Notícia

Jornal da USP

Uma unidade septuagenária

Publicado em 22 outubro 2012

Por Sylvia Miguel

O ano era 1918. A gripe espanhola matava milhares no Rio de Janeiro. No início do século 20, o Brasil parecia um grande hospital a céu aberto. Doenças como tuberculose, cólera, febre amarela e sífilis se alastravam, impactando as relações brasileiras de comércio exterior. A Cruz Vermelha Brasileira formava socorristas de guerra desde o primeiro grande conflito mundial. Mas, durante a epidemia de 1918, formou uma equipe de visitadoras sanitárias para atuar especialmente com a gripe espanhola. Edith Magalhães Fraenkel destacou-se pela atuação no Rio de Janeiro e recebeu o título de Sócia Remida da Cruz Vermelha Brasileira. Na verdade, sua trajetória estava apenas começando, antes de se tornar a primeira enfermeira brasileira, diplomada em 1925 nos Estados Unidos, e também a profissional que teria a missão de estruturar e dirigir a Escola de Enfermagem da USP.

Com uma história que se confunde com a da enfermagem no Brasil, a neta do líder republicano Benjamin Constant Botelho de Magalhães terá sua trajetória rememorada durante as comemorações dos 70 anos da Escola de Enfermagem da USP, criada por decreto em 1942 como Escola de Enfermagem de São Paulo. As celebrações, iniciadas em fevereiro, se estendem até novembro, com uma agenda de debates, simpósios e exposições, além do 3º Encontro Internacional de Pesquisa, que acontece de 29 a 31 de outubro no Centro de Convenções Rebouças. No dia 29, haverá a cerimônia de entrega do título de Professora Emérita a Paulina Kurcgant. A programação completa das comemorações pode ser conferida pelo link www.ee.usp.br/evento/2012/eeusp70anos/index.asp.

Livro – O lançamento do livro Edith Magalhães Fraenkel, reeditado pela Imprensa Oficial do Estado, com apoio financeiro da Fapesp e da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, está previsto para o dia 31 de outubro, na Escola de Enfermagem. Serão distribuídas 1.000 cópias para instituições de ensino, pesquisa e de saúde.

Talvez o interesse da obra esteja não apenas no relato do imenso legado de Edith à enfermagem brasileira, já que foi uma das responsáveis pela fundação da Associação Brasileira de Enfermagem, em 1926, e pelo lançamento do primeiro número da revista Anaes de Enfermagem, em 1932, hoje Revista Brasileira de Enfermagem, entre outras ações cruciais à profissionalização da área no Brasil.

Através da obra é possível revisitar um pouco da história brasileira e da própria USP, num momento, por exemplo, em que estava sendo fundado o Hospital das Clínicas, em 1940. Filha de diplomata, Edith tinha o idioma como um facilitador à sua formação. Ao chegar dos Estados Unidos, em 1925, foi nomeada instrutora da Escola de Enfermeiras Anna Nery (EAN), no Rio de Janeiro. A formação rigorosa e condição cultural diferenciada de Edith atendia ao interesse de Ethel Parsons – chefe de uma missão americana vinda ao Brasil em 1921 – de torná-la superintendente do Serviço de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP). A missão americana estava no Brasil a convite de Carlos Chagas, diretor do DNSP desde sua criação, em 1921.

“Carlos Chagas queria resolver os graves problemas de saúde pública do Brasil e, numa viagem aos Estados Unidos, viu que as questões sanitárias eram manejadas por enfermeiros. Por isso, trouxe uma missão americana, chefiada por Ethel Parsons, para combater doenças infecto-contagiosas. Mas tratar epidemias seria apenas uma solução local e efêmera. Então a missão propôs a criação de escolas que formassem gente da terra para combater os problemas sanitários e Carlos Chagas aceitou a proposta”, conta a professora Taka Oguisso, da Escola de Enfermagem, responsável pelo projeto de reedição do livro.

A passagem da década de 1930 trouxe a Edith grande experiência profissional e protagonismo político. Trabalhou intensamente junto à deputada feminista Bertha Lutz na conquista do direito ao voto feminino no Brasil e contra a incapacidade civil da mulher casada.

Em 1942, a criação do Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp) resultou num acordo bilateral entre Brasil e Estados Unidos, com a finalidade de preparar profissionais para o trabalho em saúde pública, incluindo médicos, engenheiros sanitaristas, enfermeiros de saúde pública e outros técnicos. Em 1943, foi firmado um contrato entre a Sesp e o governo do Estado de São Paulo para a edificação da Escola de Enfermagem de São Paulo.

Divisor de águas – A incumbência de elaborar as bases da Escola de Enfermagem e dos serviços de enfermagem do Hospital das Clínicas veio a partir de um convite a Edith feito em 1939 pela Fundação Rockefeller, que também apoiava a construção do prédio da escola. A edificação foi inaugurada em 31 de outubro de 1947.

A Escola de Enfermagem funcionou inicialmente nas dependências do HC e teve sua primeira turma formada em 1946. O momento não poderia ser mais propício, pois os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial, durante o governo de Getúlio Vargas, exigiam um maior quadro de profissionais qualificados em diversas áreas, inclusive de saúde.

“A Escola de Enfermagem da USP tornou-se um divisor de águas em relação ao sistema nightingaliano anterior, porque foi a primeira escola da área no Brasil a sair de uma instituição hospitalar e a se instalar dentro de uma universidade”, afirma a professora Taka. A britânica Florence Nightingale, responsável pela profissionalização da enfermagem a partir de 1860, fez escola em todo o mundo, norteando as bases da chamada enfermagem moderna.

“As projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que nos próximos 20 anos teremos poucas pessoas cuidando de outras pessoas. A enfermagem é uma área da saúde que tem uma procura menor do que o desejável. Mas, se eu pudesse falar ao jovem, diria que se permita conhecer a profissão e a considere como uma possibilidade ampla”, afirma a diretora da Escola de Enfermagem da USP, professora Diná de Almeida Lopes Monteiro da Cruz.
A diretora lembra que a atuação do profissional de enfermagem não se restringe apenas à área hospitalar e domiciliar, como muitos pensam. Há campo em empresas, em enfermagem do trabalho, em auditorias, avaliação da qualidade, laboratórios, indústria farmacêutica, além de pesquisa e ensino, por exemplo, afirma.

Honra a quem merece honra

Dentro das comemorações dos 70 anos da Escola de Enfermagem da USP, a professora Paulina Kurcgant receberá o título de Professora Emérita daquela escola, em cerimônia a ser realizada no Centro de Convenções Rebouças, no dia 29, segunda-feira, às 14 horas.

Graduada em Obstetrícia e em Enfermagem pela USP, Paulina iniciou sua carreira docente em 1969, como professora da então Escola de Obstetrícia da Faculdade de Medicina da USP, depois anexada à Escola de Enfermagem. Diretora da Escola de Enfermagem de 1995 a 1999, foi uma das especialistas que participaram da criação do Hospital Universitário (HU) da USP, em 1981. Lançou, como coordenadora, os livros Administração em Enfermagem e Gerenciamento de Enfermagem.