Notícia

Jornal da USP

Uma inédita solução para a surdez

Publicado em 17 agosto 1998

Por LEANDRA RAJCZUK
Programa desenvolvido por médicos e pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP apresenta um novo tipo de aparelho para casos de perda auditiva considerados graves É um tratamento alternativo indicado para pessoas que sofrem de surdez profunda em decorrência de lesões na cóclea, órgão interno da audição, e que não conseguem obter ganho auditivo com o aparelho convencional. Para compensar essa perda, que pode ser provocada por meningite, traumatismo craniano, fraturas e até problemas congênitos, ou seja, casos em que não adianta usar um simples amplificador de som, foi criado o implante coclear, um estimulador elétrico que faz o papel das principais estruturas que compõem o ouvido e que tem como funções a captação de som, sua transformação em estímulo elétrico e a estimulação direta do nervo auditivo. Sob a coordenação do professor Ricardo Ferreira Bento, o programa foi desenvolvido por médicos e pesquisadores de Otologia da Divisão de Otorrinolaringologia e pela Divisão de Bioengenharia do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP. "O aparelho de implante coclear procura reproduzir, ainda que de maneira rudimentar, a estimulação sonora cerebral", define Ferreira Bento. "Sua função é fazer a captação do som, transformando-o em linguagem digital." O aparelho é composto basicamente por um microfone, um filtro de freqüências sonoras - como um equalizador de som - , um microcomputador em miniatura, uma antena geradora, uma antena receptora e os eletrodos de estimulação. "A pessoa que usa o aparelho receberá sensações auditivas sonoras que poderão ser interpretadas como os sons da vida cotidiana e da palavra falada", explica o especialista. No entanto, esses sons não serão iguais aos que uma pessoa normal escuta. Para quem já ouviu antes e lembra dos sons, eles serão diferentes, porém podem ser associados aos sons escutados. "É como se o paciente estivesse aprendendo uma língua totalmente diferente", observa. ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO Para receber o implante, o paciente deve passar por uma série de testes de avaliação como o exame audiométrico - que estabelece o nível de audição - , o potencial evocado que serve para certificar esse nível, a adaptação de aparelho de audição convencional, os exames radiológicos para avaliação da cóclea e ouvido médio e a estimulação da cóclea com um eletrodo através do tímpano para avaliar o nível de estimulação. O implante possui um microprocessador externo, do tamanho de um maço de cigarros, que capta os sons e os transforma em linguagem digital, e uma antena receptora, implantada sob o couro cabeludo e que, para evitar infecções, não tem nenhuma ligação com o meio externo. Desse implante partem dois eletrodos que são ligados internamente à cóclea e levam os estímulos ao nervo auditivo. A transmissão do som entre o processador e o implante, que são mantidos próximos por meio de ímãs, é feita por ondas de rádio. "Para colocação desses eletrodos é necessária uma cirurgia denominada mastoidectomia, que não destrói as estruturas do ouvido, possibilitando trocar ou tirar o equipamento, se necessário, sem prejuízo da situação anterior", garante. A cirurgia é feita com anestesia geral e dura aproximadamente duas horas e meia. O paciente fica três dias internado até a retirada do dreno que é deixado na incisão cirúrgica. "O pós-operatório é tranqüilo, sem dor e o paciente já pode se locomover assim que acordar convenientemente da cirurgia", garante Ferreira Bento. Os pontos podem ser retirados oito dias depois. Do aparelho externo que o paciente leva no bolso da camisa ou pendurado no cinto, sai um fio fino que tem em sua extremidade uma antena revestida de cerâmica do tamanho de uma moeda que é encostada atrás da orelha, em um ponto predeterminado onde, por debaixo da pele, outra antena foi colocada. Não há aberturas ou furos na pele. Com o aparelho implantado, o paciente poderá ter uma vida normal, trabalhar e até praticar esportes, como natação. Após 30 dias da cirurgia, começarão os trabalhos de regulagem e programação do aparelho realizados por um engenheiro e uma fonoaudióloga da equipe. Essa regulagem não tem tempo determinado, mas pode durar cerca de um mês. "É preciso preparar a parte psicológica do paciente com relação à sua expectativa para que não haja qualquer tipo de frustração." Depois que a programação for estabelecida e o paciente estiver entendendo melhor os estímulos, terá início o treinamento específico com a fonoaudióloga para que ajude a pessoa nesta relação dos sons e linguagem. "Esse treinamento dura o tempo necessário para que a equipe lenha confiança em um resultado que seja satisfatório, em geral em torno de quatro meses", afirma Ferreira Bento. O trabalho envolve pelo menos três sessões semanais e o aparelho necessita de pilhas que são encontradas facilmente no mercado, e que são trocadas pelo paciente semanalmente. Outro passo importante consisto em ensinar o paciente a falar novamente. O aparelho do implante coclear o produzido pela Física Biofísica Aplicada S.A., subsidiária da parceria Incor-Fundação Zerbini, que trabalha em colaboração com o Centro Cirúrgico do Hospital, industrializando produtos desenvolvidos pela Divisão de Bioengenharia do Incor. O projeto vem sendo desenvolvido desde 1989 com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Fundação de Amparo à Pesquisa do listado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Organizações não-governamentais (Ongs) e fundações. O aparelho vai entrar em nova fase de produção o deverá ser industrializado e comercializado pela iniciativa privada. Seu custo é de R$ 10 mil, enquanto o importado sai por até R$ 28 mil. Cerca de 20 pacientes já estão usando o aparelho fabricado na Bioengenharia. O primeiro brasileiro a recuperar a audição com a ajuda desse novo aparelho de tecnologia nacional foi Francisco Carlos Ribeiro, técnico em eletrônica, que havia ficado surdo cerca de dez anos antes da cirurgia, em razão de um acidente de trânsito. Em maio de 1994, ele passou pelo tratamento para colocação do implante coclear e, em agosto do mesmo ano, após um período de reeducação com fonoaudiólogos, recuperou cerca de 80% de sua capacidade auditiva. O segundo implante, resultado de aprimoramento do pioneiro - composto por um processador de voz monocanal, com filtragem de voz em 16 freqüências -, foi colocado em um paciente em janeiro de 96. "O resultado médio é considerado bom pelos pacientes que têm o implante e a discriminação de palavras, se auxiliada por uma leitura labial, é muito boa", afirma Ferreira Bento. Todo o tratamento é realizado no HC sem ônus para o paciente, incluindo a aquisição do aparelho. Informações sobre implante coclear na Divisão de Clínica Otorrinolaringológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, r. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 255, 6º andar, sala 6.021. As consultas devem ser marcadas pelo tel. 3069-6869. COMO FUNCIONA A AUDIÇÃO As estruturas que compõem o ouvido são complexas e curiosas. O som se espalha através de uma vibração pelo ar, captada pela orelha externa - pavilhão auditivo e canal externo do ouvido - , e atinge a membrana do tímpano, que funciona como se fosse uma membrana de um tambor supersensível. Na membrana timpânica encontra-se fixado um pequeno osso chamado martelo que está articulado em um outro osso chamado bigorna que, por sua vez, articula-se no estribo. Esse conjunto de pequenos ossos se movimenta com a vibração da membrana timpânica e amplifica essa vibração como um sistema de roldanas, transmitindo-a a uma pequena membrana que se encontra encostada no estribo e oclui o canal da cóclea. Esse canal é cheio de um líquido e tem a forma em espiral como de um caracol. Com a vibração da cadeia de ossinhos, que conseqüentemente faz vibrar a membrana da cóclea, este líquido se movimenta dentro da espiral coclear. A espiral é revestida internamente por células que têm pêlos semelhantes aos cílios, que ficam embebidos nessa solução e se deslocam com a movimentação do líquido da cóclea - como em uma plantação de trigo, que se movimenta com o vento em várias direções. Esse deslocamento gera uma pequena energia elétrica que é transmitida ao cérebro pelo nervo da audição, onde será decodificada e produzirá a compreensão dos sons.