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Unesp detecta tipo II do toxoplasma pela primeira vez na América do Sul

Publicado em 30 setembro 2009

Uma pesquisa desenvolvida com ovelhas de abatedouro na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp, campus de Botucatu, isolou e detectou por genotipagem, pela primeira vez na América do Sul, o tipo II do Toxoplasma gondii.

Essa variedade do toxoplasma é a que mais atinge pacientes com a síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) no mundo.

Pelo pioneirismo do trabalho, Rodrigo Costa da Silva, doutorando em Saúde Animal, Saúde Pública Veterinária e Segurança Alimentar pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp, câmpus de Botucatu, recebeu o prêmio "Oversea Scholarship Award", concedido à estudantes de doutorado e pós-doutorado com pesquisas em destaque na décima edição do "International Congress on Toxoplasmosis", realizado em Kerkrade, Holanda, de 19 a 24 de junho.

Orientado pelo professor Hélio Langoni, o trabalho de Rodrigo Silva tem como foco a genotipagem de Toxoplasma gondii, causador da toxoplasmose, zoonose que pode ser transmitida através do consumo de carne crua ou mal cozida de animais de produção.

A partir do exame de órgãos de ovelhas abatidas, a pesquisa buscou verificar se os animais eram soropositivos para toxoplasmose e, em caso afirmativo, isolar o parasito em laboratório para determinar o perfil do genoma e realizar a análise filogenética para possibilitar a verificação da sua ocorrência e a comparação com os parasitos já isolados até o momento no Brasil e no exterior.

O Toxoplasma gondii tem o perfil genético muito variado no mundo, principalmente no Brasil, com várias características genéticas peculiares e específicas, estabelecidas em razão das mutações ocasionadas por condições do ambiente e características adaptativas aos hospedeiros. "As modificações sofridas pelo parasita nada mais são do que o resultado de alterações evolutivas em determinadas regiões do seu genoma", explica Rodrigo. "São estas alterações que vão definir as características e modificações de comportamento do Toxoplasma gondii, inclusive se ele vai infectar de forma preferencial animais ou seres humanos e os tipos de dano que ele pode causar".

Atualmente, existem três tipos clássicos de Toxoplasma gondii relatados na literatura, e vários tipos atípicos sujeitos a constantes mutações ambientais. O tipo I, mais relacionado a infecção congênita transmitida da mãe para o filho, e o tipo III, mais comum em animais, são os tipos presentes no Brasil. Porém, o tipo II, que acomete principalmente os pacientes com AIDS, nunca havia sido identificado no país até o presente estudo. Os tipos atípicos também são encontrados frequentemente no país e, por meio de estudos genéticos de evolução, suspeita-se que sua origem seja brasileira.

Metodologia pioneira

Para alcançar os resultados, a pesquisa de Rodrigo utilizou uma combinação de técnicas moleculares desenvolvida na China Agricultural University e introduzida no Brasil pelos pesquisadores da Unesp e da USP, que analisa doze regiões do DNA estudado. "Esses doze marcadores são suficientes para determinar o genótipo do parasito. Até há pouco tempo, este mesmo estudo era realizado em apenas um marcador, ou seja, uma região apenas do DNA. Através dessa nova combinação de técnicas de genotipagem e maior número de regiões estudadas é possível ter maior exatidão nos resultados".

Na Europa o toxoplasma tipo II é muito freqüente. Há uma alta casuística relatada de toxoplasmose em pacientes com AIDS. "No Brasil, temos grande problema de saúde pública nas regiões mais carentes do país. O consumo de carne crua ou mal cozida ainda é uma realidade em muitas regiões", explica Rodrigo. "A educação em saúde é uma arma da população para quebrar o ciclo evolutivo do parasito e evitar a infecção. A região Sul do país possui ampla criação de ovinos destinada a produção de carne e comercializada no país e outros países. É nesta região que o novo tipo do parasito foi identificado e isolado pela primeira vez na América do Sul".

A adoção da nova combinação de técnicas de análise do DNA foi viabilizada em colaboração com o Departamento de Microbiologia, da Universidade do Tennessee, Knoxville, EUA. "O estabelecimento dessa parceria e metodologia deixa a Unesp com diagnóstico de ponta para a toxoplasmose", afirma o doutorando. A pesquisa de Rodrigo foi financiada pela Fapesp com bolsa de doutorado e auxílio pesquisa. Ele também contou com auxílio da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Unesp.

Fonte e informações adicionais: FACULDADE DE MEDICINA VETERINÁRIA E ZOOTECNIA DA UNESP - CAMPUS DE BOTUCATU - (14) 3811-6157