Notícia

Jornal do Brasil

Uma fraqueza evidente

Publicado em 19 março 1996

Por EDUARDO GÓES NEVES *
Em seu texto Ficção Científica e Ciência Fictícia, publicado em 14.3, o professor Eduardo Viveiros de Castro convida especialistas em arqueologia brasileira a opinar sobre as declarações da prof. Maria da Conceição Beltrão quanto a uma suposta ocupação de uma área do interior da Bahia pelos índios tukanos há cerca de 40 mil anos. Como arqueólogo que tem estudado a pré-história dos tukanos e outros grupos do alto rio Negro, posso afirmar que não há no momento bases sólidas para o teste da hipótese da prof. Beltrão, quanto mais a sua aceitação. Um dos problemas conceituais básicos da arqueologia é a inferência de categorias étnicas a partir dos vestígios materiais encontrados nos sítios arqueológicos. Tal problema aumenta, à medida que se recua no tempo e diminuem as possibilidades de se estabelecer com firmeza analogias entre os dados arqueológicos e etnográficos. Quando se chega a uma data como 40 mil anos, pode-se afirmar, com certeza, que qualquer tipo de correlação que se apresente resulta apenas da imaginação do arqueólogo, não resistindo ao crivo de uma análise científica séria. No caso do Brasil, onde a possibilidade de ocupações humanas anteriores a 12 mil anos antes do presente não foi ainda satisfatoriamente estabelecida, a fraqueza de tal proposição fica ainda mais evidente. Quanto ao "domínio da civilização tukana", este seria sem dúvida a primeira sociedade não agrícola de dimensões continentais de que se tem notícia, já que a agricultura só se desenvolveu milhares de anos depois. O cenário que vem à mente é o de exércitos de caçadores exercendo trabalho compulsório nas frias noites pleistocênicas do século 400 antes de Cristo. Finalmente, vem o problema lingüístico: entende a professora que os tukanos falavam já sua língua há 40 mil anos? Ou melhor, falavam eles já as suas mais de quinze línguas, já que tukano é uma família lingüística composta por diferentes línguas faladas por grupos que atualmente vivem em partes do Brasil, Colômbia, Equador e Peru? Quanto à suposta ocupação da Toca da Esperança há 300 mil anos, desconheço arqueólogo brasileiro ou estrangeiro que a considere seriamente, apesar de a imprensa continuar periodicamente a apresentá-la como revolução científica. Salvo exceções, a divulgação que os arqueólogos brasileiros fazem de seus trabalhos é bastante fraca. É então através dos grandes jornais e revistas que o público tem a oportunidade de se informar sobre nossa pré-história. É uma pena que o noticiário sobre arqueologia brasileira seja quase sempre o mesmo: "homem mais antigo das Américas", "cidades perdidas", "pirâmides na Amazônia", etc. É provável que com nosso complexo de inferioridade terceiromundista não nos contentemos só em ser tetracampeões mundiais ou ter uma das piores divisões de renda do planeta. Temos também que ter os sítios arqueológicos mais antigos do continente. * Arqueólogo do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo