Notícia

A Folha (São Carlos, SP)

Uma questão de tradução

Publicado em 11 setembro 2011

Somos todos tradutores

Não é do tempo contemporâneo que traduções e Versões entre línguas causam, algumas vezes, estranhamentos para os sujeitos que se inscrevem numa dada língua com a qual se traduz ou se versa uma palavra, uma fala, um texto, e trazem grandes dificuldades para os tradutores que realizam formalmente tal trabalho. Tanto para estes quanto para aqueles, há elementos no interior dessas dificuldades que, a meu ver, .ultrapassam as ordens vocabular e sintática das línguas, embora estas sejam uma das instâncias necessárias a se considerar. E isso não é pouca coisa.

Matutamente, caros leitores, vocês apontam para o elemento que mais salta aos olhos quando alguém se põe a fazer ou compreender traduções: a construção de sentido. Transpor as significações, em correspondências entre línguas, esbarra em armadilhas para além das sinonímias, que nunca são perfeitas, e da literalidade dos sentidos, que não existe. Por algumas vezes, essas dificuldades se dão não somente em razão de as estruturas linguísticas divergirem. Mesmo que desarmemos esta "ratoeira", vêm outras, juntamente com as desavenças semânticas, e nos prendem, como, por exemplo, filtros históricos, sociais e ideológicos pertinentes aos lugares em que os textos traduzidos ou versados passam a circular. Escolhas que passam por esse crivo sócio-histórico e ideológico devem ser feitas, ainda que se tente manter o produto da tradução o mais "profissional", positivista e rigoroso possível, extirpando-lhe o inextirpável, que é o sujeito que lida com o material tradutório e suas subjetividades.

Um exemplo

Em uma matéria publicada no site Vírgula-Uol**, em 26/8/2011, pode-se ler que um artigo jornalístico da revista Vogue, na Itália, causou grandes confusões ao mencionar a tendência da moda dos brincos de argola como uma das influências das mulheres escravizadas no sul dos Estados Unidos. O artigo circulou inicialmente com o nome Slave earrings, todavia, depois de bravos protestos (a meu ver justos e corretos acerca do conteúdo), passou a circular com o nome Ethnic earrings, posteriormente sendo retirado em definitivo do site. Uma modalização da circulação dos sentidos para outra compreensão, na tentativa de evitar a associação do conteúdo do artigo a questões racistas.

Desses primeiros sintomas, podemos observar que, além de haver atualmente lutas sociais de alguns grupos contra intolerâncias ainda praticadas por alguns escroques e de haver uma bastante debatida linguagem politicamente correta para tentar neutralizar esses efeitos discriminatórios - com a qual discordo, não pelo objetivo da luta, mas por não acreditar que existam palavras neutras de sentido nem que a utilização dessas palavras em substituição a outras apague, justamente, o porquê de elas estarem sendo empregadas, e, os embates político, histórico, social e ideológico que alguns temas, entre eles intolerâncias e racismos, incitam desde há muito tempo -, as traduções, versões (textos de maneira geral) têm de observar a que grupos sociais irão chegar, em que espaços institucionais irão circular, com quais outros textos, e mais ainda, com quais discursos, ou seja, efeitos histórico-ideológicos na materialidade da língua e vice-versa, irão dialogar. Como diria o linguista Sírio Possenti: "As pessoas lêem textos, mas compreendem discursos".- Sendo assim, portanto, nos discursos, compreende-se - não apenas elementos da ordem da língua - sujeito, verbo, predicado, adjetivos, substantivos -, mas elementos de ordem histórica que foram, são e serão construídos ao longo dos embates entre sujeitos em distintos tempos, em diversos lugares, e dos quais os efeitos de sentido resultantes são insumo da construção de identidade. O leitor ainda pode se perguntar se pensar a quem escrevo, por que escrevo certos dizeres e não outros naquela situação, quem são as pessoas que irão receber o(os) discurso(os), impingido(os) no texto, entre outras coisas, não seria, em alguma medida, restringir/censurar os sentidos, tal qual fez o editorial da revista depois dos protestos? Não creio nisso tanto quanto não creio que as palavras se ligam diretamente às coisas a que referem, para lembrar o filósofo Michel Foucault. E esse imaginário de a quem falamos, escrevemos ou como nos mostramos é parte constitutiva dos construtos ideológicos e do ínterim entre palavras e referentes. Já ouvimos muitas vezes: "Você sabe com quem está falando?" "Me respeite, pois sou mais velho ou, sou seu chefe ou seu pai, mãe etc".

Ao modalizar nossos discursos a fim de tender a essa demanda ideológica, estamos também medindo a quem falamos e como devemos lhe falar. Falamos de certas formas e não de outras, nas mais diversas situações. Há inúmeras instâncias, linguísticas e extralinguísticas, entre a forma com a qual a palavra se expressa e o conteúdo que ela significa. E se existe motivação entre essas duas pontas a costura do traçado é de ordem histórica.

Os sentidos, em última análise, são incontroláveis, porém bastante direcionáveis em suas compreensões/ interpretações, por isso também independem, em muitas maneiras, das intenções dos sujeitos que os produzem em suas palavras. Com isso, não dá para aceitar o argumento da editora da Vogue Itália, Franca Sozzani: "Pedimos desculpas pela inconveniência. Foi uma questão de uma tradução muito ruim do italiano para o inglês" tampouco o da reportagem do site Virgula-Uol ao ratificar essa ideia: "Agora basta saber se eles se darão ao trabalho de contratar um tradutor mais eficiente para que "equívocos" como este hão voltem a acontecer, não é mesmo?"(destaque do artigo). A questão não está apenas na escolha das palavras, e sim nos efeitos de sentidos construídos na recepção do discurso do artigo. Há discriminações, racismos, xenofobismos históricos que estão embrenhados no âmago social. Homens, de fato, escravizaram outros homens em nome, dos mais infundados argumentos. Isso ressoa no nosso mundo contemporâneo. Por certo também, esse caldo de intolerância, cm alguma medida, ainda circula e é muito vivo no corpo social, devido a isso alguns sujeitos se indignaram com o discurso inscrito no artigo.

Não se pode jogar a culpa na tradução (e isso vai estourar na mão de quem de fato traduziu) pela repercussão daquilo que reclamaram os leitores da revista. Além disso, as interdições do nome e do próprio artigo não garantem o apagamento dos sentidos veiculados nos textos. As ditaduras latino-americanas evidenciam isso nas produções culturais que ecoam até os dias atuais. Mudam-se adjetivos, advérbios, substantivos, censuram-se nomes, pessoas, lugares, todavia a compreensão histórica dos sentidos não é mudada. Ela será sim inscrita como mais uma palavra, um nome, um texto, um discurso a representar e dialogar, em convergência ou divergência, com outros discursos no grande palco de lutas ideológicas que é a língua. A "tradução", nesse caso, se deu na compreensão, identificação e posicionamento de determinados grupos diante do discurso trazido à tona pelo artigo primeiro (e no segundo também, pois todos que releram sabiam que ele foi modalizado por conta da alusão ofensiva à história dos povos escravizados, tanto que acabou excluído do site).

Houve, nesse caso, um mal-entendido constitutivo para a polêmica que foi instaurada. Essa incompreensão não foi gratuita, e sim parte de um processo de tradução que fazemos dos outros sujeitos, textos, discursos sob nossa própria compreensão. Como sei disso? Traduzindo sob a perspectiva da minha história, identificação e dos meus posicionamentos o que compreendi de toda essa contenda...

Doutorando em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos -UFSCar, membro do Laboratório de Estudos Epistemológicos e Discursividades Multimodais - LEEDIM e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - Fapesp. E-mail: sponsoni@yahoo. com.