilo, a metade do oxido de titânio.