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Unesp de Assis desenvolve trabalhos pioneiros com células-tronco

Publicado em 23 maio 2016

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) do câmpus de Assis desenvolvem pesquisas com células-tronco que poderão influenciar positivamente no tratamento de várias doenças. Uma das iniciativas mais promissoras é a que lida com pessoas que têm enfisema pulmonar. Outra trata de feridas causadas por diabetes, com resultados palpáveis.

 

O médico geneticista e professor João Tadeu Ribeiro Paes, do Departamento de Ciências Biológicas da Unesp de Assis, está à frente dessas pesquisas, como coordenador do Laboratório de Genética e Terapia Celular (GenTe Cel) e orientador de vários pesquisadores, tanto na Unesp quanto na Universidade de São Paulo (USP). Em 2011, trabalho desenvolvido no laboratório rendeu a primeira publicação científica, em nível mundial, sobre o uso de células-tronco no tratamento de enfisema pulmonar.

 

 

 

 

Pesquisas básicas em várias frentes são importantes para plicações práticas em outros projetos

Modelo animal

O enfisema pulmonar é uma doença resultante da degradação das paredes dos alvéolos que compõem o pulmão. Sua causa principal é o tabagismo. A pessoa com enfisema passa a ter dificuldade respiratória crescente. Nos casos terminais, o paciente sente falta de ar até em tarefas simples, como a de vestir uma camisa. “É uma doença que não tem tratamento curativo, apenas paliativo. Tentamos então idealizar a possibilidade de emprego das células-tronco como alternativa terapêutica”, explica Paes.

 

O trabalho passou por várias fases. Em 2006, teve início o modelo animal. No decorrer dessa etapa, diz o pesquisador, “desenvolvemos um aparato para indução do enfisema em ratos e camundongos por exposição à fumaça do cigarro”. Esse equipamento, construído no laboratório, consiste em uma caixa acrílica acoplada a uma bomba de máquina de lavar que aspira a fumaça e a joga na caixa, onde estão os animais.

 

Durante seis meses, de forma ininterrupta, os animais foram submetidos à fumaça. Depois de contraírem o enfisema, houve a aplicação de células-tronco, para estudo de seus efeitos. “Conseguimos uma resposta morfológica, ou seja, comprovamos que o tecido dos pulmões foi reconstruído”, afirma o professor da Unesp.

 

Pacientes humanos

A partir desses resultados, os pesquisadores fizeram pedido à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), vinculada ao Ministério da Saúde, para a realização de testes em humanos. A instituição autorizou o estudo com quatro pacientes.

 

Nessa fase, a pesquisa não avaliaria a eficácia do tratamento, mas apenas a segurança, para comprovar que a infusão de células-tronco não traria complicações à saúde dos participantes. Paes relata o resultado: “Tivemos grande sucesso. Mostramos que a terapia não trazia nenhum efeito adverso aos pacientes. Um deles, após 23 meses de terapia, apresentava discreta melhora”. Isso significa que, pelo menos nesse caso, ainda que não fosse o objetivo da pesquisa, comprovou-se que o tratamento surtiu efeito.

 

 

Trabalhos com células-tronco poderão influenciar positivamente no tratamento de várias doenças

A continuidade é o trabalho que está em desenvolvimento agora. Projeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e realizado pelo GenTe Cel em parceria com uma entidade sem fins lucrativos da capital, o Instituto de Ensino e Pesquisa São Lucas (IEP), fará a infusão de células-tronco em 20 pacientes com enfisema pulmonar, para avaliar os resultados da terapia.

 

Os participantes da pesquisa foram divididos em quatro grupos. O primeiro receberá tratamento convencional, sem uso de células-tronco; o segundo receberá infusão de células-tronco retiradas da medula do próprio paciente; o terceiro também será tratado com células-tronco, mas provenientes do tecido adiposo (da barriga); e o último receberá uma combinação de células- tronco da medula e do tecido adiposo. Essa técnica híbrida, de acordo com Paes, é inédita, não existe ainda em nenhuma pesquisa sobre o assunto.

 

Diabetes

Uma das orientandas do professor Paes, Talita Stessuk, obteve o título de doutora, neste mês, ao defender na USP tese com base em sua pesquisa com células-tronco para cuidar de feridas causadas por diabetes. “Eram seis pacientes, todos com feridas crônicas, que não cicatrizavam há mais de seis meses”, afirma Talita. De cada um deles foram retirados 5 gramas de gordura, a partir da qual a pesquisadora isolou as células-tronco e as cultivou.

 

Num procedimento pioneiro, Talita coletou também sangue dos pacientes e separou o plasma rico em plaquetas, que juntou às células-tronco como um suporte. “A mistura transformou-se em uma biomembrana, que foi aplicada sobre as feridas. É uma película bem fina, um gel que cobre toda a lesão”, explica a pesquisadora.

 

Os resultados foram animadores, segundo Talita: “As feridas menores já apresentavam melhoras a partir de sete dias. Os seis pacientes tinham nove lesões no total. Em cinco delas, houve 100% de cicatrização e, na média, o índice de cicatrização foi de 70%”.

 

Paes diz que a pesquisa chamou a atenção da banca examinadora da tese por sua qualidade. Seus resultados podem ser aplicados de forma imediata, segundo a pesquisadora, não apenas no caso de pessoas com diabetes, mas em situações como a de tratamento de pacientes que estão em UTI e desenvolvem escaras (necroses).

 

 

 

 

Pesquisa com células-tronco para tratamento de feridas teve orientação do professor Paes

Importância da pesquisa básica

Os trabalhos do GenTe Cel em pes quisa básica são desenvolvidos em vá rias frentes. Sua importância é grande, segundo o professor João Tadeu Ribeiro Paes, para o desenvolvimento de aplicações práticas testadas em outros projetos. “Um dos trabalhos recentes estuda os efeitos genotóxicos, ou seja, efeitos de danos genéticos de células-tronco em cultura”, diz Paes. Como essas células podem vir a ser utilizadas no tratamento de seres humanos, é importante ampliar o conhecimento a respeito de eventuais danos.

 

As terapias exigem grande nú mero de células-tronco e, para obter a quantidade necessária, é preciso cultivá-las no laboratório, em recipientes plásticos semelhantes a garrafinhas. A forma de cultivo é passar as células, que estão num meio de cultura, de uma garrafinha para outra, à medida que proliferam. O estudo avalia quantas passagens podem ser feitas de forma segura.

 

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) aprovou projeto para utilização de biorreator no laboratório, o que amplia a possibilidade de proliferação das células-tronco em larga escala. Está prevista também a modernização dos equipamentos, a partir de verba recebida do Ministério da Educação.

 

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