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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Unesp prepara robôs para lavoura

Publicado em 23 julho 2006

Um robô social, adaptado para o serviço coletivo, para o "trabalho de formiguinha". Cada um fazendo a sua parte para resolver um problema que seria impossível se fosse enfrentado individualmente. Esse projeto de dividir as tarefas entre pequenos robôs vem sendo desenvolvido por professores e alunos da Faculdade de Engenharia Elétrica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru há dois anos.
Os idealizadores da pesquisa basearam-se na própria natureza como fonte de inspiração. "Uma formiga não é inteligente, mas a sociedade (formigueiro) acaba sendo inteligente. Porque com pequenas ações você configura uma ação coordenada que dá resultado positivo. A somatória dos esforços resulta em um desempenho muito melhor do que se cada um agisse individualmente", compara o professor José Eduardo Castanho, um dos envolvidos no projeto.
Além dele, fazem parte da empreitada tecnológica os professores Marcelo Nicoletti Franchin e Mário Eduardo Bordon. Todos do Departamento de Engenharia Elétrica. Basicamente, eles atuam na retaguarda, orientando os alunos no desenvolvimento do projeto.
Uma das aplicações práticas imaginada para o trabalho coletivo de robôs seria na agricultura. De acordo com o cenário imaginado pelo professor Castanho, uma equipe de pequenos robôs seria colocada em meio a uma plantação com o objetivo de acabar com o mato, sem a necessidade de usar herbicida.
Esses pequenos seres eletrônicos seriam equipados com sensores capazes de distinguir e, em seguida, eliminar as plantas daninhas, que prejudicam a plantação. "Teríamos uma agricultura mais saudável, mais econômica, com maior rendimento. Esse é um foco que a gente pensa que, de repente, poderia contribuir", imagina Castanho.
Mas ainda está longe o dia em que uma plantação de soja, por exemplo, será invadida por um exército de robozinhos, ávidos por encontrar um matinho pela frente. "Acredito que dificilmente teremos um robô-formiga nos próximos dez anos", prevê o professor. Até que isso seja colocado em prática, um longo caminho ainda precisa ser percorrido.
Além de dotar o robô para o trabalho cooperativo, outras limitações precisam ser superadas. Por exemplo: como energizar esse robô de maneira adequada. Será preciso botar um poste no meio da plantação? Será que o robô consegue andar no barro? Será que ele consegue subir por um terreno íngreme?
"Tem um monte de coisa que inicialmente a gente não imagina. Os problemas vão aparecendo conforme nós vamos avançando", comenta Castanho. A aplicação do projeto na agricultura é apenas uma possibilidade. Os benefícios, casos eles sejam colocados na prática, podem ser estendidos para outras áreas.
Segundo o professor, o tema robôs cooperativos envolve uma suposição de que às vezes um problema complexo pode ser dividido em tarefas pequenas, que podem ser gerenciadas de maneira mais fácil.
"(Pôr o projeto para funcionar) é um alvo um pouco distante, até porque é uma tecnologia ainda pouco explorada. Talvez daqui dez anos tenhamos resultados mais concretos. Mas é assim que funciona, nós não focalizamos para hoje nem amanhã, mas bem lá na frente."

Base pronta
Um outro projeto extraclasse, que obteve grande repercussão, tem servido de base para os novos experimentos dos alunos da Faculdade de Engenharia Elétrica de Bauru. Eles estão utilizando o futebol de robôs para aprimorar o trabalho coletivo, que é o objetivo da robótica móvel e cooperativa imaginada no projeto.
Para que os jogadores executem suas tarefas de maneira adequada é preciso fazer com que eles interajam entre si, que consigam localizar o outro e também a bola. É preciso definir a estratégia de jogo que será adotada, quem vai atacar e quem vai defender. "Tem muitos estudos sendo desenvolvidos para resolver problemas que parecem brincadeiras, mas na verdade tem na sua base equações relativamente complexas", diz o professor José Eduardo Castanho, um dos idealizadores do projeto de robôs cooperativos. "(O trabalho) é motivador, faz com que os alunos, por brincadeira, estudem problemas sérios."

Falta tempo para dedicar à pesquisa
Mas não são apenas os alunos de engenharia da Unesp que não têm tempo para uma dedicação maior ao projeto. Assim como eles, os professores também não estão envolvidos de uma forma mais efetiva. "A gente dedica um tempo para a orientação de alunos, outro para o ensino e sobra um pouco para a pesquisa. Não dá para ficar focado só nisso", comenta o professor José Castanho.
O ideal, segundo ele, seria a implantação de cursos de pós-graduação voltados à engenharia elétrica. "Os alunos de pós têm um tempo de dedicação maior às pesquisas, porque esse é o foco do curso deles", explica. A implantação da pós já foi solicitada pelo Departamento de Engenharia Elétrica, mas ainda não houve resposta. "Estamos confiantes", diz o professor.
No que diz respeito aos recursos financeiros, o projeto dos robôs cooperativos conta com uma ajuda discreta da própria faculdade. "Não é muita coisa, mas temos conseguido comprar os componentes", revela Castanho. Os gastos com equipamentos giram em torno de R$ 2 mil a R$ 4 mil dependendo do robô que está sendo montado.
"Nós costumamos usar muito refugo (peças de equipamentos usados). Se tivéssemos mais recursos, o desenvolvimento do projeto seria mais rápido." Castanho conta que pensou em pedir ajuda a instituições como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), mas acha melhor aguardar resultados mais concretos. "No momento, temos trabalhado só com alunos da graduação. Isso limita um pouco a nossa possibilidade de resultados."