Notícia

Diário do Comércio (SP) online

Uma luz sobre o apagão

Publicado em 08 julho 2008

Por Fábio Pellegrino

Demi Getschko é um dos engenheiros que trouxeram a internet para o Brasil. Com graduação, mestrado e doutorado na Escola Politécnica da USP, esteve presente na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em janeiro de 1991, quando foi feita a primeira conexão Web do Brasil.

Atualmente, é diretor presidente do NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), uma entidade civil sem fins lucrativos que, desde dezembro de 2005, implementa as decisões e projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

DC - São Paulo teve uma das maiores panes registradas até o momento envolvendo um provedor de acesso à internet. Estamos tão dependentes assim da rede mundial de computadores?

Demi Getschko - Eu diria que estamos bastante dependentes. Tínhamos uma formatação de alguns serviços, como bancários e de governo, em que utilizamos bastante. No que diz respeito ao comércio e para o cidadão comum talvez o prejuízo não tenha sido tão grande quanto foi para a rede de serviços, mas esse acesso também ficou muito ruim.

DC - Como uma pane em uma operadora pode parar uma das maiores cidades brasileiras?

Demi Getschko - Na verdade, só se prestam atenção nessas coisas quando se acontece algo do gênero. Os grandes atores desse cenário deveriam ter se precavido um pouco e ter alternativas a um ponto de falha única. Você nunca deve ter uma situação na qual se depende de um único ponto de falha, ou seja, se esse ponto falhar você está morto. Vou dar um exemplo: temos três provedores de trânsito no .BR (Registro Brasileiro) e mais dois backup. Isso fez com que não sentimos praticamente nenhum impacto – mesmo porque estávamos usando pouco o serviço da Telefônica naquele momento. De qualquer forma, se houvesse alguma falha, rotearíamos (mudaríamos o caminho) para uma alternativa. A internet como um todo não teve problema, na verdade houve uma falha em um provedor de acesso que perdeu o contato com a rede. Isso significa que quem estava nesse provedor perdeu o caminho de saída para a rede, não conseguia chegar à internet e aos demais serviços. Quem é responsável por um serviço de porte maior e tem uma grande necessidade de continuidade de acesso deveria prover caminhos alternativos para evitar problemas como esse. É óbvio que não se espera que um provedor grande tenha esse tipo de falha e que seja algo freqüente, mas é sempre bom ter um plano B.

DC - O fato de não haver um plano de contingência não coloca o Brasil em perigo?

Demi Getschko - Não. O Brasil não esteve em perigo. Aliás, o País se manteve conectado na rede – várias regiões trabalhavam normalmente. Do ponto de vista internacional, ninguém notou que o Brasil estivesse em perigo, mas certamente um pedaço importante da nação, São Paulo, centro nervoso do País, teve dificuldade de acessar a rede nesses dias, porque um dos principais provedores de conectividade de acesso à internet teve problemas. Quem tem um acesso por banda larga em casa e não tem uma forma de negociar tem de ficar torcendo para que isso não aconteça. Quem é grande o suficiente para ter o serviço sem falhas de continuidade, esse tem de se prevenir com mais de uma forma de acesso.

DC - Mas muitas empresas não têm esse plano de contingência.

Demi Getschko - Muitas não têm, outras achavam que não precisavam. Agora ficou mais claro que em algumas circunstâncias é fundamental ter alternativa.

DC - Uma pane como essa que tivemos no Brasil não pode estar relacionada ao fato de termos basicamente duas operadoras?

Demi Getschko - Isso está ligado, de fato, a você ter uma predominância de uma operadora em uma área geográfica relativamente grande. Não existem muitas alternativas para você optar por outra saída nesse instante. Existe uma ou duas opções via cabo, mas em geral usa-se uma só, muitas vezes não há dinheiro para comprar mais de uma solução de conectividade. Então o pessoal que usa banda larga em casa está em uma situação menos flexível. Vão ter de escolher um provedor de acesso e viver com ele. A indústria é que deveria ter mais cuidado.

DC - Mundialmente o senhor tem conhecimento de alguma pane que tenha causado estragos na economia ou ordem pública?

Demi Getschko - Bom, não sei exatamente o que ocorreu com a Telefônica, mas tenho minhas intuições a respeito. A rede trabalha com milhões de sub-redes conectadas e as coisas funcionam porque cada um que conhece a sua periferia vai anunciando isso para o resto da rede. Então, se você entende completamente São Paulo, e divulga lá fora que tem acesso a tais regiões IP na rede mundial, o pessoal acredita em você e manda o tráfego. Essa é uma política de anúncio de rotas, que os roteadores trocam entre si e com isso a rede se mantém dinamicamente atualizada e funcionando. Se um desses roteadores entrarem em "paranóia" e começar a divulgar absurdos – por exemplo, que tem a rota para todo mundo, está perto e mais rápido de todos –, ele vai atrair esse tráfego para ele. Esse comportamento pode fazer com que ele vire uma espécie de dreno de tráfego. O tráfego vai todo para lá, achando que existe um caminho para algum lugar. O roteador simplesmente joga todo mundo no ralo. Isso já aconteceu em outras situações, de forma bem ou mal intencionada. Há uns dois meses, um problema no Paquistão, quando o governo desse país tentou impedir o acesso ao Youtube, fez com que provedores de acesso anunciassem que tinham rota para o Youtube melhor e mais próxima, de forma que o pessoal que queria o acesso, acabava sendo atraído como um imã a esse caminho, sendo levados a um buraco negro. Essa foi uma forma de impedir acesso a uma região: você anuncia que tem uma rota melhor e estraga o plano original do sujeito, que pretendia ir para algum lugar. Isso foi mal-feito no Paquistão e obstruiu acesso às regiões grandes da rede para fora e foi rapidamente consertado. O que aconteceu com a Telefônica não é algo raro, diria que é até normal, a única coisa que eu acho é que demorou muito para se resolver o problema, talvez porque ninguém esperasse que pudesse ocorrer e eles tenham sido pegos desprevenidos.

DC - Mas parece que não havia um plano de contingência para a Telefônica.

Demi Getschko - Nesse caso o que se tem a fazer é consertar o defeito. Não há uma contingência que possa ser feita. A contingência é você estar em uma região onde não está a Telefônica. A forma de ela consertar isso era isolar a região que está desviando o tráfego para o lugar errado e fazer outro caminho ao redor disso. Ela tem de tomar uma providência. Não é como se tivesse quebrado uma ponte, mas imagine que todas as setas que indicam o caminho para a Rodovia dos Bandeirantes fossem trocadas para indicar a Raposo Tavares. Todo mundo que estava a caminho da Bandeirantes vai se direcionar para o outro lado. Todo mundo vai para a Raposo Tavares e com isso ela vai parar. A Rodovia dos Bandeirantes estará vazia e ninguém conseguirá chegar até ela. Esse é um problema de roteamento. Um roteador anunciou "eu sei o caminho para chegar à Bandeirantes" e ele é pela Raposo Tavares, todo mundo vai para lá, porque ele está anunciando isso com ênfase e a um custo barato, entenda que esse custo não é em dinheiro, é um custo em tempo. Alguém precisa descobrir que inverteu as placas.

DC - Como os EUA se precavêem para não ter falhas? Ou ninguém espera que algo assim aconteça?

Demi Getschko - Acho que a única coisa que eles têm lá é a experiência na área de roteamento. Em geral, as falhas como essa estão ligadas a uma programação errada no roteador. Ele não fica "histérico" por conta própria, mesmo porque ele não consegue fazer um erro coerente. Se você pára de funcionar é como quebrar uma ponte, se ela cai você faz a volta por outra. Mas isso não é uma falta de ponte. Alguém, de forma premeditada, ou intencionalmente, estava desviando o tráfego para um lugar errado. É uma mudança nas placas de sinalização das estradas. No caso da Telefônica, ou alguém errou a programação desse roteador ou foi programado indevidamente ou acidentalmente por alguém... Quem tem que nos dizer isso é a Telefônica. Não é uma situação que faltou uma manutenção preventiva ou em relação ao cabo de força ou se a banda não era suficiente. Não é falta de recursos, é problema lógico: ter trocado os caminhos de um lugar para outro.

DC - Nossa tecnologia de comunicação é ultrapassada?

Demi Getschko - Não acho que seja ultrapassada. Ao contrário, está ganhando sempre nova vida, novas versões de endereçamentos. Esse não é um caso de poucos recursos, é o enlouquecimento de um roteador. Nossa tecnologia é relativamente nova.

DC - Como o senhor mesmo sabe, existe empresas de tecnologia, como o Google, que apostam na "Teoria da Nuvem", em que sistemas, dados e aplicativos estariam na rede mundial de computadores e que utilizaríamos os aplicativos pela internet. Estaríamos seguros com essa dependência e com nossas informações circulando por aí?

Demi Getschko - De fato, isso é algo que assumimos como líquido, certo e verdadeiro, mas precisamos ter cuidado com isso. No momento em que abrimos mão de ter nossas informações, por uma questão de conforto e mais segurança, temos de ter uma garantia que isso será mantido seguro da mesma forma ou, de preferência, ainda mais resguardado. Para isso, precisamos avaliar se o serviço é confiável e se não vou perder meus dados e nunca mais recuperá-los. Além disso, tem a questão da privacidade. No momento em que você tem todas suas informações lá fora, por melhor que seja intenção é preciso ter cuidado. Só para dar um exemplo, se uma pessoa que guardava algo inapropriado em provedores nos EUA, tipo Google ou Orkut, e não está nem aí é melhor se preocupar. Um acordo com o Ministério Público, na semana passada, permite que seus dados sejam vasculhados. Ou seja, se a pessoa achava que estava imune a isso, mas que eventualmente fosse um serviço só seu, sem a intenção de divulgar o material pornográfico, mas o tinha em sua base, está em uma situação extremamente delicada, já que o material não fica mais em sua mão e não poderá apagá-lo. Ele estará guardado em um servidor lá fora e, portanto, vão providenciar que esses dados não sumam, já que o acordo prevê manter os dados por seis meses. Nesse instante não há o que fazer: você estará sujeito às penas da Lei. Isso pode ser levado para o lado positivo, porque a Lei conseguiu desmontar uma situação delicada, mas se fosse seu micro e se você soubesse que há uma grande campanha contra determinado conteúdo, haveria a possibilidade de arrependimento e você simplesmente apagaria o micro ou o jogaria ele pela janela. Agora não dá mais para colocar debaixo do tapete. No caso das suas informações o ideal é manter base local para ficar mais sossegado, mas, mesmo assim, a partir do momento que colocou lá fora suas informações, você abriu mão da segurança da sua privacidade. Você depende do comportamento ético ou não dos provedores de serviços lá fora.

DC - O que devemos fazer para evitar que problemas como o ocorrido não nos prejudique no futuro?

Demi Getschko - Uma solução que ajudaria é negociar com os data centers mais de uma rota, já que eles têm trânsito disponível alternativo com diversos provedores - isso se for empresas que têm o serviço hospedado fora. Em caso de uma crise como essa, o data center poderia redirecionar para outro provedor de saída. Mas isso tem de ser negociado não como um custo adicional, que você teria de pagar todo mês por isso, mas uma forma de manobra e deixar armado contratualmente, para não ser preciso trabalhar com dois ou três provedores. Essa seria uma solução de contingência.