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Correio Popular (Campinas, SP) online

Unicamp cria aquecedor solar popular

Publicado em 02 dezembro 2007

Feito em PVC, equipamento custa R$ 100,00 para garantir o banho quente em uma casa com até quatro moradores


A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveu um aquecedor solar de PVC (policloreto de vinila) que pode ser construído por qualquer pessoa. Se a casa já possuir uma caixa d'água, gastará R$ 100,00 para comprar os materiais necessários para aquecer a água do chuveiro de uma família de quatro pessoas. O projeto é destinado à população de baixa renda e foi desenvolvido pela equipe do professor Julio Roberto Bartoli, do Departamento de Engenharia de Polímeros da Faculdade de Engenharia Química (FEQ).

O que ajuda a baratear o gasto é a placa coletora, feita de PVC e que é utilizada no forro das casas. Os alvéolos existentes nesse forro substituem o cobre dos coletores tradicionais. Os canos para a passagem da água também são em PVC.

A criatividade levou a equipe a desenvolver um produto que ajudará a população de baixa renda a economizar no gasto com energia elétrica. Uma válvula de garrafa de vodka Smirnoff, por exemplo, impede que a água quente retorne da caixa d'água à noite, quando cai a temperatura.

O tamanho da caixa que vai armazenar a água quente é de 40 a 50 litros para cada banho de uma pessoa da família, ou seja, para uma casa com quatro pessoas é necessário uma caixa de 200 litros. Para essa mesma família, a placa usada nos forros das casas pode ter 65 centímetros por 1,25 metros. Isso garante uma temperatura em torno dos 60 graus. Esse trabalho recebeu o selo de "tecnologia social" da Fundação Banco do Brasil e Petrobras em 2005.

A eficiência térmica do aquecedor de PVC é de 67,10%, bastante próxima, segundo Renato César Pereira, doutorando que desenvolve tese sobre esse coletor, ao do aquecedor de cobre, que tem eficiência de 70%. "Alguns de nossos protótipos foram instalados em duas entidades assistenciais de Campinas (a Bom Pastor, em Barão Geraldo) e Jaguariúna (que atende a dependentes químicos). Esses protótipos já completaram dois anos de uso em agosto e setembro, respectivamente.

O projeto será disseminado entre a população de baixa renda por meio de cursos que a Projetos e Pesquisa em Engenharia Química (Propeq), uma empresa júnior de alunos da Faculdade de Engenharia Química, vai começar a ministrar. Já existem 300 pessoas interessadas em aprender a fazer o coletor solar e economizar na conta de energia elétrica.

Um manual ensinando como fazer está disponível na internet, no site www.sociedadedosol.org.br. Os pesquisadores estão buscando patrocinadores para uma cartilha na forma de história em quadrinhos a ser distribuída entre a população de menor renda. "A proposta é divulgar como fazer entre o maior número de pessoas para tornar essa tecnologia acessível", afirmou Bartoli.

O estudante Matheus Carminatti, da Propeq, informou que haverá uma seleção para definir quem serão os primeiros a fazer o curso. A prioridade, disse, é para pessoas de baixa renda. Um dos critério, contou Bartoli, é para aqueles cujas casas consomem até 100KWH por mês. "Quando ele instalar o aquecedor solar, o consumo de energia deverá cair para 80KWh mensais, o que dará a ele outro benefício, que é ter uma tarifa social, mais barata."

Saiba mais - Energia solar traz vantagens ambientais

A energia solar é importante na preservação do meio ambiente, pois tem muitas vantagens sobre as outras formas de obtenção de energia, como não ser poluente, não influir no efeito estufa e não precisar de turbinas ou geradores para a produção de energia elétrica. Mas tem como desvantagem a exigência de altos investimentos para o seu aproveitamento. Para cada metro quadrado de coletor solar instalado, evita-se a inundação de 56 metros quadrados de terras férteis na construção de novas usinas hidrelétricas. Uma parte do milionésimo de energia solar que nosso país recebe durante o ano poderia nos dar um suprimento de energia equivalente a 54% do petróleo nacional, duas vezes a energia obtida com o carvão mineral ou quatro vezes a energia gerada no mesmo período por uma usina hidrelétrica.

Projeto nasceu em empresa incubada

Cartilha colocada na internet detalha como fazer, passo a passo, o coletor

O aquecedor solar de baixo custo com uso de polímero nasceu dentro da Sunpower Engenharia Ltda., uma empresa incubada do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas do Instituto de Pesquisas Energéticas (Ipen) em projeto coordenado pelo professor Julio Roberto Bartoli, orientador da pesquisa. Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a equipe estudou a viabilidade tecnicoeconômica da construção de um coletor com produtos termoplásticos empregados na construção civil. A intenção era obter um produto que custasse 10% do valor de um aquecedor solar tradicional, com uso intenso de bricolagem, ou seja, faça você mesmo.

O produto foi então desenvolvido. A Sunpower fechou e transferiu para uma organização não-governamental, a Sociedade do Sol, as informações sobre como fazer. É essa ONG que vem difundindo, em sua página na internet, a maneira de como construir o coletor. Uma cartilha bastante detalhada está à disposição de quem se interessar. O endereço de acesso é o http://www.sociedadedosol.org.br/.

A equipe da Unicamp está elaborando uma nova cartilha, em forma de história em quadrinho para difundir a tecnologia de fabricação entre a população de baixa renda. "Nossa proposta é oferecer cursos gratuitos à população. Queremos abranger o maior número de pessoas", disse Bartoli. Ele acredita que o projeto poderá inclusive se tornar um gerador de renda, na medida em que as pessoas souberem fazer, porque terão oportunidade até de montar uma microempresa de aquecedor solar de baixo custo. (MTC/AAN)

Uso da energia pode ser obrigatório em Campinas

Proposta de vereadores foi aprovada em 1ª discussão e terá mérito votado no próximo ano

A utilização de energia solar para aquecimento de água deverá ser obrigatória a partir do ano que vem em Campinas, como já ocorre em várias cidades brasileiras. Segundo projeto de lei dos vereadores Luis Yabiku (PDT), José Carlos Silva (PDT) e Francisco Signorelli (PT), a obrigatoriedade será adotada nas novas construções, que só receberão o documento "habite-se" se tiverem sistema de aquecimento de água por energia solar.

A legalidade da proposta dos parlamentares já foi aprovada na Câmara Municipal e a perspectiva é de que a votação de mérito será realizada em fevereiro. Antes, porém, haverá audiência publica para discutir a proposta, especialmente junto ao setor da construção civil.

O setor apóia a iniciativa de utilização de energia solar, mas não quer que seu uso seja obrigatório, como define o projeto de lei. Já há, no entanto, várias iniciativas sendo adotadas pelo poder público. A Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU) vai começar, a partir do próximo ano, a implantar sistema de aquecimento solar nos novos imóveis que construir. A Companhia de Habitação de Campinas (Cohab) também está avaliando a possibilidade de adotar o sistema nas habitações de baixa renda. (MTC/AAN)