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Terra da Gente

Uma luz sobre os mamíferos brasileiros

Publicado em 10 maio 2012

Terra da Gente

 

A ideia de que os mamíferos do Cerrado e da Caatinga são uma versão empobrecida dos animais da Amazônia e da Mata Atlântica cai por terra diante de um estudo recente, elaborado por biólogos de três universidades brasileiras. A pesquisa demonstra que cerca de 80% das espécies endêmicas conhecidas de mamíferos do Brasil Central e do semiárido do Nordeste têm suas raízes em regiões de vegetação aberta do continente sul-americano.


Isso inclui regiões do tipo savana, com poucas árvores e mais gramíneas, como o próprio Cerrado e seu vizinho, o Chaco, que tem área plana e relativamente seca que se estende por partes dos territórios do Paraguai, Bolívia e Argentina, além de um pequeno trecho no Centro-Oeste nacional.

O estudo foi realizado pelos biólogos Ana Paulo Carmignotto, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Mario de Vivo, curador da seção de mamíferos do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), e Alfredo Langguth, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). “Conseguimos demonstrar que muitas espécies endêmicas de áreas abertas do Cerrado e da Caatinga não se originaram como as pessoas pensavam, de espécies irmãs das florestas vizinhas”, afirma Vivo. O trabalho foi financiado por um projeto temático feito no âmbito do programa Biota-Fapesp.

A hipótese abarca a fauna típica de mamíferos do Cerrado, cuja presença em áreas abertas era mais expressiva 10 mil anos atrás. Assim, a existência por um longo período dessa grande zona de savana no coração da América do Sul teria funcionado como berço de boa parte das espécies mais típicas do Cerrado.


Na Caatinga, o papel das áreas abertas como origem de espécies singulares de mamíferos é menos provável. A hipótese se justifica: no semiárido nordestino que se conhece atualmente, havia uma floresta tropical. Dados mostram que matas do passado e de hoje parecem ter sido mais importantes para o desenvolvimento das poucas espécies únicas de mamíferos da Caatinga, onde o grupo de animais é menos diversificado que no cerrado. Mesmo assim, os três pesquisadores dizem que não se deve creditar às florestas toda a cota de endemismo da Caatinga.

Trabalho de pesquisa
Para chegar a essas conclusões, os biólogos se empenharam em trabalhos de campo. Alguns animais específicos do Cerrado e da Caatinga foram estudados, assim como sua distribuição geográfica. Como resultado tem-se uma lista atualizada não só das espécies presentes exclusivamente nos dois biomas, mas de todos os mamíferos conhecidos. A biodiversidade encontrada foi maior do que se esperava.


O Cerrado, que tem cerca de dois milhões de quilômetros quadrados, conta com 227 espécies de mamíferos, 33 a mais do que foi registrado no último inventário, em 2002. A Caatinga, com menos da metade da área, tem 153 espécies de mamíferos, 10 a mais do que os listados em 2008.


Nos dois biomas, morcegos e roedores são as duas ordens de mamíferos com maior número de espécies conhecidas. Em seguida, vêm os carnívoros e os marsupiais. Cento e vinte espécies de mamíferos estão igualmente presentes tanto na Caatinga quanto no Cerrado. “A maior área dos mamíferos dos dois biomas é compartilhada entre si ou com a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica ou o Chaco”, afirma Carmignotto.


Vivo afirma que muitos trabalhos davam a entender que as áreas abertas da América do Sul não tinham gerado nada de original em termos de novas formas de mamíferos. Quase tudo era visto como uma ramificação de linhagens que evoluíram nas matas fechadas.


Segundo os autores, essa falsa constatação pode derivar do fato de que o universo dos mamíferos exclusivos do Brasil Central é realmente pequeno e concentrado, o que foi constatado com a grande quantidade de espécies de roedores.


Com base nisso, dois padrões de endemismo foram defendidos, tendo como base a distribuição geográfica das espécies encontradas nos dois biomas e os estudos filogenéticos, que traçam possíveis parentescos e relações evolutivas com animais de outras regiões. O primeiro compreende espécies de mamíferos hoje típicas do Cerrado ou da Caatinga, que derivaram de gêneros originários da Floresta Amazônica ou da Mata Atlântica. Os pesquisadores citam como exemplo os primatas. O Callithris penicillate, conhecido como sagui-de-tufo-preto ou mico-estrela, é um macaco que vive somente no Cerrado, a única das mais de 20 espécies do gênero Callithrix que habita uma zona de savana.


O segundo padrão de endemismo é o de linhagens de animais, há muito associados a biomas de vegetação predominantemente aberta, como o próprio Cerrado e a Caatinga no passado remoto, além do Chaco. As três espécies de roedores do Cerrado do gênero Juscelinomys se enquadram nesta situação, além de duas endêmicas do gênero Thalpomys, duas do gênero Wiedomys, e uma do gênero Kunsia.


Apesar do trabalho desenvolvido, alguns pesquisadores discordam da ideia proposta. Outros acreditam que são necessários estudos mais aprofundados sobre o assunto. Para Rui Cerqueira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a hipótese é razoável. Segundo o biólogo, a visão de que a fauna de mamíferos do Cerrado e da Caatinga seria uma versão empobrecida dos animais florestais está realmente ultrapassada e mais estudos precisam ser feitos.

Link para o vídeo: http://youtu.be/w4J8yW3uGKs