Notícia

Correio Popular

Unicamp cria remédio contra malária

Publicado em 01 janeiro 2006

Por Rogério Verzignasse, da Agência Anhangüera (rogerio@rac.com.br)
Pesquisadores da universidade comprovam a ação antiplasmódica eficaz de pigmento que é extraído de uma bactéria

A violaceína, pigmento violeta extraído de uma bactéria encontrada nas águas do Rio Negro, em Manaus (AM), está se transformando no novo trunfo da medicina para o tratamento da malária, doença tropical e parasitária que mais mata no mundo. O uso do pigmento como remédio é estudado pelos pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp.A violaceína foi descoberta no Brasil em 1976, e já vem sendo testada como um potente elemento antibiótico, antibacteriano e antiviral. E também é usado como fungicida.
As pesquisas sobre as novas finalidades do pigmento são coordenadas, em Campinas, pelo professor Fábio Trindade Maranhão Costa. Ele explica que a pesquisa de iniciação científica da aluna Stefanie Costa Pinto Lopes comprovou, de maneira inédita, através de avaliação in vivo (com cobaias) e in vitro, uma intensa atividade antiplasmódica, fundamental no combate ao parasita da malária.
A Agência de Inovação da Unicamp (Inova) inclusive já depositou o pedido de patente da descoberta.
Trata-se, de fato, de uma nova opção de tratamento. Até hoje, o que se tem notado é que os parasitas desenvolvem resistência a medicamentos já existentes, como a cloroquina, a me-floquina, o quinino e a sulfadoxina-pirimetamina. "A maior preocupação dos pesquisadores é combinar drogas, de forma que os plasmódios não desenvolvam resistência", fala o professor.
A cloroquina, por exemplo, foi amplamente usada no pós-guerra com resultados bastante eficientes. Porém, o uso do medicamento por longos períodos a tornou praticamente ineficaz.
Nas pesquisas do IB, os pesquisadores verificaram atividade eficiente do pigmento e em camundongos (in vivo) e in vitro contra a contaminação com o Plasmodium causador da malária.

Nova etapa
A aplicação da violaceína foi feita de forma intraperitoneal (no abdome). Na atual fase, os pesquisadores estudam a eficiência da substância com outras formas de aplicabilidade.
Há a possibilidade, por exemplo, de que a aplicação endovenosa ou por via oral sejam mais eficientes. Também estuda-se a dosagem ideal da droga, para que as hemácias sadias não sofram prejuízo. "Queremos determinar como a violaceína pode ser utilizada sem causar reações adversas ao paciente", fala.
A etapa definitiva do projeto, que deve ser desenvolvida ao longo dos próximos dois anos, deve consumir investimentos da ordem de R$ 100 mil, pleiteados junto a instituições brasileiras de fomento à pesquisa, como FAPESP e CNPq.
O sucesso do trabalho deve principalmente à composição multidisciplinar dos profissionais envolvidos. Dois professores de bioquímica, por exemplo (Nelson Eduardo Duran Caballero e Giselle Zenker Justo), são os responsáveis pela purificação da violaceína em laboratório.
Também existe a colaboração de especialistas do Centro de Pesquisas em Doenças Tropicais (Cepem), localizado em Porto Velho (RO).

Os números
2,4 bilhões de pessoas
Vivem em áreas do mundo com risco de transmissão de malária.
300 milhões de pessoas
São infectadas a cada ano com a doença
1 milhão de mortes
São provocadas anualmente pela malária
Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)

Estado de São Paulo teve o registro de 11 casos em 2004
A falta de campanhas de conscientização e dedetização ineficiente, dramas comuns em nas áreas de conflitos armados e deslocamentos de refugiados, causam o maior número de casos de malária no planeta. É por isso que o continente mais afetado é a África.
A Amazônia é o ponto do Brasil onde a malária é mais notificada. Foram 459 mil casos só em 2004. Os Estados do Amazonas, Pará e Rondônia lideram o ranking da contaminação. No mesmo ano, foram registrados 320 casos fora da Amazônia (11 deles no Estado de São Paulo).


Saiba mais

A doença
A malária é uma doença infecciosa, causada por um protozoário unicelular Plasmodium, transmitido ao organismo humano através de picadas do mosquito Anopheles.

Transmissão
Acontece pela picada da fêmea do Anopheles. Como o protozoário Plasmodium circula no sangue, o mosquito pode levá-lo de uma pessoa contaminada para outra, sadia. Também é possível a contaminação por transfusões de sangue, transplante de órgãos, utilização compartilhada de seringas por usuários de drogas endovenosas ou de gestante para filho.

Sintomas
No homem, os plasmódios agem inicialmente nas células do fígado e posteriormente invadem os glóbulos vermelhos. O acesso malárico se caracteriza por intenso calafrio seguido de febre alta, vômitos, dores no corpo e sudorese.

Riscos
A gravidade da doenças decorre da espécie de plasmódio que provoca a malária. O Plasmodium vivax provoca acessos a cada 48 horas (é a chamada febre terçã benigna). O Plasmodi-um malarie provoca acessos a cada 72 horas (febre quartã). O Plasmodium falciparum provoca a forma mais séria de malária.
Prevenção
Não existe vacina contra a malária. Para se ter alguma proteção, devem ser tomadas medidas de ordem pessoal: utilização de repelentes químicos, mosquiteiros sobre camas e redes de dormir e telas nas janelas e portas das habitações.

Tratamento
É feito com medicamentos contra os sintomas. A dosagem e o tipo de medicamento variam de caso para caso.

Fonte: Sucem