Notícia

Gazeta Mercantil

Uma retrobiotecnologia de vanguarda

Publicado em 30 julho 1999

Por Luiz Hildebrando Pereira da Silva
A opinião pública européia, ainda não recuperada do pânico criado pela epidemia da "vaca louca", sofreu novos choques em maio último, com o anúncio da contaminação pela dioxina da carne de frango de criações industriais na Bélgica. Mais um drama provocado pelas farinhas animais, que levou as autoridades européias de Bruxelas a propor sua eliminação na preparação de rações. Proposição que esbarra num problema. A reciclagem de carcaças e restos de matadouros, introduzida na Europa na década de 70 e, de uso generalizado no mundo, permitiu baratear consideravelmente o custo de rações e, em conseqüência, o preço da carne bovina, de porco e de aves. Previu-se, além disso, a redução de espaços agrícolas reservados a oleaginosas. O abandono das farinhas animais tornaria a Europa dependente da importação de substitutos, em particular da soja, cujo custo é avaliado em US$ 5 bilhões a US$ 6 bilhões. Poucos países têm condições de suprir a curto e médio prazo essa necessidade, entre eles, naturalmente, o Brasil - uma opção que nos seria favorável. Há ainda outro obstáculo nesse caminho: na opinião pública européia - gato escaldado tem medo de água fria - desenvolvem-se preconceitos crescentes contra o consumo de variedades vegetais modificadas geneticamente (os OMG), e a grande produção de soja americana (a brasileira segue a mesma tendência) é quase toda ela de variedade transgênica. Esses preconceitos levaram os ministros da Agricultura da Comunidade Européia a se decidirem por uma moratória, com a suspensão de introdução de novos produtos transgênicos no mercado europeu por um período de dois anos. Não é de estranhar, portanto, que os "caçadores" e os "verdes", defensores do mundo rural e do retorno às tradições da agricultura familiar, tenham tido sucesso nas eleições para renovar o Parlamento Europeu. É interessante observar que as recusas e os preconceitos que se disseminam na opinião pública têm beneficiado setores agroalimentares que se especializam nos chamados "produtos biológicos", como frangos criados em pleno sol, com direito à circulação e à alimentação à base de produtos de origem vegetal. O mesmo é válido para o bovino, o ovino e o suíno. O que foi dito para a soja transgênica se aplica ao milho e a frutas e legumes. E o que é válido para a opinião pública européia chega rapidamente aos Estados Unidos, contaminando até mesmo a opinião pública tupiniquim. O problema tem repercussões no plano econômico-social e implica decisões políticas. Como orientar-se nessa situação confusa, em que se confrontam progressos da ciência e da tecnologia com hábitos e preconceitos alimentares tendo como pano de fundo acidentes inevitáveis e ações criminosas, interesses das macroempresas agroalimentares, de adubos, de herbicidas e inseticidas, conflitantes entre elas, e com os consumidores e os pequenos produtores? Tudo isso somado a grande dose de ignorância e de explorações demagógicas do tipo - tudo biotecnológico ou tudo "natural". O professor Ernesto Paterniani explicou, em reunião da Academia Brasileira de Ciências, que a agricultura, de invenção relativamente recente para a humanidade (tem apenas cerca de 10 mil anos), desenvolveu-se simultaneamente nos continentes africano, europeu e asiático, de um lado, e no americano, de outro, mas em sentidos divergentes. Assim, na Europa e na Ásia, por razões climáticas, os agricultores selecionaram progressivamente variedades que floresciam e amadureciam sincronizadamente em momentos favoráveis do ano, facilitando a colheita e evitando o inverno. Mais recentemente, essa tendência reforçou-se com a mecanização das colheitas. Ao contrário, entre as civilizações andinas e centro-americanas, gozando de clima ameno e sem grandes variações sazonais, os agricultores se interessaram em diversificar as variedades cultivadas para obter amadurecimento assincrônico durante o ano inteiro, fornecendo alimentos em todas as épocas. Qual o resultado genético favorecido pelo agricultor num ou noutro tipo de seleção? Quando o objetivo é a "produtividade", o resultado é a homogeneidade genética da variedade selecionada. No outro tipo de seleção busca-se, ao contrário, diversificar as variedades da espécie, facilitando e ampliando seu polimorfismo. Em outros termos, no primeiro caso reduz-se a biodiversidade das espécies cultivadas, enquanto no segundo ela se amplia. A agrobiotecnologia moderna, ao introduzir conceitos e métodos da biologia molecular dos anos 60 e 70, foi capaz de promover progressos revolucionários na agricultura, mas não fez senão prolongar tendências já observadas no melhoramento genético clássico precedente. O novo passo, com a transgênese, é a possibilidade de introduzir genes oriundos de outros organismos no patrimônio da planta. Com isso, tornou-se possível a criação de variedades que, além da alta produtividade, produzem um novo fator alimentar de valor ou tornam-se resistentes a insetos (pela introdução de genes que permitem à planta produzir bioinseticidas) ou a herbicidas, permitindo a sobrevida seletiva da planta útil e a destruição da planta daninha. Nesse processo do "a mais" - e suas repercussões - surge uma situação nova: o variante transgênico, graças às suas qualidades imediatas, é disseminado de forma generalizada, suas sementes são colocadas no mercado mundial e passam a ter preferência dos agricultores devido à produtividade e ao custo (economia de herbicidas, inseticidas e adubos). Nesse sentido, assistiremos em âmbito planetário, a médio e longo prazo, à redução drástica das variedades genéticas cultivadas, isto é, da biodiversidade da espécie. Essa redução é levada ao extremo pelas técnicas de certos gigantes do setor agroalimentar, como a Monsanto, que utilizam técnica dita do "terminator", gene introduzido para esterilizar a planta cultivada, isto é, torná-la produtiva em grãos, mas improdutiva em sementes. Sua generalização reduz o agricultor e o técnico agrícola a meros consumidores de sementes no supermercado, liquidando, seu "know-how" e tornando-os inteiramente dependentes do "know-how" das grandes agroindústrias. Muitas delas são, aliás, arautos do "futuro radioso", em que não haverá mais agricultores, mas apenas operadores da agroindústria. Seria isso desejável? Ou, independentemente de argumentos ecologistas, naturalistas ou tradicionalistas, seria isso racional? As grandes empresas da agroindústria, conscientes desse problema, afirmam (o que é sem dúvida verdade) que elas dispõem, em seus congeladores, de estoques e reservas de infinitas coleções de variedades que poderão ser utilizadas em função das necessidades. O problema, entretanto, não é o que se encontra na reserva dos "freezers", mas a variedade que se generaliza nas condições naturais das culturas. À medida que se reduz a biodiversidade das variedades cultivadas, em virtude da globalização da economia mundial e do oligopólio agroindustrial, aumenta a probabilidade de contra-selecionar, na natureza, novos agentes patogênicos (vírus, bactérias, cogumelos, nematóides, insetos, moluscos, etc). Qual seria a conseqüência do aparecimento de uma nova patologia emergente para a qual não se encontrasse, de imediato, uma solução de controle? Seria como a Aids, no caso da espécie humana, que resiste há vinte anos? Poderíamos, nesse caso, enfrentar verdadeiras catástrofes alimentares no plano mundial. Não se trata aqui, portanto, de assumir qualquer atitude antibiotecnológica e anticientífica - de jogar fora o bebê com a água do banho. A biotecnologia da alta produtividade tem seu lugar e sua justificação. Ela não pode, entretanto, ser usada sob controle dos macrooligopólios da agroindústria e tem de ser equilibrada com a biotecnologia da exploração da biodiversidade. Vejamos a exploração dos polimorfismos genéticos. Os organismos parasitas que são os mais bem-adaptados entre os seres vivos nos dão exemplo: eles tiram a extrema capacidade de resistência dos meios mais inóspitos (os sistemas imunológicos de animais e plantas) de um polimorfismo genético extremamente desenvolvido de que eles guardam (até hoje) o segredo. Eis a biotecnologia que é necessário desenvolver. A biotecnologia da diversificação de variedades. Os progressos realizados até agora, nesse sentido, se desenvolveram empiricamente, sem participação (ou pouca) da ciência e da biotecnologia. É o momento de fazê-lo. Uma biotecnologia que só poderá apoiar-se na pequena e média empresa rural e nas pequenas e médias empresas agroindustriais; uma biotecnologia que satisfaça às necessidades e expectativas crescentes do mercado consumidor de produtos diversificados, "biológicos" e naturais; uma biotecnologia adaptada às variações dos meios e climas das diferentes regiões; uma biotecnologia que diversificará igualmente e multiplicará as funções e as atividades agrícolas; uma biotecnologia que criará empregos, uma biotecnologia que em lugar de empobrecer o "know-how" do agricultor vai exigir dele um aperfeiçoamento constante de conhecimentos científicos e técnicos, acrescentando ao produtor o caráter de criador. É o que chamo de retrobiotecnologia de vanguarda: desenvolver a biodiversidade do passado com uma tecnologia do futuro. Geneticista e diretor científico do Centro de Pesquisa em Medicina Tropical de Porto Velho, Rondônia.