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Diário do Comércio (SP) online

Uma ferroada nos gigantes

Publicado em 21 março 2012

Por por Kleber Gutierrez

O ranking de inovação da revista norte-americana Fast Company mostrou que os brasileiros ainda têm muito a aprender sobre o próprio mercado e seus potenciais. À frente de empresas gigantes, a pequena Bug Agentes Biológicos, de Piracicaba, no interior paulista, consagrou o combate às pragas das lavouras como o empreendimento mais inovador entre os brasileiros.

Os insetos produzidos no município colocaram a Bug como a 33ª empresa mais avançada do planeta. "Foi uma surpresa", revela o sócio Diogo Carvalho. Ele esclarece que o combate biológico de pragas não é a novidade, sendo utilizado nas culturas de cana desde os anos 1980, mas que a forma como a Bug executa a empreitada sim. E é daí que surge seu reconhecimento na inovação.

Até que ela se lançasse ao mercado, essa luta era travada apenas depois que as lagartas ou brocas tivessem nascido e se instalado nos vegetais, o que sempre representou alguma perda de produtividade. Já as milimétricas vespas (1 mm de tamanho) de Carvalho, da espécie Trichogramma, foram programadas geneticamente para fazer o combate aos ovos. Ou seja, não permitem que a praga sequer nasça nas plantações. Isso graças à transposição tecnológica que permitiu sua concepção em escala industrial.

Para os produtores, não só de cana, mas de outras importantes culturas da pauta de exportações, principalmente a soja, a utilização dos insetos da Bug representa uma economia em torno de 30% a 40% sobre o uso de pesticidas químicos. Além, é claro, do fato de que o controle biológico seja nada degradante ao meio ambiente.

É preciso levar em conta que o Brasil toca o maior projeto de controle biológico de pragas do mundo, pois em 40% de toda nossa gigantesca safra de cana são utilizados agentes vivos como parceiros na produção. Outra possibilidade de inserção de seus insetos parasitoides e ácaros, esclarece Carvalho, existe em plantações cujas pragas ficaram resistentes aos químicos, mas não sobrevivem aos predadores naturais.

Produto com asas - A Bug produz, atualmente, o bastante para tratar 3 mil hectares de lavoura ao dia, com a dispersão de, basicamente, quatro das mais de 3 mil espécies catalogadas da Trichogramma brasileira. Seus laboratórios têm capacidade para gerar entre sete e oito quilos de ovos ao dia. Para se ter uma ideia do quanto isso representa em número de indivíduos, é preciso calcular que cada grama possui algo em torno de 37 mil ovos, o que daria 296 milhões de operários alados a serviço de lavouras livres de pragas diariamente.

Os ovos seguem em cartelas preparadas para dispersão por hectare, contendo até 50 mil deles para o caso das lavouras de cana. E de até 100 mil para outras culturas. Cada cartela custa entre R$ 12 e R$ 20, dependendo da lavoura. As vespas têm ciclo reprodutivo de cinco a sete dias, e, segundo Carvalho, não representam risco ao ambiente, pois sua evolução acompanha a das pragas.

Incubadora - A Bug nasceu há dez anos nos celeiros da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq-USP. Para começar suas pesquisas, recebeu R$ 75 mil do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Atualmente, o maior cliente da empresa trata 11 mil hectares de cana exclusivamente com as vespas. Mas o empresário garante que seu empreendimento tem ainda muito para avançar, "uma vez que apenas 1% de toda a área plantada do País usa predadores naturais no combate".

Carvalho afirma que a boa colocação no ranking também despertou o interesse de investidores. Ele explica que a empresa tem projeto de crescer dez vezes nos próximos cinco anos. E que a repercussão foi "muito positiva" para o negócio.