Notícia

Correio da Paraíba

Uma megarevolução na pediatria

Publicado em 04 junho 2006

Por Ricardo Zorzetto

São Paulo (FAPESP) - Ainda hoje os pediatras acordam no meio da noite para tratar a febre que não baixa, a tosse que não cessa ou a dor de ouvido que não deixa a criança dormir — nem seus pais. Desde o aparecimento dessa especialidade medica na Europa do século 18, a pediatria voltou-se quase exclusivamente ao combate da desnutrição, das verminoses e das infecções que continuam a matar a cada ano milhões de crianças no mundo todo.
Agora, uma transformação em curso no quadro dos problemas de saúde das crianças e dos adolescentes está obrigando os pediatras a reverem seu papel. Além de acudir de madrugada pais aflitos com a infecção dos filhos, eles terão de se preocupar também em evita que seus pequenos clientes desenvolvam as chamadas doenças crônico-degenerativas — problemas que surgem na infância, avançam silenciosamente durante décadas e só vão se manifestar 40 ou 50 anos mais tarde, afetando a qualidade de vida dos adultos.
Esse redirecionamento da ação do pediatra e o que especialistas brasileiros estão chamando de nova pediatria, uma correção de rumos necessária para cuidar de crianças que possível mente chegarão aos 100 anos e se tornarão os idosos do século 22: "O pediatra está habituado a lidar com problemas agudos", comenta Magda Carneiro Sampaio, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
"Mas quem atende hoje uma criança em seu consultório deve ficar atento aos problemas de saúde que ela pode desenvolver no futuro", afirma a pediatra pernambucana. Especialista em doenças imunológicas, Magda consolidou há um ano a idéia dessa pediatria voltada para a prevenção em um ambicioso projeto: Uma nova pediatria para as crianças que viverão 100 anos ou mais.

Pesquisa em Pernambuco
Em parceria com o pediatra João Guilherme Bezerra Alves, do Instituto Materno Infantil de Pernambuco, ela reuniu esforços de cerca de 200 especialistas de quatro instituições brasileiras que atualmente investigam a origem e a evolução de cinco grupos de doenças crônicas que surgem na infância e vêm se tornando cada vez mais comuns: os problemas cardiovasculares, as alergias, os distúrbios nutricionais, os transtornos de comportamento e as doenças crônicas de origem genética, que muitas vezes podem ser evitadas durante a gravidez. O objetivo é encontrar formas de prevenir esses problemas — ou modos mais eficazes de combatê-los — e permitir que as crianças cresçam sem contratempos maiores que um braço quebrado ou um hematoma no joelho.