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Jornal do Estado (PR) online

Unhas guardam registros da dieta humana

Publicado em 13 julho 2006

Da Agência FAPESP

Quando você corta as unhas, nem imagina que está jogando fora um registro do que comeu há uns seis meses. E se tem cabelos compridos... cada fio conta os últimos anos da sua vida. Essa história pode ser desvendada com ajuda dos isótopos estáveis. É o que fazem pesquisadores como Gabriela Bielefeld Nardoto e Luiz Antonio Martinelli, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba, que utilizam essa técnica para descrever aspectos diversos da vida das pessoas e outros seres vivos.
Os pesquisadores estavam curiosos em investigar como a "cultura de supermercado" alterou os hábitos alimentares de populações urbanas. Para isso, recolheram pedacinhos de unhas pelo mundo afora: Estados Unidos, Europa, Amazônia e Região Sudeste do Brasil. Os resultados estão em artigo que será publicado no American Journal of Physical Anthropology em setembro, mas já está disponível na edição eletrônica do periódico.
Sua expectativa era encontrar uma dieta homogênea entre áreas distantes, como resultado da globalização alimentar. Mas não é isso que se vê. As análises feitas pelo grupo de Piracicaba mostram que a partir da informação contida nos fragmentos de unhas é possível distinguir o que a pessoa andou comendo e onde: no Sudeste brasileiro, em pequenas comunidades amazônicas, nos Estados Unidos ou na Europa. Além disso, Gabriela se surpreendeu em encontrar diferenças marcantes dentro da região amazônica: "A população de Santarém já tem uma dieta completamente modificada em relação à região". Os dados mostram que, com freqüência, os alimentos vendidos em Santarém são inclusive produzidos no Sudeste.
O segredo contido nas unhas está nos isótopos estáveis, elementos químicos iguais em número de prótons, mas com quantidades diferentes de nêutrons. Isso faz com que o mesmo elemento - como oxigênio, hidrogênio, carbono ou nitrogênio - possa ser mais leve ou mais pesado, conforme o número de nêutrons em seus átomos. Os isótopos estáveis, ao contrário dos radioativos, mantêm a mesma constituição ao longo do tempo. Para o nitrogênio, por exemplo, o isótopo mais comum é o 14N, que se lê "nitrogênio-14". Mas na natureza existe também sua forma mais pesada, o 15N.
"Diferenças no sinal isotópico do carbono e do nitrogênio presente nas unhas de pessoas vivendo em diferentes regiões persistem apesar da cultura de supermercado", explica Gabriela. A pesquisadora acrescenta que grande parte da diferença em isótopos de nitrogênio observada entre partes mais e menos desenvolvidas da América se deve ao uso de fertilizante, que é seis vezes maior nos Estados Unidos em relação ao Brasil.
"Você é o que você come, mais três partes por mil" é o lema dos especialistas em ecologia isotópica. Ou seja, se um animal herbívoro tem uma proporção de 7‰ (partes por mil) de 15N em relação a 14N, seu predador terá 10‰. As proporções entre isótopos mais e menos comuns, para diversos elementos químicos, formam a "assinatura isotópica" de um indivíduo num dado momento.
Variação regional - "O nitrogênio varia conforme o nível trófico e o uso de fertilizantes; já o carbono reflete o tipo de planta consumida, C3 ou C4", explica a pesquisadora. Plantas C4 são as da família das gramíneas, como milho e cana-de-açúcar; as demais são chamadas C3, de acordo com o tipo de fotossíntese que realizam. A população do Sudeste brasileiro tem mais 13C (carbono-13) em suas unhas devido ao maior consumo de plantas C4. Segundo a pesquisadora, esse resultado reflete a alimentação do gado, que no Brasil tem mais acesso a pasto. A pecuária em confinamento, disseminada nos Estados Unidos, produz carne com uma proporção menor de 13C. Em ambos os países, vegetarianos apresentam valores mais baixos para os dois elementos, em relação aos onívoros da mesma região. Além disso, outra surpresa foi verificar que os brasileiros não comem mais carne do que os norte-americanos.
As diferenças em relação à dieta européia são também marcantes. "Eles apresentam uma assinatura de carbono-13 ainda mais baixa do que os norte-americanos", diz Gabriela. Segundo ela, isso ocorre porque o consumo direto de milho não faz parte da cultura européia, e o açúcar é feito de beterraba em vez de cana.