Notícia

Revista Inova ABCD

Uma semana de ciência brasileira em Washington

Publicado em 01 novembro 2011

Por João Valentino

A pesquisa brasileira foi um dos importantes assuntos em debates recentes na academia dos Estados Unidos. Entre os dias 24 e 26 de outubro, em Washington DC, o Woodrow Wilson International Center for Scholars (Centro Internacional para Acadêmicos Woodrow Wilson), que tem o objetivo de estimular o desenvolvimento de pesquisas locais e internacionais, sediou a Fapesp Week (Semana da Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

O evento, parte das comemorações dos 50 anos da agência paulista fundada em 1962, teve a participação de dezenas de pesquisadores brasileiros e norte-americanos, e, além de apresentar um panorama do estudo científico no Brasil, tinha entre as metas intensificar a parceria entre os dois países na área. Como parte do evento, foi aberta a exposição Natureza Brasileira - Mistério e Destino, com uma série de gravuras da expedição do pesquisador alemão Carl Friedrich von Martius ao Brasil, feita no início do século 19.

Alguns dos mais destacados cientistas brasileiros, ligados a USP, Unicamp, Unesp, Inpe e Instituto Butantan, e que desenvolvem trabalhos financiados pela Fapesp, participaram do evento como palestrantes. Entre os debatedores norte-americanos, havia representantes de instituições como o Museu de História Natural e das universidades de Ohio, Cornell, George Mason, da Pensilvânia, da Califórnia, do Arizona, do Texas, e City College, de Nova York.

Os temas que ganharam mais destaque foram os relacionados a biodiversidade, biocombustíveis, novos medicamentos e engenharia genética. Para o presidente da Fapesp, Celso Lafer, um simpósio dessa magnitude mostra a força da instituição em seu meio século de existência e estimula "o fortalecimento da interação entre cientistas no mundo globalizado".

As mudanças globais no clima foram assunto do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Gilberto Câmara. Ele apresentou os métodos usados pelo instituto brasileiro para coleta de dados da ação humana sobre o meio ambiente e a sua utilização na prevenção de desmatamentos e na redução de emissão de gases poluentes. O destaque ficou por conta da eficiência do sistema computadorizado para esse fim, que está em desenvolvimento no instituto. O tema foi complementado pelo professor Reynaldo Victoria, do Centro de Energia Nuclear Aplicada à Agricultura, da USP, que falou sobre o Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, que tem investimentos da ordem de US$ 30 milhões feitos pela Fapesp, e que conta com um supercomputador, comprado em parceria pela Fapesp e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, instalado no Inpe. Em sua apresentação, Victoria anunciou a ampliação desse programa, por ele coordenado, de 40 para 60 pesquisas, até março próximo. Assim, como disse o pesquisador, será possível cobrir novas áreas, como "saúde, paleoclimatologia e o papel do Atlântico Sul nas mudanças climáticas". Outra apresentação bastante concorri Social Democrata (SPD) e o Partido Verde (PV), previra o fechamento das 17 usinas nucleares do país até 2021. Entretanto, em 2010, a nova coalizão governamental, da União Democrata Cristã (CDU), o Partido Democrático Liberal (FDP) e a União Social Cristã (CSU), da Baviera, determinou a ampliação do prazo para 2035.

Logo depois do desastre de Fukushima o governo voltou atrás: fechou seis usinas, decidiu não reabrir duas que estavam fechadas por problemas técnicos e determinou o fechamento das demais até 2022. Isso não impediu sua popularidade de desabar, tendo a coalizão enfrentado derrotas importantes em eleições regionais.

SOBE A TEMPERATURA

Porém o movimento trouxe novas preocupações, entre elas a de aumentar a dependência do país em relação às importações de gás e petróleo russos. Para completar, o verão deste ano, considerado muito frio face à média, retardou a expansão da produção de energia solar. Houve um aumento de 10%, nos últimos meses, no preço da energia elétrica e a demanda não parou de crescer, com a entrada do outono e a proximidade do inverno pressionando a situação. Como se não bastasse tudo isso, a temperatura política no país e na Europa aumentou consideravelmente, com o aprofundamento da crise do euro e o risco de uma recessão profunda trovejando no horizonte.

Para contrabalançar esse quadro assustador, a Alemanha passou a importar mais energia de vizinhos próximos: França, República Tcheca e Polônia. Novos problemas se acumularam no horizonte já carregado. Na França, 75% da energia consumida é produzida por usinas nucleares: é óbvio que daí provém a energia exportada para a Alemanha. Na República Tcheca existem duas usinas nucleares, a de Tcmclin c a de Dukovany, responsáveis pela exportação, e onde, ao contrário da Alemanha as usinas nucleares estão em expansão, com o apoio da população. Ocorre que Temelin é considerada uma das usinas mais inseguras da Europa, tendo já registrado 130 acidentes, embora nenhum de monta, como os de Fukushima e Chernobyl.

Ou seja, de momento, a Alemanha terceirizou o problema das usinas nucleares, o que, no dizer do professor Konrad Kleinknecht, ex-membro da direção da Sociedade Alemã de Física, a maior organização no gênero em todo o mundo, corresponde ao que ele chama de "a hipocrisia alemã" ("Germany Energy Re-volution depends on Nuclear Imports", em www.spiegel.de/international), completando: "A única diferença é que outros países agora correm o risco". Afirmação relativa, já que Temelin fica a apenas 100 quilômetros da fronteira alemã.

A situação, portanto, está longe de estar politicamente resolvida, e até mesmo a atual resolução do governo pode sofrer pressões para ser novamente mudada, embora tenha amplo apoio partidário e da maior parte da população (pelo menos 51%, de acordo com as últimas pesquisas).

"Last, but not least", há o problema do custo. O governo orça o preço da mudança em 55 bilhões de euros (US$ 76,67 bilhões), em dez anos. Porém outras fontes, entre elas o Banco de Desenvolvimento Alemão (KfW, equivalente ao nosso BNDES, mas sem o mesmo porte), orçam a mudança em 250 bilhões (US$ 348,4 bilhões), uma diferença assustadora.

Enquanto isso, para voltarmos à bela Sardenha, o uso de energia solar por lá cresce a 14% ao ano, taxa ainda considerada insuficiente diante do potencial da ilha.