Notícia

Gazeta Mercantil

Uma referência à moda nos palcos

Publicado em 26 março 2004

Por FABIANA GITSIO - de São Paulo
Não eram tempos prósperos para quem vivia de teatro. Em 1917, logo depois da Revolução Russa, os atores morriam de fome e de frio nas ruas de Moscou. O consagrado diretor Konstantin Stanilavski passou do palacete para o cortiço, com mais 40 famílias. Dez anos depois, a estréia de sua montagem de "Bodas de Fígaro" era um desafio à penúria, com figurinos coloridos de cetim, veludo e tule, bordados, passamanarias, fitas e pingentes. Para obter este resultado, o Teatro de Arte de Moscou literalmente "passou o chapéu" por todas as companhias russas, com coleta de peças recicladas depois pelo "mago" Alexander Golovin — no passado, figurinista de todos os riquíssimos teatros imperiais. O próprio Stanilavski havia sido um autêntico membro da burguesia moscovita, com um avô dono de fábrica de vodka e o pai de uma tecelagem, depois confiscados. Entre concepção, estudos, ensaios e montagem as peças podiam demorar até dez anos para ser encenadas. A reconstituição dos figurinos dos espetáculos de Stanilavski e outros cinco encenadores e diretores europeus poderá ser conferida a partir de hoje no Salão dos Arcos do Teatro Municipal, em São Paulo. A exposição originou-se na tese de doutorado do cenógrafo e figurinista Fausto Viana, que tem no currículo "Rent" e "West Side Story". A pesquisa foi realizada em museus, teatros e centros especializados de Berlim, Moscou e Paris, num trabalho que consumiu três anos, dedicação integral de Viana como bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) — que destinou R$ 21 mil ao projeto — além do desembolso próprio e de amigos. Apenas a confecção de cada um dos 48 trajes expostos custou em média R$ 850. Viana seguiu critérios bem definidos na escolha dos diretores. "Sobrevivência de teatro a vida inteira, representatividade. inovação em alguma categoria de encenação e empenho significativo em figurino", enumera. A inscrição "eu aprovo" seguida das iniciais KS, que podem ser vistos ainda hoje nos trajes de "Bodas de Fígaro" dão conta da importância que Stanilavski dava às vestimentas. O russo supervisionava tudo com mão de ferro e só depois de sua ordem expressa os modelos eram executados pelas oficinas. Também estão expostas no Municipal as reproduções dos figurinos das montagens do austríaco Max Reinhardt para "Sonho de uma Noite de Verão", de Shakespeare. em 1935; do alemão Bertolt Brecht para "Mãe Coragem" (1948); do inglês Gordon Craig para "Hamlet" (1912), dos franceses Antonin Artaud, para "Os Cenci" (1935) e Ariane Mnouchkine, para "1789 - A Revolução deve Acontecer" (1970). Há reproduções que necessitaram de dedicação minuciosa, como os de "Mãe Coragem", de Brecht, que sempre repudiou os tecidos sintéticos. Nessa montagem, Brecht queria que as roupas tivessem a aparência de usadas e gastas pelo tempo. Para conseguir este efeito. Fausto precisou utilizar escovas de cerdas de aço, usadas por pedreiros, nos tecidos; mergulhar as peças em cloro para desestruturar as fibras, além de dar uma atenção especial ao tom de terra desejado, o que incluiu até respingos de óleo nas roupas. No caso de "Hamlet", foram necessárias adaptações. Originariamente, as capas douradas eram ornadas com pele de animal , silvestre corriqueiro na Rússia, mas raro aqui, razão de ter sido substituído por 25 coelhinhos brancos brasileiros. Essa montagem de Hamlet, aliás, foi um divisor de águas no tratamento dado às vestimentas. Até 1912, data da encenação de Craig, figurino que se prezasse seguia os parâmetros da Companhia do Duque de Saxe-Meinengen, do século 19. Prevalecia a reconstituição histórica, nem que para isso fosse preciso enfrentar uma longínqua viagem de trem para pesquisar tecidos e acessórios de 300 anos atrás (como ocorreu com uma montagem do próprio Stanilavski, de 1898, no auge do chamado figurino realista). Ariane Mnouchkine, que em 1964 fundou o revolucionário Théâtre du Soleil, é a única dire-tora viva a fazer parte da mostra. A companhia, que estreou com os "Pequenos Burgueses", de Gorki, é um paradigma atual de figurino. Seis anos depois de a trupe se reunir, na montagem de "1789 - A Revolução deve acontecer" convocaram uma especialista para trabalhar nos trajes históricos e "liberaram" o figurinista para dedicar-se aos trajes dos personagens do povo. Com o tempo, a companhia foi intuindo que roupa de cena deveria sempre respeitar as necessidades dos atores. A figurinista e modista atual é Nathalie Thomas, que faz um trabalho de leitura o mais sofisticado possível das sensações transmiti- , das pelo ator em seu papel. As matérias-primas utilizadas também são o sonho de qualquer figurinista. "Cheguei a tocar em um tecido asiático feito de fibra de abacaxi que custa US$ 400 o metro", conta Viana. Os tons também podem ser exclusivos, caso de um vermelho feito sob medida para a companhia por fornecedores de Lyon. tradicional pólo têxtil francês. O Estado paga 40% das despesas do teatro. O investimento é compensado: a trupe consegue atrair, todas as noites, um público de 70.0 pessoas. "O Soleil é rico de significado, de adequação e também financeiramente", avalia Viana. Traje e Cena - Os figurinos das Renovações Cênicas do Século XX. Teatro Municipal de São Paulo. Praça Ramos de Azevedo s/n, Centro. Tel.: (11) 223-3022. De terça a sexta, das 12h às 18h; sábados e domingos, das 10h às 15h. Até 21 de junho. Entrada franca.