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'Única forma de alcançar a transformação social é pela educação', diz brasileira PhD em química

Publicado em 31 dezembro 2018

O Brasil está longe de oferecer a seus estudantes um nível educacional aceitável. De acordo com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgado em setembro deste ano pelo Ministério da Educação, o país não atingiu as metas nos anos finais do ensino fundamental e médio.

Para a cientista PhD em química e professora Joana D'Arc Félix de Sousa, investimento em educação aparece como uma das possibilidades mais viáveis em tentar reduzir a desigualdade social no Brasil.

Em entrevista ao G1, a pesquisadora que superou a infância pobre e fez pós-doutorado em uma das instituições mais prestigiadas do mundo, a Universidade Harvard, comenta quais são as principais mudanças que o país necessita no âmbito da educação e como o ensino de qualidade pode transformar vidas.

Professora na Escola Técnica Estadual (ETEC), em Franca (SP), Joana coleciona prêmios pelo trabalho desenvolvido tanto na pesquisa quanto com os jovens estudantes.

1) Dados do governo federal mostram que o orçamento para a pasta da educação em 2019 é de R$ 101,3 bilhões. Você acredita que os investimentos são suficientes em relação à pesquisa?

Não, porque os financiamentos de órgãos federais foram muito reduzidos nesses últimos anos, tanto que os professores de universidades federais têm muitos projetos aprovados, mas não têm dinheiro suficiente para contemplar aquele projeto.

Eu tenho ido a diversas palestras em outros estados e conversado com professores de universidades federais. Cheguei a conclusão que nós, que estamos no estado de São Paulo, podemos recorrer à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) que é a única fundação estadual no Brasil que ainda tem dinheiro para financiar as pesquisas.

No caso das instituições federais, que dependem muito mais de verbas federais, os pesquisadores têm sofrido bastante para desenvolver os seus projetos por conta da redução de verbas.

Talvez, uma saída é a questão de viabilizar parcerias com instituições privadas para tentar desafogar de alguma forma.

2) País que investe em educação é economicamente mais produtivo?

Eu gosto de deixar uma frase: “investir na educação científica desde a infância é a peça chave para construção de uma sociedade democrática, economicamente produtiva, mais humana e sustentável”.

Eu acredito nisso porque se a educação científica começar a ser trabalhada desde o fundamental, essas crianças desenvolverão o raciocínio lógico mais cedo e despertarão o espírito investigativo mais cedo. Elas começam a adquirir competências técnicas e aumentarão a curiosidade e a vontade de permanecer na escola.

É somente por meio da educação que é possível alcançar uma transformação social efetiva.

3) A ciência é uma das formas de reduzir a evasão escolar?

O que caminha junto com a educação é a ciência. Eu notei essa diferença aqui na minha instituição, que é uma escola técnica que não tinha tradição da pesquisa. Depois que nós alinhamos a educação com a ciência e realmente começamos a praticar educação científica, vimos que a evasão escolar reduziu drasticamente.

O jovem se sentiu mais motivado, tanto do ensino médio, quanto técnico. Eles começaram a sentir uma redução do abismo existente entre o jovem da escola pública até a universidade. Eles diziam que para entrar em uma boa universidade precisava ter estudado em uma boa escola particular.

Isso muitas vezes se dá por conta de falta de conteúdos. Trabalhando a educação científica, esse aluno começa a ler conteúdos além do praticado em sala de aula e, com isso, ele tem uma ampliação dos conhecimentos.

Esse trabalho vem alinhado com a inovação, geração de patentes e royalties [valores pagos pelo uso de uma marca ou produto] que alavancam vários benefícios para a instituição e para todos os participantes daquele projeto.

4) Como trabalhar para a redução da desigualdade social?

Existem muitas formas, por exemplo, eu só seleciono para bolsa de iniciação científica os jovens que estão envolvidos no tráfico de drogas ou na prostituição. Porque o jovem que tem a família estruturada, mesmo que ele seja preguiçoso, a família não deixa que ele abandone a escola.

Normalmente quem contribui para a evasão escolar são jovens que não têm uma estrutura familiar, que precisam trabalhar fora, uma menina que engravidou ou então esse jovem que está no tráfico de drogas ou na prostituição. Eles não têm muito compromisso, porque já se sentem excluídos e não veem na educação uma forma de vencer na vida.

Comecei a trabalhar com esses jovens porque, dando oportunidades, eles são muito talentosos. Eles só precisam de uma oportunidade para aquele talento escondido começar aflorar.

Dessa forma, hoje nós estamos desenvolvendo excelentes projetos de inovação. São projetos que nós transferimos tecnologia para os Estados Unidos e para a Europa.

5) Você estudou em Harvard. Pode fazer uma comparação entre o ensino superior brasileiro e de fora do país?

O ensino superior nos Estados Unidos tem uma metodologia de ensino que induz a pesquisar e a ler muito mais. Além da questão das facilidades em relação a materiais. Por exemplo, pesquisadores das áreas das exatas, que precisam de um equipamento, conseguem facilmente lá.

Aqui no Brasil, muitas vezes precisa de verba ou precisa de importar alguma coisa. Devido a essa dificuldade, acaba limitando muito conteúdo por falta de equipamentos da área que está sendo desenvolvida a pesquisa.

Fora do país, o estímulo é maior e leva o estudante a ampliar o leque de pesquisas.

Também tem a questão do pós curso superior. Lá fora, as pessoas estão mais motivadas em relação a emprego. Enquanto no Brasil, dentro da universidade, os estudantes já estão desmotivados se conseguirão trabalho.

6) Segundo dados do MEC, o Censo 2017 do ensino superior apontou que existem mais de 2,4 mil instituições de ensino superior no país. Você acredita que o ensino superior virou comércio?

Isso é preocupante, porque é preciso ver qual a qualidade de ensino que essas universidades estão oferecendo. O MEC tem que fiscalizar para que não se tornem verdadeiras fábricas de diplomas.

Nós estamos ampliando as universidades, mas precisamos tomar muito cuidado com a qualidade do ensino.

7) Você acredita que o sistema de cotas brasileiro é bom? Você é a favor ou contra?

No dia em que o Brasil voltar a ter educação pública de qualidade, eu acredito que aí é o momento em que nós não precisaremos de cotas, porque todo mundo vai para um vestibular ou Enem de igual para igual, ou seja, os mesmos conteúdos foram oferecidos para todos.

Na atual conjuntura, com essa falência do ensino público, os alunos têm muita deficiência de conteúdo e por isso eu sou a favor das cotas sociais e raciais.

As cotas raciais existem até como uma forma de contemplar aquele resgate lá no passado, onde o negro teve a liberdade, mas não foi inserido no mercado de trabalho. Pelo contrário, ficou marginalizado.

Por outro lado, tem muitos negros que podem pagar escola para os seus filhos, enquanto muitos brancos estão em nível social baixíssimo e não têm condição de estudar. Então, sou a favor das cotas sociais também.

Mas, por um tempo, porque quando conseguirmos educação pública de qualidade, poderemos extinguir todas as cotas.

8) Quais são os principais desafios em relação a educação no Brasil?

Um grande desafio hoje é a motivação dos professores da educação básica. Primeiro é preciso motivá-los para então motivar os alunos. Só assim será possível reduzir a evasão escolar.

Também é preciso mudar a grade curricular dos estudantes e inserir conteúdos que os motivem. Um exemplo é o trabalho que realizamos aqui na ETEC. Incluímos o empreendedorismo na metodologia aplicada e reduzimos a evasão escolar.

Em Franca, a indústria gira em torno do setor coureiro e calçadista. No curso técnico de curtimento, havia grande evasão escolar por causa do desemprego gerado pelos curtumes e fábricas de calçados, até porque muitas indústrias saíram da cidade por conta de incentivos fiscais.

Então, para reverter isso, trabalhamos o empreendedorismo com os alunos. Muitos dos estudantes formados já se tornaram empreendedores.

9) De que forma motivar os professores?

Através da capacitação. Rever o curso superior que está formando esses profissionais. Já os professores que estão formados, muitos precisam passar por uma reciclagem, porque a motivação vem junto com a capacitação.

Preparar esse professor para estar dentro de uma sala de aula, para estar isento de qualquer tipo de preconceito, então ele conseguirá trabalhar a motivação dos estudantes e reduzir a evasão escolar.

Mas eu acho que cada um pode fazer a sua parte e contribuir para a melhoria da educação. Não precisa ficar esperando o overno.