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Universia Brasil

UNESP de Araraquara pesquisa cimento para próteses fixas obtido à base de óleo de mamona

Publicado em 11 julho 2008

Estão sendo desenvolvidas, na Faculdade de Odontologia (FO) de Araraquara, campus da Unesp, pesquisas para a elaboração de um produto à base do polímero de mamona, que será utilizado para a cimentação de próteses parciais fixas. A responsável pelo desenvolvimento das pesquisas é a docente Lígia Antunes Pereira Pinelli, da disciplina de Prótese Parcial Fixa, do Departamento de Materiais Odontológicos e Prótese da Faculdade.

Trabalhos com o polímero derivado da mamona vêm sendo feitos desde 1983 pelo Grupo de Química Analítica e Tecnologia de Polímeros do Instituto de Química de São Carlos - USP que desenvolvem estudos nas áreas básicas e aplicadas. "A aplicação da mamona, especificamente como um biopolímero, surgiu na área médica seguindo duas tendências; uma que estudou materiais inertes, ou seja, que não provocam interações químicas no organismo e, outra, que estudou os polímeros biointegráveis ou absorvíveis", diz a docente coordenadora da pesquisa. "No campo odontológico, os pesquisadores Lamano Carvalho em 1997 e Costa, no mesmo ano, foram os pioneiros na utilização da poliuretana derivada da mamona", completa.

O pesquisador Lamano Carvalho e seus colaboradores, avaliaram a cronologia de cicatrização alveolar implantando o polímero imediatamente após a extração dental, enquanto Costa e seus colaboradores testaram a biocompatibilidade da poliuretana, comparando-a com o óxido de zinco e eugenol, um material classicamente utilizado na cimentação de peças protéticas. Em seus estudos, os pesquisadores concluíram que os materiais apresentaram biocompatibilidade aceitável. Desde então, diversos estudos foram realizados testando-se a biocompatibilidade e as atividades antibacterianas e antifúngicas do polímero de mamona.

Na FO, a possibilidade de se desenvolver a pesquisa voltada à elaboração do cimento para a fixação de peças protéticas, surgiu em 2003, baseado nas boas propriedades até então encontradas pelos estudos previamente realizados. "A mamona é uma planta vista em abundância no Brasil e possui grande potencial óleo-químico, o que garante facilidade de obtenção de polióis e pré-polímeros para as diversas áreas de utilização. Por ser um poliéster, possui fácil processabilidade, flexibilidade de formulação, baixa temperatura de polimerização, ausência de emissão de gases tóxicos e versatilidade de resistência estrutural, além de baixo custo. Essas características fazem o óleo de mamona um material com grandes vantagens como matéria-prima para a confecção de agentes cimentantes em Odontologia", explica a docente Lígia Pinelli.

A pesquisa está dividida em fases laboratoriais e clínicas, procurando-se testar a viabilidade do uso do cimento poliuretano à base de mamona. Os principais testes mecânicos nos quais se determinou a aplicabilidade do material diante de diferentes propriedades, já foram realizados nestes 5 anos de estudo. No momento, a pesquisa tem a finalidade de testar diferentes composições do material, adicionando outros materiais denominados "cargas" que de acordo com sua característica e quantidades, alteram suas propriedades. Serão realizados também, testes que visam avaliar a adesividade do polímero ao metal e estruturas dentais.

O cimento poliuretano vegetal à base de mamona poderá ser utilizado como agente de cimentação de peças protéticas, por apresentar importantes propriedades mecânicas, oferecendo, por exemplo, resistência, tornando-se seguro para a fixação. Entretanto, para que o produto seja eleito como uma alternativa entre os demais materiais, novas pesquisas estão sendo realizadas para determinar a melhor quantidade de carga adicionada, que conferirá ao material melhores propriedades mecânicas. Atualmente, a carga adicionada é o carbonato de cálcio, embora existam outras possibilidades.

Os estudos feitos têm o apoio de várias entidades, que reconhecem a importância da pesquisa. Ao longo desse tempo de pesquisas, vários alunos foram contemplados com bolsas tanto Fapesp quanto Pibic. Não há previsão de término dessa linha de pesquisa, pois as possibilidades de estudos são muitas e faltam ainda os testes clínicos, por exemplo, uma nova pesquisa que estamos iniciando é a avaliação da atividade antifúngica do polímero de mamona em pacientes idosos portadores de lesões do tipo candidose, em uma parceria com o projeto de Extensão Universitária "Sorriso Solidário no Lar São Francisco de Assis", aponta a docente.

Material precursor neste tipo de emprego na odontologia, o cimento poderá ser no futuro, um material de primeira escolha na fixação de peças protéticas, como ressalta Lígia Pinelli: "Acredito que é um material pioneiro, pois envolve uma tecnologia nacional e relativamente barata. O mais importante ainda, é que visa o desenvolvimento de um material não obtido à base de petróleo, mas sim de biomateriais não poluentes, que não destruam o meio ambiente, que sejam biodegradáveis e biocompatíveis", diz a docente. Embora a mamona, disponibilizada em diversos produtos, seja comercializada por uma indústria de Araraquara, a comercialização do agente cimentante desenvolvido nesta faculdade, ainda depende da finalização dos testes clínicos.

A pesquisa pioneira com este tipo de material no Brasil, eleva a participação das instituições comprometidas com o desenvolvimento do produto, ao mesmo tempo em que, determina um grande passo na Odontologia atual. "Para a Faculdade, essa pesquisa é importante, pois criou uma importante parceria com outra instituição de ensino, o Instituto de Química de São Carlos-USP, o que dá a pesquisa uma conotação multicêntrica", ressalta Lígia.

Fonte: Unesp