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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Unesp tem projeto internacional aprovado contra zika e dengue

Publicado em 22 março 2017

A Unesp, juntamente com universidades da Itália e da Holanda, teve projeto aprovado para financiamento pelo Humans Frontiers Science Program (HFSP), uma das chamadas mais concorridas da Europa. A proposta ficou em quinto lugar entre as 21 aprovadas. Das 1.073 cartas de intenção enviadas inicialmente, apenas 78 foram selecionadas para a segunda fase (submissão da proposta completa) e, dessas, 21 foram aprovadas, ou seja menos de 3% das que se candidataram inicialmente.

Parte da pesquisa no Brasil será feita no laboratório do Instituto de Biotecnologia (IBTEC) em Botucatu. O projeto vai focar inicialmente em zika e depois dengue, num processo chamado imunidade transgeracional, ou seja, o estudo da imunidade que é passada de uma geração para outra de mosquitos.

"Vamos investigar essa hipótese. A ideia geral é que, quando o vírus infecta um mosquito, transfere para o genoma dele um pedaço do genoma viral. E esse fragmento do material genético viral, chamado de NIRV (non-retroviral integrated RNA virus sequence), que passa a integrar o DNA do mosquito, é usado pelo próprio inseto para produzir moléculas que combatem o vírus quando ele é infectado novamente. Uma vez que o NIRV integrado ao genoma do inseto é específico para cada tipo de vírus que o infecta, nosso trabalho pode gerar a primeira evidência de que insetos também possuem uma resposta imune adaptativa, além da sua já tradicional e caracterizada resposta inata contra patógenos. Vamos investigar se isso de fato acontece e qual é o mecanismo que rege esse processo", diz Jayme A. Souza-Neto, que lidera o Laboratório de Genômica Funcional e Microbiologia de Vetores (Vectomics), vice-Coordenador Executivo do IBTEC da Unesp e professor da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp de Botucatu.

Souza-Neto informa ainda que a proposta não podia ser feita baseada em colaborações que existiam anteriormente e que os pesquisadores necessariamente precisavam fazer algo diferente do que vinham realizando até então. No projeto, portanto, as atividades serão igualmente divididas, não havendo diferença de importância entre o que será feito no Brasil, na Itália e na Holanda. O fluxograma de atividades proposto aponta para uma grande interação e troca de dados entre os grupos envolvidos. Participam do projeto como co-coordenadores os Profs. Ronald van Rij (Radboud University Medical Center, Holanda) e Mariangela Bonizzoni (Universidade de Pavia, Itália).

O grupo liderado pelo professor da Unesp estará envolvido em todas as etapas do projeto, que vão da identificação à validação das NIRVS no mosquito, mas principalmente com ensaios no mosquito adulto, incluindo a geração de mosquitos geneticamente modificados, para avaliar o provável efeito antiviral das NIRVs. Os outros grupos atuarão também em ensaios de bioinformática para analisar a sequência do DNA do mosquito, o que deve ser feito na Itália, e ensaios antivirais com as NIRVS em culturas celulares de mosquito, o que deve ser feito na Holanda. No Brasil serão utilizadas as instalações de segurança já existentes para infectar mosquitos e manipular o vírus e o inseto infectado, além da estrutura biomolecular de injetores e bioinjetores microscópicos para manipular embriões e gerar mosquitos geneticamente modificados, estruturas previamente adquiridas com o apoio da Fapesp através de um auxílio a Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes concedido a Souza-Neto em 2013.