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O Povo online

Uma herança desagradável

Publicado em 04 julho 2009

Por Paulo Rogério

O vírus da gripe suína é um descendente da família viral que matou milhões de pessoas no início do século 20 e que ficou conhecido como gripe espanhola. A conclusão foi divulgada após pesquisa realizada por cientistas ligados ao Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (Niaid), um dos institutos nacionais de saúde do governo dos Estados Unidos.

Segundo o diretor do Niaid, Anthony Fauci, o mundo tem vivido uma era de influenza pandêmica desde 1918, quando espalhou-se por todos os locais a gripe. O estudo foi publicado na edição on-line do New England Journal of Medicine. “A pandemia de influenza de 1918-1919 foi um evento marcante na história da saúde pública e seu legado continua de muitas formas. Os descendentes do vírus de 1918 têm circulado pelo mundo desde então”, disse Fauci.

Os vírus Influenza têm oito genes, dos quais dois codificam para proteínas virais de superfície (hemaglutina e neuraminidase), que permitem ao vírus entrar na célula hospedeira e se espalhar por outras. Há 16 subtipos de hemaglutina e nove de neuraminidase, que resultam em 144 combinações possíveis.

Desse total, até hoje se identificou que apenas três (H1N1, H2N2 and H3N2) estão totalmente capacitadas a infectar humanos. Outras combinações, como o H5N1, causador da gripe aviária, podem ocasionalmente atingir humanos.

Combinações

Segundo os pesquisadores, foram algumas dessas combinações que deram início a pandemia em 1918. O vírus original era do tipo que afetava apenas aves, mas, por meio de mecanismos ainda desconhecidos, adquiriu a capacidade de infectar pessoas e de se espalhar rapidamente.

Na época,o H1N1 foi transmitido de humanos a porcos, nos quais – da mesma forma que em pessoas – continuou a evoluir. “Todos os vírus da influenza A atuais e adaptados aos humanos são descendentes, diretos ou indiretos, daquele vírus fundador. Ou seja, podemos dizer que estamos vivendo em uma era de pandemia que começou em 1918”, disse Jeffery Taubenberger, outro pesquisador do Niaid e autor do estudo.

Mas nem tudo é pessimismo. Segundo ele, apesar de a dinastia fundada em 1918 não dar sinais de que será extinta, o estudo mostrou que o vírus da gripe suína não vai ficando tão severo com as novas combinações.

Quando analisadas por um intervalo de tempo de décadas, as pandemias e epidemias causadas pelos descendentes do vírus original parecem estar menos severas. Eles destacam que há muito ainda a entender sobre o assunto, como, por exemplo, as maneiras por meio das quais um novo gene da influenza salta de aves para um novo tipo de hospedeiro, seja o homem ou outros mamíferos.

com Agência Fapesp

 

Gripe Espanhola matou mais de 20 milhões

A gripe espanhola – como ficou conhecida devido ao grande número de mortos na Espanha – apareceu em duas ondas diferentes durante 1918. Na primeira, em fevereiro, embora bastante contagiosa, era uma doença branda não causando mais que três dias de febre e mal-estar. Já na segunda, em agosto, tornou-se mortal. Enquanto a primeira onda de gripe atingiu especialmente os Estados Unidos e a Europa, a segunda devastou o mundo inteiro: também caíram doentes as populações da Índia, Sudeste Asiático, Japão, China e Américas Central e do Sul.

Os sintomas eram parecidos com uma série de gripes comuns: dores de cabeça, febre e falta de ar.O doente morria incapaz de respirar e com o pulmões cheios de líquido.

No Brasil, a epidemia chegou em setembro de 1918: marinheiros que prestaram serviço militar em Dacar, na África, desembarcaram doentes no Recife. Em pouco mais de duas semanas, surgiram casos de gripe em outras cidades do Nordeste, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Tinha-se medo de sair à rua.

Diante do desconhecimento de medidas terapêuticas para evitar o contágio ou curar os doentes, as autoridades aconselhavam apenas que se evitasse as aglomerações. Estima-se que entre outubro e dezembro de 1918, 65% da população adoeceu.

Só no Rio de Janeiro, foram registradas 14.348 mortes. Em São Paulo, outras 2.000 pessoas morreram. As estimativas em todo o mundo variam entre 20 e 40 milhões. Muito mais pessoas do que a soma das duas grandes guerras mundiais.