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Amazônia Real

Uma releitura do livro “1499: o Brasil antes de Cabral” – apresentação da série

Publicado em 10 janeiro 2019

Por Elvira Eliza França

O presente texto é uma releitura do livro “1499: O Brasil antes de Cabral”, de autoria do jornalista Reinaldo José Lopes, formado pela Universidade de S. Paulo, mestre e doutor em literatura inglesa, colunista e blogueiro da editoria de Ciência da Folha de São Paulo. Ele produz reportagens sobre o trabalho de cientistas que investigam o passado remoto e por isso seu livro apresenta informações sobre várias áreas de conhecimento, dentre elas arqueologia, paleontologia e biologia evolutiva.

Esses conhecimentos não são muito comuns nos textos de estudantes, devido ao caráter científico e terminologia específica de cada área. Para escrever esse livro, Reinaldo precisou de 15 anos, devido à grande quantidade de informações técnicas, com referências a pesquisas realizadas há tempos até o presente momento. O autor faz vários comentários que servem para minimizar a dificuldade na leitura do texto para torná-lo mais acessível. Contudo, tais comentários criam outras imagens mentais na mente do leitor, podendo dificultar a compreensão em decorrência do excesso de informações em cada página dos capítulos.

Por isso, o objetivo desta série é oferecer uma versão mais enxuta e facilitada do livro, para que possa ser lido por estudantes das últimas séries do ensino fundamental, ensino médio e universitários. Sua elaboração constou na seleção de dados para que o leitor possa manter fluxo contínuo das informações, ao formar as imagens mentais do conteúdo, no processo de compreensão. A série será apresentada em sete capítulos, que serão publicados semanalmente nesta coluna do site da agência Amazônia Real.

Cada capítulo recebeu um título complementar, para favorecer a localização dos dados em processos de pesquisa por assuntos específicos. Além disso, foram feitas algumas complementações com a leitura de outros textos, que estão indicados no final deste texto. Para facilitar a localização das informações no livro do autor, foram registradas as páginas referentes aos conteúdos entre parêntesis. Eles se referem às citações de palavras copiadas do autor, que estão “entre aspas”, e também em outras partes do texto. Desse modo, os dados das páginas também poderão servir como guia de apoio complementar para a leitura do texto original do autor.

O livro de Reinaldo José Lopes foi publicado em 2017 e seu conteúdo se tornou muito relevante para o estudo da pré-história de nosso país, porque possibilita um conhecimento respaldado em pesquisa científica sobre a existência de uma sociedade organizada e com desenvolvimento técnico no passado, muito antes da chegada dos europeus ao nosso território. Os dados apresentados pelo autor são de estudiosos que encontraram e analisaram os achados arqueológicos e se surpreenderam com os resultados das pesquisas. Além disso, o livro apresenta hipóteses sobre como vivia o povo de Luzia, o fóssil humano mais antigo já encontrado até então nas Américas, e que tem a idade de 11.500 anos.

O fóssil de Luzia estava entre os 20 milhões de itens do acervo do Museu Nacional, da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, que sofreu um incêndio em 3 de setembro de 2018. Felizmente, os ossos foram encontrados nos escombros e estão em processo de recuperação. Trata-se de um material de imenso valor para o estudo arqueológico da vida pré-histórica nas Américas, muito antes da chegada dos europeus colonizadores. Sendo assim, os leitores deste texto e do livro “1499: o Brasil antes de Cabral” poderão conhecer a longa história de como Luzia se tornou uma das mais importantes personagens do passado humano do Brasil, e de como ela e outros achados arqueológicos posteriores nos ensinam sobre como o povo vivia neste território, muito antes dos indígenas, dos europeus e de nós.

Introdução: Amazônia habitada

Semana dos Povos Indígenas em São Félix do Xingu, em 2011 (Foto: Agência Pará)

Em setembro de 2003, uma das revistas científicas americanas mais conhecidas no mundo, a Science, publicou um artigo do arqueólogo Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida. O texto havia sido escrito com outros colaboradores, dentre eles dois indígenas brasileiros: Afukaka Kuikuro e Urissapá Tabata Kuikuro. Esses indígenas participaram da pesquisa doando sangue para a realização de um estudo do DNA de seus povos, e atuaram com antropólogos brasileiros e americanos para revelar dados sobre as obras dos ancestrais Kuikuro e de outros grupos indígenas brasileiros do Xingu, no Mato Grosso. A pesquisa “Amazonia 1492: Pristine Forest or Cultural Parkland?” (Amazônia 1942: floresta intocada ou um jardim cultural?) deixou evidente que, antes mesmo da chegada de Cabral, a natureza no Brasil não era intocada como muitos pensam até hoje. Ela era habitada por grupos populosos com, aproximadamente, 50.000 habitantes, organizados em uma sociedade política com uma complexa hierarquia, multiétnica, com redes de comércio e tradições artísticas surpreendentes.

Esses povos possuíam “uma densa rede de estradas com até dezenas de metros de largura; diques e fossos de fazer inveja a castelos medievais, com vários metros de profundidade; sinais de grandes paliçadas defensivas” (LOPES, p.12). A partir de escavações, da metodologia de datar artefatos arqueológicos e de detectar a presença de resquícios de plantas, ossos de animais e esqueletos humanos, os cientistas estão descobrindo achados arqueológicos que chegam a ter a idade de até 50.000 anos. Um dos locais investigados pelos arqueologistas é a Serra da Capivara, no Piauí, que poderá vir a ser considerado o território mais antigo habitado pelos humanos pré-históricos das Américas. Mas isso depende do aval da comunidade científica internacional, que até o presente momento não aceitou, ainda, a datação dos restos humanos que lá foram encontrados.

De todo modo, todos os estudiosos na área da arqueologia já estão cientes de que nas Américas, entre 20.000 e 15.000 anos atrás, havia seres humanos vivendo em nosso território. A época em que isso ocorreu é denominada de final do Pleistoceno, também conhecida como Era do Gelo. Foi uma época em que a camada de gelo sobre o planeta era muito extensa e havia uma ligação por terra entre a Ásia e a América. Foi atravessando essa estreita ligação que os povos que viviam em outros continentes chegaram às Américas (LOPES, p.14).

Até uns anos atrás, os pesquisadores acreditavam que foi assim que os asiáticos da Sibéria chegaram às Américas, transmitindo aos seus descendentes as características morfológicas asiáticas, como os olhos amendoados. Os olhos puxados são comuns em povos ameríndios, assim como em habitantes do Alaska e indígenas da América do Sul. Contudo a descoberta dos ossos de uma mulher que viveu no interior de Minas Gerais, com idade estimada em 12.000 anos, mudou essa teoria. Os dados morfológicos do cérebro dessa mulher, que foi apelidada de Luzia, tinha a aparência semelhante à dos negros africanos e aborígenes da Austrália. Ela viveu na pré-história brasileira e não tinha traços fisionômicos dos asiáticos.

Fóssil de Luzia – Museu Nacional (Foto Wiki Media CC 3.0)

Mas como era apenas um exemplar encontrado até então, os cientistas internacionais não deram tanta importância, até que novas pesquisas foram realizadas e novos achados arqueológicos foram encontrados. Assim, os pesquisadores brasileiros, juntamente com parceiros de outros países, vêm procurando desvendar o mistério de Luzia e do povo que viveu depois dela. Eles investigaram ossos humanos encontrados em Minas Gerais no século XIX, que estão no museu da Dinamarca, e encontraram novas ossadas em sítios arqueológicos próximos ao local onde Luzia foi encontrada, assim como em outros lugares do país.

É justamente sobre essa aventura de encontrar achados arqueológicos e analisá-los, que os cientistas buscam evidências sobre como era o modo de vida dos habitantes da pré-história de nosso país. Lopes relata sobre as escavações que foram feitas nos pequenos morros do país, chamados de sambaquis, onde foi encontrada terra preta de índio. Esses são lugares onde os povos primitivos jogavam seu lixo, inclusive corpos das pessoas mortos, assim como objetos de cerâmica, pedra, adornos e outros materiais usados em rituais.

Os achados nos sambaquis levam a crer que os povos que viveram próximos à época em que Luzia viveu eram caçadores-coletores de vegetais e de animais selvagens de pequeno e médio porte. Eles tinham a vida seminômade, realizando trabalho na terra e desenvolvendo formas sociais mais organizadas. Essas sociedades presentes na Amazônia pré-histórica eram muito populosas e ajudaram a modificar as florestas por meio da manipulação humana. Por isso, os cientistas denominam de florestas culturais, os locais onde são encontrados árvores frutíferas e plantas domesticadas, cujas sementes foram trazidas de lugares longínquos.

Com a modificação da mata natural, por meio do plantio de árvores frutíferas, os povos que aqui viveram atraíam animais que depois eram caçados e serviam como alimento (LOPES, p. 17). Para enfrentar o desafio da escassez do solo fértil, eles produziam a “terra preta de índio”, com o acúmulo de grande quantidade de matéria orgânica e nutrientes nos sambaquis, que até hoje surpreendem os pesquisadores, devido à eficiência produtiva que apresenta na agricultura do tempo presente.

Lopes também se baseia nos relatos dos primeiros cronistas europeus que navegaram no rio Amazonas no século XVI. Eles observavam os comportamentos e o modo de viver dos povos primitivos que viviam no Brasil e escreviam crônicas que eram enviadas para a Europa, antes e logo após a chegada dos europeus em nosso território. Mas o que enriquece muito o conteúdo do livro de “1499: o Brasil antes de Cabral” são os dados das pesquisas arqueológicas e antropológicas que os cientistas realizaram em Manaus, Santarém, ilha de Marajó e Xingu. Por meio de todos esses dados, o leitor pode conhecer como viviam as civilizações “perdidas” no tempo, que se mantiveram por milhares de anos em nosso território, plantando, criando animais, viajando pelos rios, realizando “migrações, guerras, redes de comércio e diplomacia” (p. 19).

Esses povos montaram o “mapa da diversidade cultural do país”, antes mesmo da descoberta do Brasil por Cabral (LOPES, p. 20). O livro relata como viviam os indígenas neste território, quando da chegada dos invasores europeus, e não resistiram ao poder das armas, da pólvora e, principalmente, aos microorganismos que eles trouxeram para o Brasil, durante o período da colonização. Foi assim que muitos indígenas foram eliminados e com eles muita sabedoria acumulada sobre a pré-história dos povos que viveram em nosso território. É justamente isso que os cientistas estão tentando resgatar, com achados arqueológicos de esqueletos humanos e de animais. Assim também o fazem com as obras de arte, monumentos, adornos, instrumentos musicais, terra preta de índio etc.

As análises do genoma do DNA que é feita em achados arqueológicos e dos nativos do tempo presente têm trazido dados importantes que estão revolucionado os estudos sobre a pré-história do Brasil. O DNA mitocondrial (mtDNA), que identifica a transmissão genética pela linhagem materna, é um dos recursos tecnológicos mais revolucionários desse processo. É por meio dessa tecnologia que estão sendo resgatados dados genéticos transmitidos pelas mulheres, porque as evidências paternas são mais raras. Isso se deve ao fato de que, nos processos de conquista de território, os homens eram mortos ou escravizados pelos invasores, e eram as mulheres que davam continuidade à espécie.

Nas pesquisas realizadas com a linhagem materna dos brasileiros, foi identificada a participação dos ameríndios em menos de 10%. A participação predominante no DNA é europeia e depois a africana. Mas muitos dos que hoje se consideram brancos no Brasil têm o DNA de uma ancestral indígena, com uma estimativa de 20 a 30% (LOPES, p. 23). Por esse motivo, estudar os povos indígenas em sua ascensão e queda, é estudar o “passado familiar remoto de quase todos nós” (p. 23), que temos herança indígena em nosso DNA.

As pesquisas deixam evidentes que no passado houve uma grande ocupação humana da Amazônia, antes mesmo da chegada dos portugueses. A participação dos indígenas Kuikuro em pesquisa científica, publicada na Science, uma das mais famosas revistas científicas do mundo, teve grande importância, porque deixou evidências de que ocorria em nosso território há muitos anos. A pesquisa possibilitou saber como viviam povos primitivos antes da chegada dos portugueses, e como os povos nativos moldaram as vastas áreas da floresta tropical e outros espaços que hoje são habitados por nós.

Os povos do Xingu, da ilha de Marajó, assim como de outros lugares do país, sobreviveram por muitos anos, explorando o território de modo organizado e utilizando diferentes estratégias, dentre elas a produção da terra preta. As tentativas de recriação dessa terra, por técnicos e especialistas nos tempos atuais, demonstram a importância que a cultura indígena teve e tem para a sobrevivência dos povos, porque a fertilidade da terra está ligada à produção de alimentos. Por isso, estudar o passado é uma forma de refazer as trajetórias de uma civilização populosa que deixou pistas para seus descendentes sobre como utilizavam a matéria-prima para sobreviver, e como suas estratégias podem ser desvendadas pelos estudos arqueológicos, antropológicos, genéticos, etc. Assim, o passado ajuda na construção do presente e do futuro também.

Fontes:

AZEVEDO, Ana Lúcia. O crânio de Luzia, a mais antiga habitante das Américas, pode ter desaparecido no incêndio do Museu Nacional.

BETTIM, Felipe. Como Luzia, a mulher mais antiga do Brasil, renasceu das cinzas.

HECKENBERGER, Michael J.; KUIKURO, Afukaka; KUIKURO, Urissapá Tabata; RUSSELL, J. Christian; SCHMIDT, Morgan; FAUSTO, Carlos; and FRANCHETTO, Bruna. Amazonia 1492: Pristine Forest or Cultural Parkland?. Sep. 2003, Science 301: p. 1710-1714.

LOPES, Reinaldo José Lopes. Luzia: a vítima mais preciosa do incêndio do Museu Nacional.

WATANABE, Phillipe. Luzia, fóssil humano mais antigo das Américas, faz parte de acervo do Museu Nacional.

PIVETTA, Marcos. A América de Luzia. Boletim Fapesp de maio de 2012.

No próximo artigo da série você vai saber como foi aventura investigativa para descobrir a origem da mulher mais antiga que viveu na América e quem são seus descendentes. (Capítulo 1. Ano 13.501 a.C.: Quem é você, Luzia?

Onde encontrar o livro?

LOPES, Reinaldo José

1499: O Brasil antes de Cabral

Rio de Janeiro, Harper Collins, 2017

A fotografia que abre este artigo mostra os indígenas Kuikuro em apresentação no Festival Internacional da Cultura dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em Palmas, no Tocantins

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Elvira Eliza França é mestre em Educação pela UNICAMP, especialista em Programação Neurolinguística pelo NLP Comprehensive dos EUA e graduada em Comunicação pela Universidade de Mogi das Cruzes (SP). É autora dos livros: “Crenças que promovem a saúde: mapas da intuição e da linguagem de curas não-convencionais em Manaus, Amazonas” editado pela Valer e Secretaria de Cultura e Turismo do Amazonas (2002); “Corporeidade, linguagem e consciência: escrita para a transformação interior” (1995), “Dimensões interiores da escrita: a voz da criança interior” (1993), “Do silêncio à palavra: uma proposta para o ensino da filosofia da educação” (1988) e “Filosofia da educação: posse da palavra” (1984), publicados pela Editora Unijuí (RS).