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Universia Brasil

União em prol da pesquisa

Publicado em 16 agosto 2007

Por Lilian Burgardt

IES particulares criam rede para compartilhar informações e projetos

No estado de São Paulo, algumas universidades particulares estão movendo grandes esforços para dar um fim ao rótulo tão difundido em todo o país: "instituição privada não faz pesquisa". O movimento toma força já que, apesar de investir em iniciação científica e na criação de mestrados e doutorados com consistência, muitas delas ainda encontram dificuldade para emplacar bons projeto científico. Na maior parte dos casos, porque disputam recursos com IES (Instituições de Ensino Superior) tradicionais cujo foco na pesquisa é uma realidade há muitos anos.

Univap (Universidade do Vale do Paraíba), UnG (Universidade de Guarulhos), Unicid (Universidade da Cidade de São Paulo), Unicsul (Universidade Cruzeiro do Sul), Unicastelo (Universidade Camilo Castelo Branco) e Universidade São Marcos são as vanguardistas que, em 2006, decidiram dar vida à Repesp (Rede de Pesquisa do Estado de São Paulo), cuja missão é unir pesquisadores para desenvolver projetos de pesquisa bem sucedidos nas IES particulares e elevar as chances de tais trabalhos conseguirem recursos para sair do papel. "A rede foi criada para fortalecer os projetos das particulares dando a chance de que elas possam investir em pesquisa sem que tenham que arcar integralmente com os custos, como vem acontecendo até hoje", explica o pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da Unicid, Jair Militão.

Segundo Militão, a Unicid tem um envolvimento profundo com questões sociais. Em pouco tempo, passou a ser inegável a necessidade de investir em programas de pesquisa nas áreas em que a universidade apresentava mais força. Assim, em 2001, o então professor da USP (Universidade de São Paulo), Jair Militão foi chamado para ajudar a consolidar um dos mestrados da universidade e fortalecer a equipe de pesquisa e pós-graduação em educação. "Com o passar dos anos, a gestão da instituição passou a consolidar a preocupação com a pesquisa, além do ensino e da extensão. Essa mentalidade é que abriu portas para que a Unicid pudesse se envolver em um projeto como este", diz.

O pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da Unicastelo, Leonardo Simone, também acredita que o envolvimento da universidade com o compromisso social foi um dos catalisadores para que a diretoria da instituição percebesse a necessidade de trabalhar fortemente com pesquisa. A partir do momento que os alunos se envolviam nos projetos de extensão, desenvolviam mais consciência em relação ao seu compromisso com a sociedade identificando mais essa missão da universidade.

Com o tempo, passou-se a investir em iniciação científica e ampliar a oferta de projetos envolvendo alunos. Daí foi um pulo para enxergar a necessidade de apostar na pós-graduação. "O fortalecimentos dos mestrados e doutorados mostrou que a universidade estava no caminho certo. No entanto, com muitas dificuldades para fazer pesquisa, obter financiamento e poder se consolidar como universidade envolvida com o desenvolvimento científico no país. Por isso, o envolvimento da universidade com a Repesp se mostrou fundamental", declara Simone.

Segundo o diretor do IP&D (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento) da Univap, também responsável pelos programas de pós-graduação stricto sensu da universidade, Macos Tadeu Tavares Pacheco, o projeto vem suprir a necessidade que as instituições particulares têm de angariar fundos junto a órgãos como a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para ver seus projetos saírem do papel.

"Quando a universidade particular, comunitária ou não, estabelece um bom nível de pesquisa e pós-graduação, não existe dificuldade específica. O problema é que, para alcançar esse nível de excelência, ela tem que contar apenas com seus recursos, podendo ter apoio das agências somente quando alcança a qualidade de outras Instituições de Ensino Superior já consolidadas na área", diz. Ele acredita ainda que a Repesp irá não só funcionar com uma rede integrando bons projetos de universidades, como também, irá reunir mão-de-obra qualificada para que cada vez mais sejam criados projetos importantes, com caráter interdisciplinar e o melhor: ampliados a mais de uma instituição, e não de forma isolada como acontece hoje.

Primeiros passos

A rede identificou três pólos significativos para atuar de imediato: saúde, educação e meio-ambiente. Já existem, inclusive, projetos da Repesp em andamento, prontos para serem enviados aos órgãos de fomento. Um dos destaques é denominado "sociedade e transformação urbana ambiental" que trata da elaboração de macrozoneamento sócio-ambiental da bácia hidrográfica do rio Aricanduva.

O projeto pretende realizar os seguintes estudos e pesquisas: diagnóstico da qualidade e nível de degradação ambiental; identificação da vulnerabilidade ambiental; demandas sociais em relação á vulnerabilidade ambiental; saúde e qualidade de vida da população; caracterização dos aspectos florísticos e a desarborização urbanas, bem como, as ações executadas pelo governo municipal em relação à vulnerabilidade ambiental; nível de eco-percepção e alunos e professores, além das ações pedagógicas realizadas pelas escolas da região.

A Repesp irá pleitear financiamento por meio do programa de políticas públicas da Fapesp. Para a primeira etapa os recursos não passam de R$ 30.000 e para a segunda etapa podem chegar a R$ 200.000. O principal objetivo desse projeto é subsidiar a implantação da APA (área de proteção ambiental) Aricanduva. A equipe do projeto tem três professores doutores da Univap, quatro da Unicid e quatro da Unicastelo.

Segundo a equipe que faz parte do projeto, a criação e implantação da APA visa "assegurar o bem-estar das populações humanas e conservar ou melhorar as condições ecológicas locais", segundo o artigo 8º da lei nº 6902/81. Assim, a APA difere de outras Unidades de Conservação (Parques Nacionais, Reservas Biológicas, Estações Ecológicas, etc.) por não exigir a desapropriação de terras, buscando, antes, integrar o direito individual à propriedade ao interesse coletivo pela conservação dos ecossistemas naturais para as presentes e futuras gerações, conforme determina o artigo 225 da Constituição Federal.

Fortalecendo a rede

Vale lembrar que a iniciativa da Repesp partiu dos gestores das universidades particulares de inserir suas instituições neste contexto, até então pouco explorado por elas. No entanto Pacheco defende que cabe aos pesquisadores integrantes da rede difundir suas idéias e fortalecer o projeto aumentando a adesão de outras IES particulares. "Esse era um sonho antigo que começou aqui na Univap e na UnG, mas vem conquistando espaço. A idéia é que cada vez mais universidades particulares se envolvam, para que, no futuro, não tenhamos mais essa diferença entre universidade pública e particular que faz pesquisa. É universidade? Então tem que ter pesquisa", diz.

O professor Militão complementa que as universidades particulares não competem entre si em pesquisa, como é o caso das públicas, daí a chance da Repesp se consolidar. Na opinião de Simone, a rede é um símbolo de que trabalhar junto pode ser possível. "Imagine se as secretarias de saúde, educação, transporte funcionassem de forma integrada? Certamente os resultados para a sociedade seriam muito melhores", afirma.

Quanto ao fato da Repesp causar ciúme em muitas instituições públicas por ser "mais uma a disputar fomento", os pesquisadores são enfáticos: "Não estamos aqui para disputar nada com ninguém, até porque há espaço para todos trabalharem", diz Simone. "O que queremos é que projetos de boa qualidade e que representem diferencial para a sociedade tenham a chance de sair do papel e não ficar engavetados por falta de recursos", ressalta Pacheco.