Notícia

Jornal da Tarde

Uma rede para decifrar nossos vir

Publicado em 01 abril 2001

A população humana está exposta a uma enorme diversidade genética virai porque a rapidez das mutações virais acaba gerando diferentes cepas, muitas vezes diferentes entre as regiões do planeta. Segundo os cientistas, isso pode ser explicado pelo fato de que muitos dos vírus apresentam mutações muito mais rápidas do que as células humanas do sistema imunológico. Essa rapidez tem uma explicação: na "guerra" com o hospedeiro, os vírus mudam para poder se perpetuar. E criada no Estado, pela primeira vez, uma rede para detectar a presença dessa diversidade em quatro dos vírus que infectam a população paulista. A Rede de Diversidade Genética, uma rede virtual, a VGDN (sigla em inglês para Viral Genetic Diversity Network), é um projeto da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que vai formar uma equipe <3e pesquisadores e montar laboratórios que ainda não existem no Brasil. O objetivo desta Rede é mapear as mutações e variedades genéticas de vírus a partir de amostras de agentes patológicos recolhidas nas principais regiões do Estado de São Paulo. Orçada em US$ 8 milhões (cerca de R$ 15,7 milhões), com duração de três anos, a Rede vai estudar as características genéticas de cepas dos vírus da hepatite C (HCV), do HIV-1 (tipo de vírus da Aids mais comum no Brasil), do hantavírus e do vírus respiratório sincicial (VRS), e cruzar os dados com os quadros clínico e epidemiológico presentes no Estado. Este estudo da diversidade genética virai será importante especialmente para a produção de vacinas, implementação de programas de vacinação, desenvolvimento de drogas anti-retrovirais e o entendimento da resistência a essas drogas. O HIV-1, prevalente na Europa e nas Américas, expressa-se na forma de pelo menos nove subtipos, designados pelas letras A, B, C, D, E, F, G, H e I (o HIV-2 tem forte prevalência na África Ocidental). Já o HCV tem hoje seis variantes identificadas, mas calcula-se outras tantas cepas desconhecidas. O projeto é uma decorrência do Programa Genoma da Fapesp, mas, como explica o coordenador geral, o médico Eduardo Massad, não tem o mesmo propósito, "Este projeto que não é como os outros do Programa Genoma. Queremos identificar toda a extensão da variabilidade desses vírus e tentar achar correlações entre certos tipos que aparecem no Estado, com as informações clínicas originadas dos pacientes portadores desses vírus", explica o médico. Massad é responsável também pelo laboratório de informática médica da Faculdade de Medicina da USP, trabalha com modelos matemáticos e dinâmica de doenças infecciosas, e acumula experiência com trabalho de campo em grandes projetos: "Vou realizar as pontes entre as diversas áreas do projeto, porque entendo tanto a língua falada pelo pessoal da biologia molecular quanto a da clínica e da epidemiologia. Atuarei como uma espécie de gerente". Segundo o médico, a novidade do projeto é o estabelecimento das correlações entre os achados de diversidade genética na população virótica com os achados clínicos e epidemiológicos dos pacientes infectados, e como os dados podem ser cruzados para fazer predições sobre o desenvolvimento das doenças. Massad exemplifica: "Quando um indivíduo aparecer com determinadas características sugerindo que ele é portador do vírus HIV-1 do tipo F, nossa suposição será a de que ele esteve na África nos últimos dois meses e que injeta droga uma vez ao dia. Isso não é uma coisa esperada, porque no Brasil a predominância é do tipo B. Com essa informação, saberei que ele pode ser resistente a certos tipos de drogas e que não adianta tratá-lo com um coquetel que é para o tipo B, e não para o tipo F. Isso deve acontecer lá na ponta, quando essa informação conseguir chegar de maneira confiável ao médico clínico". No mundo, este é um programa inédito. "Faz parte da nova filosofia da Fapesp, que inovou de uma maneira completamente radical: unir a investigação científica à possibilidade de gerar competências no Estado de São Paulo", diz o médico. O objetivo do projeto, uma vez terminado, é capacitar uma rede de laboratórios em biologia para investigar situações epidemiológicas. "Esses quatro vírus vão responder a perguntas extremamente interessantes e originais". Com a VGDN, será formado um gigantesco banco de dados virtual e o Estado de São Paulo ganhará autonomia para realizar a tipagem de outros vírus que possam causar epidemias, como a dengue e a raiva. Hoje, somos dependentes de laboratórios internacionais. A rede informatizada vai se tornar permanente e será incorporada à Secretaria Estadual de Saúde. Com ela, a Secretaria poderá estudar as variedades genéticas de outros microorganismos. "O projeto está na fase inicial de importação de equipamentos, e já começou a seqüenciar o HIV de amostras de sangue de 1.450 pessoas de 30 municípios do Estado". Massad iniciou no mês passado uma coleta de sangue nos detentos do sistema penitenciário, para analisar a diversidade dos vírus HIV-1 e da hepatite C. "Vamos coletar sangue nos centros de triagem das zonas leste e oeste, e pretendemos pegar um número igual do Carandiru. Serão seqüenciados aqui na Medicina de 2.500 a 3.000 soros", diz o medico". O comitê de pesquisa é formado por seis laboratórios principais. O Instituto de Ciências Biomédicas da USP, que tem como coordenadores Paolo Zanotto e Edison Durigon, será o centro de referência para o VRS, com a tarefa também de gerenciar toda a parte de bioinformática. Ao Instituto Adolfo Lutz, sob a responsabilidade de João Renato Rebelo Pinho, caberá a supervisão de análise dos dados sobre os vírus HCV e o hantavírus. Os trabalhos com o HIV-1 serão conduzidos pela Fundação Pró-Sangue Hemocentro São Paulo, com a coordenação de Ester Cerdeiro Sabino, e pelo Centro de Referência e Tratamento DST/Aids da Secretaria Estadual de Saúde, coordenado por Leda Jamal. Outras duas unidades da Universidade de São Paulo também contribuem: com suporte computacional (Instituto de Matemática) e o tratamento de informática médica (Faculdade de Medicina). Eles estarão plugados na rede virtual a outros 17 laboratórios secundários do Estado, que poderão, depois do término do projeto, realizar estudos para quaisquer tipos de vírus. Para desenvolver estes estudos, também receberão os equipamentos da Fapesp. "Por exemplo: se eventualmente ocorrer uma epidemia (de dengue em São José do Rio Preto, o grupo local, se participou da primeira fase da Rede, estará capacitado para fazer o controle da doença naquele momento", diz Massad. A iniciativa do projeto partiu do virologista Paulo Zanotto, biólogo com estudos em técnicas moleculares e evolução virai na Universidade de Oxford. A ele, uniram-se outros três virologistas: Edison Durigon, João Renato e Ester Sabino. Os quatro vírus foram escolhidos por causarem doenças com alto grau de letalidade, para as quais ainda não há vacinas. À exceção do hantavírus, os outros três têm alta incidência no Estado. Segundo o coordenador da Rede, a hepatite C, que ataca o fígado, será provavelmente o maior problema epidêmico do mundo dos próximos dez ou 20 anos. Estima-se que 30% da população mundial seja portadora desse vírus que, em 30% dos casos, leva ao câncer e à cirrose. Com fortes características endêmicas, a prevalência da hepatite C é muito maior do que a do HIV, mas o tempo de vida do doente é maior. Ela é transmitida por meio de contaminação sanguínea e uma grande parte dos casos tem como origem uma infecção desconhecida - a pessoa infectada não sabe ser portador do vírus simplesmente porque não apresenta sintomas. Já o vírus sincicial respiratório ataca um grande número de crianças e foi escolhido por sua importância epidemiológica: 90% dos casos de bronquiolite e 50% dos de pneumonia em crianças de até dois anos são causados pelo VRS, segundo dados do Instituto da Criança. O hantavírus, que causa uma síndrome pulmonar, é um vírus transmitido pela inalação de partículas aéreas da urina e da saliva de ratos. Ele tem também uma importância epidemiológica, mas o interesse particular está na dinâmica da infecção, pois o hantavírus precisa de outro reservatório animal para infectar humanos. Os vírus de uma mesma família diferenciam-se uns dos outros em pequenas variações de certos pedaços do genoma, como explica o médico Eduardo Massad. Esses pedaços mudam a uma taxa aproximadamente constante, o que é chamado tecnicamente de biology clock (relógio biológico). Isso significa a possibilidade de mutação em uma determinada freqüência. "Imagine que tivemos um vírus primordial, o primeiro da escala evolutiva. A partir dele, originaram-se uma outra seqüência de um lado e uma segunda seqüência de outro. Esses vírus são mais ou menos idênticos entre si, mas a segunda seqüência difere da primeira em um pedacinho do genoma. Com o passar do tempo, teremos um aumento dessa diversidade. Hoje, ao seqüenciar o HIV em 200 pacientes, encontraremos um riquíssima diversidade desse vírus", explica Massad. A tarefa de parte do projeto é entender justamente as diferenças nesses pedaços, e as proteínas por eles criados, determinantes de seu comportamento biológico. Com isso, será possível obter um panorama geral e determinar quais são as cepas dominantes. MUTAÇÕES RÁPIDAS, ASSIM ELES SOBREVIVEM A rapidez com que os vírus se modificam é maior do que a velocidade de mudança das células humanas do sistema imunológico A definição de vírus é um tema controverso entre os cientistas, já que nela está implicada parte da definição do que é vida. Teorias atuais colocam os vírus como entidades que preenchem a lacuna entre o mundo "vivo" e o "não-vivo". Porque, se por um lado eles são capazes de se auto-replicarem e de sofrerem mutações, de outro podem ser cristalizados. Mas, para o médico Eduardo Massad, coordenador geral da Rede de Diversidade Genética, o vírus é um ser vivo porque é autônomo e adota estratégias de sobrevivência. Os vírus e outros patógenos adotam certos comportamentos em seu hospedeiro que maximizam sua transmissão. Um microorganismo patogênico faz uma cópia de si mesmo, o que leva à geração de infecções secundárias. "Se sou um vírus, minha obrigação é fazer uma cópia de mim mesmo. A única chance para isso é me instalar no hospedeiro e maximizar a minha prole nesse indivíduo que estou infectando, passando um filho adiante. Como faço isso? Fazendo esse indivíduo transmitir o vírus por meio da indução a certos comportamentos. Por exemplo: para o vírus da gripe, o espirrar", explica Massad. O DNA de um vírus é muito pequeno, comparado ao material genético de outras espécies, como o DNA humano. O HIV, por exemplo, tem apenas seis genes que conseguem fabricar apenas seis proteínas - apenas seis, mas suficientes para provocar uma doença ainda sem cura. "As seis proteínas são o que ele precisa para maximizar aquele pedaço de RNA e fazer uma cópia dele. É uma estratégia brilhante, porque ele infecta e se recolhe", diz o médico Eduardo Massad. A estratégia do HIV é sofisticada: quando o hospedeiro morre, o vírus já foi transmitido em larga escala. "O HIV usa a estratégia de 'jogar para a frente' a morte do hospedeiro, de modo que ele fique cada vez mais em tempo de incubação. O vírus da hepatite C também se utiliza de uma estratégia similar". Os vírus empreendem no hospedeiro mutações velozes. Segundo Massad, um soropositivo para o HIV tem uma diversificada família de vírus. Por isso, não se pode dizer que o vírus é uma espécie, e sim uma "quase espécie". "O vírus muda tanto dentro de uma mesma pessoa, que ela pode ter dez, 15 ou 20 tipos diferentes de vírus, todos causando a doença, mas com um comportamento biológico um pouco diferente". Esta capacidade de mudar tão rapidamente capacita-o também a uma enorme adaptabilidade. "É a diferença de ser simples, mutável e, portanto, adaptável, ou ser complexo como nós - estáveis, mas menos adaptáveis". Mas os vírus são somente más notícias? Massad responde que não, porque ao mesmo tempo que esses microorganismos causam doenças, eles são a fonte de nossa maior diversidade. Ao longo do processo evolutivo, eles estimularam a nossa espécie a se diversificar a ponto de ter uma reserva gênica para se adaptar a qualquer meio.