Notícia

Revista Rumos

Uma ferramenta que faz bem à saúde

Publicado em 01 fevereiro 2005

A coisa é nova até no Primeiro Mundo — mais ainda no Brasil, que apenas se inicia no aproveitamento dessa ciência auxiliar, nascida dos avanços da biologia molecular e da computação. Rumos ouviu, a respeito, o diretor da ScylIa Bioinformática, João Meidanis.

Resumos — O que é e para que serve a Bioinformática?
Meidanis — No meu entender, trata-se da aplicação de computação a problemas da Biologia molecular, decorrentes das modernas técnicas de mapeamento genômico, seqüenciamento do DNA e modelagem de proteínas. Além do grande volume de informações, o fato de exigir algoritmos e estruturas de armazenamento novos se tornou um desafio adicional.
A Bioinformática teve início a partir dos trabalhos de alguns cientistas da biologia molecular nas décadas de 70 e 80, que necessitavam de ferramentas computacionais específicas e começa ram a programá-las eles mesmos. Pode mos citar como trabalhos pioneiros os primeiros bancos de seqüências de pro teínas e seus programas de buscas, e os programas "montadores de DNA", que juntavam pequenos trechos das seqüências para construí-las inteiras.
Antes disso, havia os pesquisadores que estudavam evolução e tinham softwares para construir árvores filogenéticas. Embora não lidassem com dados moleculares, muitos dos seus métodos continuam válidos ou foram adaptados para dados moleculares. Creio que eles também podem ser considerados precursores da bioinformática.

É, portanto, uma ciência muito nova...
Sim, e, em função dessa novidade, existem poucas teorias gerais e muita experimentação, com várias técnicas indo do estado-da-arte para a obsolescência bem rapidamente. Com o tempo, os problemas fundamentais ficarão mais claros, suas soluções também; e começarão a ser desenvolvidas teorias mais gerais. Creio que se constituirá um novo ramo do conhecimento, com cursos específicos, exigindo do profissional uma boa proficiência, tanto em biologia quanto em computação.

Que avanço ela já representa, no terreno da saúde?
A bioinformática pertence ao ramo das ciências auxiliares, como a matemática, a computação e a estatística. Ela tem impacto quando combinada com os avanços da biologia, e é parte essencial das revoluções de que ouvimos falar no dia-a-dia: cura via célula tronco; exames de identificação via DNA; medicina personalizada; melhora mento de variedades agropecuárias com maior rapidez; e organismos transgênicos. Na saúde, em particular, podemos vislumbrar a utilização da bioinformática no entendimento dos mecanismos moleculares por trás da ação de células tronco e na ajuda à descoberta das componentes genéticas de muitas doenças. Na medicina personalizada, haverá remédios feitos sob medida para cada indivíduo, muito mais apropriados que os que existem hoje, feitos para a maioria da população. Já esta mos vendo isso nos coquetéis para a AIDS, que são específicos para a composição vira de cada indivíduo.
Está bem desenvolvida nos EUA, na Europa, sobretudo a do Norte, Japão, Canadá, Israel e Austrália. Outros países que estão se desenvolvendo rapidamente, nesse campo, são Índia, Cingapura,China, Malásia e Espanha, cujos governos investem bastante na área. O Brasil, assim como o Chile, a Argentina e o México, estão se desenvolvendo menos nesse campo. Embora haja muita vontade, falta mais apoio do governo. No Brasil, graças aos projetos genoma, formou-se uma quantidade boa de gente, mas é preciso mais, em especial no tocante à atualização constante desses profissionais. Também são necessários mecanismos que os mantenham na área. Co mo estes profissionais têm excelente proficiência em computação, há sempre o ris co de serem atraídos por outros setores, como o de Tecnologia da Informação.

Existem, aqui, políticas públicas, inclusive de financiamento, para a bioinformática?
Foram lançados, nos últimos anos, diversos editais específicos para bioinformática, e as agências de fomento, em geral, vêem com bons olhos projetos nessa direção. O governo tenta fazer o que pode, mas o país tem várias outras necessidades. Fica sempre aquela briga pelo dinheiro público que, apesar da alta arrecadação, não tem sido suficiente para todas as necessidades.

O dilema do governo é difícil: resolver os problemas emergenciais ou investir no futuro?
Bioinformática, certamente, representa o futuro, mas não vai, no curto prazo, resolver o problema da fome ou da segurança.

O que faz a Scylla, no domínio da bioformática?
A ScylIa tem como missão ajudar as empresas e centros de pesquisa a explorarem ao máximo os recursos biotecnológicos disponíveis, sobretudo aqueles que foram gerados no Brasil. Muitos dos projetos genoma brasileiros geraram informações não disponíveis em qualquer outro lugar, como são, por exemplo, os casos dos genomas do eucalipto e do café. Nossa visão é dar o máximo para que tudo isso seja revertido em prol da sociedade brasileira, e também de toda a humanidade.
Atuamos, primordialmente, escrevendo software, mas também com consultorias, cursos e outras atividades. Clientes diferentes têm necessidades diferentes. Por exemplo: as necessidades dos clientes acadêmicos são, em geral, bem diferentes das empresas. Nossos clientes nas universidades mexem com assuntos de ponta, pesquisas que podem ou não dar certo; a empresa prefere tecnologias mais consolidadas, para não perder investimento. Os pesquisadores acadêmicos têm menos recursos financeiros para a contratação de uma empresa como a Scylla; as empresas mio têm esse problema, se for comprovado que o investimento vale a pena. O tipo de produto também difere. Nas pesquisas acadêmicas, em geral, é mais importante a rapidez no desenvolvimento do que o acabamento do produto; para a empresa, importa mais a robustez e o acabamento do software. Nossos produtos são ferramentas de software que ajudam os pesquisadores, seja acelerando seu trabalho, seja organizando as informações. Temos três produtos já disponíveis em nosso portfólio, sendo um deles voltado para o gerenciamento de projetos de sequenciamento, e os outros dois destinados a pesquisas e diagnósticos com marcadores moleculares.

Qual a importância da bioinformática, num país com as carências do Brasil no tocante à saúde?
O Brasil é, realmente, um país de enormes carências, sobretudo no que diz respeito ao acesso a serviços de saúde de qualidade para a população de menor renda. Contudo, quando há competência e boa vontade, sempre acabam aparecendo certos nichos nos quais pode ser dado um salto de qualidade. Por exemplo, a rede Genetic Diversity Network (VODN) é um projeto financiado pela  Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que procura mapear a diversidade genética de certos grupos de vírus de grande impacto para a saúde pública, como HIV e hepatite B.
Nesse projeto, a bionformática está sendo usada para organizar as informações e permitir análises sofisticadas, que poderão levar a um melhor atendimento dos pacientes afetados. A esperança é que esses pequenos nichos cresçam e se fundam, chegando ao ponto de abarcar todo o sistema de saúde.

Quais as maiores carências do Brasil no tocante à  bionformática?
Pelas mensagens que recebo, avalio que há muito interesse, aqui, na Bionformática. Ainda são poucos os cursos e as pessoas com qualificação na área. Eu diria, portanto, que as maiores limitações são a falta de cursos especializados e de professores altamente qualificados, para que se possam também produzir profissionais de alto nível.