Notícia

Amazônia Real

Uma releitura do livro 1499: capítulo 6. Ano 100 d.C.: Tupi or not Tupi

Publicado em 04 abril 2019

Por Elvira Eliza França

Linguagem, produção artística e outros comportamentos

De acordo com as pesquisas sobre a expansão geográfica das famílias linguísticas, Reinaldo José Lopes (2017) diz que atualmente há no planeta 350 línguas diferentes, sendo que o território brasileiro possui um quarto do total delas. Contudo, na época do contato inicial dos indígenas com os europeus, os pesquisadores estimam que havia 1.500 línguas isoladas em nosso país, algo muito raro no mundo da época.

A língua Aruak, originária da Amazônia, foi a que mais se dispersou pelo território geográfico e avançou por várias direções: mar do Caribe ao Norte, Pantanal e Chaco ao Sul, sopé dos Andes, e Marajó. Atualmente, há cerca de 60 línguas de variação Aruak, que podem ser encontradas em países da América do Sul, sendo que na América Central estão mistas com a língua africana.

Em segundo lugar, estão as línguas Tupi, que ocuparam o litoral do Nordeste, Sudeste e Sul e Amazônia, estendendo-se, também, para a América do Sul na Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru e Guiana Francesa, sendo que hoje estão presentes em número de 40 por toda essa América. Os idiomas Carib, em número de 30, estão no norte da Amazônia, e alguns chegaram ao Xingu e ilhas do Caribe. Um desses idiomas é o falado pelos Kuikuro. O idioma macro-jê, entre 20 e 30 línguas, é o único que parece não ter origem na Amazônia e está presente na parte meridional da Amazônia, no Centro-Oeste e áreas de mata araucária de São Paulo e região Sul.

Lopes dedica-se a abordar mais as línguas do grupo Aruak e Tupi, que são as mais faladas em nosso país, sendo que a Aruak Wakuenai está presente entre o norte do Amazonas e Roraima. Apesar do isolamento geográfico, esta língua apresenta características semelhantes às de outros grupos. Chamou a atenção dele o fato de o grupo viver em local isolado e distante, mas realizar a cerimônia de iniciação masculina, na qual são entoados cânticos rituais da criação do mundo, em que são mencionados os nomes dos rios da região da bacia do rio Negro. Tais cantos são denominados de mapas míticos, porque refletem o conhecimento das jornadas de navegação que faziam os antigos grupos Aruak, que eram povos sem acesso à escrita. Estes foram grupos que ganharam o Atlântico, dirigindo-se para Cuba, Haiti, República Dominicana, Jamaica e Porto Rico, que são países que também falam a língua Aruak. Algumas das palavras dessa língua também foram incorporadas ao vocabulário europeu como: tabaco, canoa, furação. Há controvérsias se antes deles chegarem à América do Sul e Caribe, estiveram presentes na bacia do Orinoco e no Nordeste da Amazônia (LOPES, p. 177).

A partir dos achados arqueológicos e artefatos de cerâmica, grelhas e raladores de mandioca (brava e amarga), encontrados por pesquisadores, foram identificadas características comuns entre os grupos. Isso também ficou evidente nos objetos decorados com linhas em preto ou branco, especialmente no alto Xingu, encontrados em locais elevados. Nesse grupos, a mandioca era cultivada de modo que ficava protegida das cheias, e também havia canais e caminhos próprios para obterem os recursos alimentares aquáticos, nas lagoas artificiais que eram construídas e nas armadilhas para peixes, utilizados como alimento (LOPES, p. 178).

De acordo com os estudos realizados por Lopes, os grupos da cultura do Xingu não apresentavam traços de ideologia de conquista nem de guerra. Eles realizavam rituais e cerimônias fazendo uso de instrumentos musicais de sopro como flautas e trombetas. Os xinguanos se destacam pela generosidade e habilidade de falar, até hoje, mas consideram que quem não sabe falar é “gente ruim”. As pesquisas realizadas entre esses grupos constataram que, devido à habilidade de navegação, eles fundavam pequenos entrepostos e faziam alianças matrimoniais entre os grupos, assegurando um processo de conquista pacífico, somado à atividade comercial e diplomática que exerciam entre si (LOPES, p. 179).

No que diz respeito às sociedades Tupi, os cronistas do século XVI fizeram muitos relatos sobre sua característica belicosa e devoradora. Dentre as crônicas elaboradas sobre esses antigos habitantes do país, estão a do alemão Hans Staden, que conseguiu se livrar dos festins antropofágicos, quando esteve prisioneiro e descreveu bem o ritual de vingança guerreira desses indígenas, cujo tronco linguístico tem 5.000 anos, com desmembramento de dez ramos. Cinco desses ramos são falados entre os Cinta-Larga e os Tupari em Rondônia (onde houve a primeira expansão) e em parte do Mato Grosso. Os Munduruku e Juruna falam outros quatro troncos, no alto Xingu e arredores de Santarém. Há outro grupo que cresceu muito no passado, e era encontrado em todo o litoral brasileiro – do Maranhão ao Rio Grande do Sul –, e se expandiu para países como Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Peru, além de outras regiões da Amazônia brasileira, que se avizinham dos Andes.

Os grupos que falam Tupi-Guarani expandiram-se mais recentemente, descendo pelo rio Madeira, até o curso do Amazonas por um lado; e por outro, desceram o rio Guaporé, em direção ao rio Paraguai, chegando à Argentina, Uruguai e Paraguai. Nesse processo de expansão, encontraram-se em São Paulo, na altura de Cananeia, com grupos que vinham pelo litoral acima. A estimativa dos pesquisadores é que essa jornada tenha iniciado há dois mil anos, tomando como base os achados arqueológicos e a facilidade que os portugueses tiveram para compreender o idioma indígena de diferentes grupos que viviam no litoral, durante o trabalho de evangelização, no período colonial (LOPES, p. 183).

Os estudos realizados sobre a hierarquia social, no entanto, indicam que a liderança entre eles era informal e que cada aldeia tinha diversos chefes que atuavam sobre sua família mais próxima. Contudo, era mantida (mas que mantinha) a coalizão entre as aldeias. Os chefes eram respeitados, mas nem sempre os demais os obedeciam à risca. Os grupos Tupi que se expandiram, por sua vez, tinham uma ideologia guerreira e predatória, como o caso dos Tupinambá, Chiguano, Juruna e Munduruku, indígenas ferozes nas batalhas, nas quais capturavam escravos na guerra. Os Juruna, Mawé e Munduruku decepavam a cabeça dos inimigos que eram usadas como troféus e também executavam prisioneiros no campo de batalha, quando estavam feridos (LOPES, p. 186).

Há relatos de que eles faziam uso de uma espada construída em madeira, com 1,20m, denominada de espada Tupinambá, utilizada durante os duelos, ocasião em que acertavam a nuca do inimigo. Quando os matavam, o corpo morto era esquartejado e assado para comer. O sangue dos enviados para a “Terra Sem Mal” (o paraíso) era usado pelas mulheres para besuntar os seios antes da amamentação (LOPES, p. 188). No caso dos inimigos serem levados para a aldeia, eles ficavam presos no cativeiro, recebendo comida e rede, e até podiam ter uma companheira. Contudo, a (, mas a) criança nascida da relação entre os dois era comida pelo grupo. Quando da execução do prisioneiro, este era amarrado e antes da morte podia vingar-se dos captores atirando-lhes pedras. Depois de morto, sua carne era comida, sendo que o indígena que matava o prisioneiro não podia comer a carne. Em compensação, recebia um novo nome, em homenagem pelo que havia feito (LOPES, p. 189).

Assim, invadindo territórios, plantando e aumentando seu domínio, os Tupi foram conquistando muitos territórios. Estudos antropológicos identificaram a presença das lavouras desses indígenas em Urubici, região montanhosa de Santa Catarina. Os objetos foram datados em 1.300 e 1.400 d.C., antes mesmo da chegada dos portugueses. Ali, plantavam milho, mandioca, feijão, abóbora e inhame (LOPES, p. 191), além de coletar pinhões nas matas de araucária. As informações sobre os hábitos alimentares desse grupo indicam que eles viviam no mesmo território durante o ano todo. Por ser uma região fria, os antropólogos também encontraram centenas de casas que foram construídas abaixo do solo, com o chão de terra batida e telhado com fibra vegetal. No local, também havia caminhos com monumentos em honra aos ancestrais: outra indicação de que os grupos que ali viviam eram permanentes.

Entre os grupos proto-Jê, segundo etnólogos e antropólogos, também eram construídos monumentos funerários para os chefes no século XIX, semelhantes aos montes de Marajó, onde eram depositados os ossos cremados. Tais construções de morrinhos artificiais requeriam o trabalho de milhares de indígenas que demarcavam os espaços sagrados para realizar os sepultamentos. Os morrinhos eram cercados por um anel de terra batida, com até um metro de altura. No centro desses morrinhos também foram encontrados fornos, havendo a suposição de que eram utilizados para o preparo dos festins funerários, pois os pratos e taças de cerâmica também estavam presentes ali. No local também foram encontrados (, assim como) estatuetas e adornos labiais (LOPES, p. 191-2).

Os membros considerados espiritualmente superiores eram enterrados em morrinhos mais altos, como os que foram encontrados na Argentina, com 20m de diâmetro e três metros de altura (LOPES, p. 193). Esses sítios arqueológicos proto-Jê e Tupi-Guarani também estão presentes no sul de São Paulo e região das Missiones que fica do outro lado da fronteira, e são os mais antigos. Mas há locais em que os achados dos dois grupos proto-Jê e Tupi-Guarani sugerem que também havia assentamentos multiétnicos, mas eles chegam apenas até a fronteira de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul. Depois dessa fronteira não há mais resquícios arqueológicos Tupi-Guarani e a hipótese é que não tenham continuado a trajetória litoral acima, por não acharem terras férteis para a lavoura, ou por terem estabelecido lutas internas no grupo. As homenagens aos chefes guerreiros, com as honras fúnebres, também consolidavam o poder dos grupos e a resistência aos invasores.

O presente texto é uma releitura do livro “1499: O Brasil antes de Cabral” (2017), de autoria do jornalista Reinaldo José Lopes, formado pela Universidade de São Paulo, mestre e doutor em literatura inglesa, colunista e blogueiro da editoria de Ciência do jornal Folha de São Paulo. Ele produz reportagens sobre o trabalho de cientistas que investigam o passado remoto e por isso seu livro apresenta informações sobre várias áreas de conhecimento, dentre elas arqueologia, paleontologia e biologia evolutiva.

Fontes:

AZEVEDO, Ana Lúcia. O crânio de Luzia, a mais antiga habitante das Américas, pode ter desaparecido no incêndio do Museu Nacional.

BETTIM, Felipe. Como Luzia, a mulher mais antiga do Brasil, renasceu das cinzas.

HECKENBERGER, Michael J.; KUIKURO, Afukaka; KUIKURO, Urissapá Tabata; RUSSELL, J. Christian; SCHMIDT, Morgan; FAUSTO, Carlos; and FRANCHETTO, Bruna. Amazonia 1492: Pristine Forest or Cultural Parkland?. Sep. 2003, Science 301: p. 1710-1714.

LOPES, Reinaldo José Lopes. Luzia: a vítima mais preciosa do incêndio do Museu Nacional.

WATANABE, Phillipe. Luzia, fóssil humano mais antigo das Américas, faz parte de acervo do Museu Nacional.

PIVETTA, Marcos. A América de Luzia. Boletim Fapesp de maio de 2012.

Leia os artigos da série:

Uma releitura do livro “1499: o Brasil antes de Cabral” – apresentação da série

Uma releitura do livro “1499”: capítulo 1. Ano 13.501 a.C.: Quem é você, Luzia?

Uma releitura do livro “1499”: capítulo 2. Ano 8.501.a.C.: As conchas e os mortos

Uma releitura do livro “1499”: capítulo 3. Ano 6.501 a.C – Revolução agrícola “made in Brazil”

Uma releitura do livro “1499”: capítulo 4. Ano 2.001 a.C.: Os filhos da serpente

Uma releitura do livro 1499: capítulo 5. Ano 2.001 a.C.: No reino das Amazonas

Onde encontrar o livro?

LOPES, Reinaldo José

1499: O Brasil antes de Cabral

Rio de Janeiro, Harper Collins, 2017

Elvira Eliza França é mestre em Educação pela UNICAMP, especialista em Programação Neurolinguística pelo NLP Comprehensive dos EUA e graduada em Comunicação pela Universidade de Mogi das Cruzes (SP). É autora dos livros: “Crenças que promovem a saúde: mapas da intuição e da linguagem de curas não-convencionais em Manaus, Amazonas” editado pela Valer e Secretaria de Cultura e Turismo do Amazonas (2002); “Corporeidade, linguagem e consciência: escrita para a transformação interior” (1995), “Dimensões interiores da escrita: a voz da criança interior” (1993), “Do silêncio à palavra: uma proposta para o ensino da filosofia da educação” (1988) e “Filosofia da educação: posse da palavra” (1984), publicados pela Editora Unijuí (RS).