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Secretaria de Ensino Superior (SP)

Unicamp chega a 600 famílias de patentes depositadas

Publicado em 20 janeiro 2011

Por Vanessa Sensato

O último pedido de patente da Unicamp junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) no ano de 2010 representou também a marca de 600 famílias de patentes depositadas pela universidade. O professor Roberto de Alencar Lotufo, diretor-executivo da Agência de Inovação Inova Unicamp, explica que cada tecnologia protegida pode gerar diversas patentes - a nacional e as internacionais - e que a contagem das famílias de patentes inclui todos os processos referentes à mesma tecnologia. "Dessa maneira, as 600 famílias representam 730 patentes vigentes no mundo todo".

Para Lotufo, a marca é importante, pois vai de encontro com a política de propriedade intelectual (PI) da universidade. "A gestão da PI em consonância com a missão da Unicamp aumenta as chances dos resultados de pesquisa da universidade se transformarem em produtos e processos que venham beneficiar nossa qualidade de vida", coloca.

A seiscentésima família de patente depositada pela universidade é do Instituto de Biologia (IB), que atualmente tem 31 famílias de patentes depositadas. A professora Shirlei Recco-Pimentel, diretora do IB, considera muito oportuno que a 600ª família de patente da Unicamp seja do instituto, uma vez que nos últimos anos tem havido um aumento expressivo no número de patentes na unidade.  "O IB está empenhado em realizar pesquisas que gerem também esse tipo de benefício para a sociedade. A patente do grupo liderado pelo professor Marcelo Menossi é um ótimo exemplo da importância dessa atividade no IB", avalia a professora. Além das patentes da própria unidade, docentes e pesquisadores do IB também tiveram participação em pesquisas que resultaram no depósito de 41 patentes de outras unidades da Unicamp.

A patente "Método para produção de plantas tolerantes a estresses ambientais, seus usos e vetor de DNA recombinante" tem como autores cinco pesquisadores, três da Unicamp e dois da Universidade de São Paulo (USP): Kevin Begcy Padilla, Eduardo D. Mariano e o professor Marcelo Menossi Teixeira são do Laboratório de Genoma Funcional, do Departamento de Genética, Evolução e Bioagentes do IB da Unicamp e Carolina Gimiliani Lembke e a professora Glaucia Mendes Souza são do Laboratório de Transdução de Sinais, do Instituto de Química da USP.

A pesquisa foi realizada no âmbito de um projeto de análise de genes associados com tolerância à seca em cana-de-açúcar, financiado pelo CNPq, Finep e Fapesp. No trabalho que levou à patente, os pesquisadores estudaram a atuação do gene Scdr2 da cana-de-açúcar.  O gene foi inserido em plantas de tabaco, que foram submetidas a condições de seca. Durante o experimento, os pesquisadores acompanharam as taxas de transpiração, de fotossíntese, e de concentração interna de dióxido de carbono (C02) e observaram que as plantas transgênicas apresentaram melhor desempenho nas análises do que as plantas não modificadas. O mesmo padrão foi observado quando as plantas foram submetidas a estresse por excesso de sal. Com isso, o grupo provou que o gene Scdr2 da cana-de-açúcar confere às plantas tolerância aos estresses hídrico e salino.

"Embora existam diversos genes com essa capacidade descritos em outras espécies, ninguém jamais avaliou o potencial do gene Scdr2 antes, que deve ser o primeiro gene de cana associado com tolerância a estresses por seca e excesso de sal", explica Menossi. Segundo ele, a invenção abre a oportunidade de produzir não só uma cana mais tolerante ao estresse salino, mas este gene também poderá ser usado em outras culturas. O trabalho é o resultado de uma dissertação do aluno Kevin Begcy Padilla, da Colômbia, bolsista do CNPq.

A seca é, de longe, o estresse ambiental mais importante em quanto aos efeitos na agricultura. Na cana, a seca efetivamente provoca prejuízos, como tem sido observado em diversas safras que sofreram períodos de estiagem prolongada. Por exemplo, na safra de 2008/2009, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) estimou que a quebra da safra pela estiagem foi da ordem de 10 a 12 milhões de toneladas, uma redução de 5% comparada com a safra passada (Valor Econômico, 18/10/2007).

Já o estresse salino é também um grave problema ambiental e afeta todas as funções da planta, resultando em diminuição do crescimento das culturas e redução da produtividade. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), cerca de 400 milhões de hectares de terra têm elevado nível de salinidade. No Brasil, 30% das áreas irrigadas sofrem os problemas associados à salinidade, principalmente na região Nordeste.

Patentes na Unicamp
"Entender primeiro, aplicar depois ainda é a maneira mais eficiente de transformarmos conhecimento em inovação que poderá ser apropriada pela sociedade", avalia o pró-reitor de pesquisa da Unicamp, professor Ronaldo Pilli. Para ele, a marca de 600 famílias de patentes depositadas junto ao INPI é fruto de uma política de estímulo à inovação tecnológica baseada na pesquisa desenvolvida no âmbito da Universidade.

Com o pedido de patente realizado, a Agência de Inovação Inova Unicamp irá procurar empresas interessadas em desenvolver a tecnologia e disponibilizá-la para a sociedade. Patricia Magalhães de Toledo, diretora de propriedade intelectual e transferência de tecnologias da Inova Unicamp, explica que a proteção dos resultados das pesquisas da universidade é importante para aumentar as chances de que esses resultados sejam transferidos para empresas, que irão produzi-los e disponibilizá-los para a sociedade. "Sem uma patente robusta a maioria das empresas não se arrisca a investir no desenvolvimento complementar necessário para transformar o resultado da pesquisa em produto ou processo", coloca a Patricia.

A diretora relata que a universidade tem realizado cerca de 50 pedidos de patentes junto ao INPI por ano. "Em 2010 foram 51 pedidos nacionais e 14 internacionais", informa. Entretanto, Patricia tem a expectativa que este número possa aumentar em 2011. "No final de 2010 revisamos o procedimento por meio do qual os pesquisadores nos relatam suas invenções, facilitando e agilizando o trâmite para a comunidade interna. Atualmente, estamos testando um sistema para informatizar todo o processo", coloca Patricia.

Para o professor Fernando Costa, reitor da Unicamp, o fato de a Unicamp ter alcançado a marca de 600 famílias de patentes depositadas é importante porque evidencia a preocupação da Universidade em transferir o conhecimento gerado em seus laboratórios para a sociedade por meio de licenciamentos de tecnologia. "É preciso ressaltar, no entanto, que nos países desenvolvidos a quantidade de patentes originadas em universidades é muito pequena se comparada ao total proveniente da indústria. Nos Estados Unidos, por exemplo, as universidades são responsáveis por apenas cerca de 5% das patentes depositadas no país. Já no Brasil, o número de patentes das universidades é quase equivalente ao da indústria. Isso mostra a necessidade de as empresas brasileiras investirem mais em inovação", avalia o reitor.

O acompanhamento do número de patentes da Unicamp aponta que o Instituto de Química (IQ) continua como a unidade com o maior número de famílias de patentes depositadas, sendo 217 até dezembro de 2010. O IQ também é a unidade que apresenta maior colaboração em patentes. Seus pesquisadores estão presentes em 276 patentes de outras unidades da Unicamp. Na sequência, a Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) e a Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação (FEEC) têm respectivamente 64 e 63 famílias de patentes depositadas e também contribuições expressivas em patentes de outras unidades, com 83 e 64 participações em patentes de outras unidades.