Notícia

Hoje em Dia

Uma esperança para a fruticultura

Publicado em 11 março 2000

É preciso visitar outros países para nos darmos conta do potencial do Brasil. As terras são, no seu conjunto, de boa qualidade. A água é abundante, apesar de mal distribuída. O problema do Nordeste é uma questão de apoio e investimento, como tem feito, em condições mais difíceis, o governo israelense. Não temos catástrofes geradas pela neve, furacões, vulcões ou terremotos. O que nos falta, na verdade, é conhecer o nosso país e desenvolver uma política de interiorização, evitando a concentração humana nas grandes cidades, uma das responsáveis pela pobreza, injustiça e violência. A agricultura, que era em anos passados a maior fonte de emprego no país, foi quase totalmente automatizada em grande escala, mas este benefício ainda não chegou ao médio e pequeno produtor. Em outros países, especialmente em Israel foram organizadas cooperativas que permitiram aos pequenos e médios empreendedores agrícolas utilizarem plantadeiras e capinadeiras coletivas. Na Europa milhares de famílias ainda sobrevivem com uma boa qualidade de vida, cultivando suas pequenas propriedades. No Brasil de alguns anos para cá, observa-se com satisfação o crescimento da fruticultura como atividade econômica principalmente a fruticultura nordestina irrigada. E quase inacreditável que em pleno Nordeste estejamos produzindo uvas de mesa de melhor qualidade do que as importadas da Europa e do Chile. Além disso, melhoramos a cultura das frutas tropicais, como a banana, o abacaxi a melancia e o melão. Somos o maior produtor mundial de laranja, tendo como lideres de produção os estados de São Paulo e Minas Gerais. Para se ter uma idéia de importância da laranja na economia brasileira, basta lembrar que somos o maior exportador de suco de laranja do mundo, com cerca de um milhão de tonelada por ano e o rendimento de 1,5 milhão de dólares. Outro dado importante é que a citricultura representa 18% do PIB de São Paulo. Dentro deste quadro gostaria de trazer ao leitor duas notícias, uma ruim e outra boa. A má notícia é que os laranjais brasileiros sofrem de duas pragas, o amarelinho e o cancro cítrico, que estão dizimando as plantações de São Paulo e do Triângulo Mineiro, como aconteceu com o cacau na Bahia, um dos setores mais fortes da economia daquele Estado. A boa notícia é que pesquisadores paulistas, financiados pela Fundação de Apoio a Pesquisa do Estado de São Paulo (fapesp) em colaboração com o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), conseguiram uma façanha extraordinária, de nível internacional: determinar o genoma da bactéria Xylella fastidiosa, causadora do amarelinho nos laranjais. Um dos fatores para o resultado positivo do projeto foi a aplicação de 15 milhões de reais realizada pela Fapesp. Agora, com a indicação do genoma, será fácil estabelecer processos de combate à praga. Para entendermos o desastre produzido pelo amarelinho nos laranjais, uma reportagem recente da Folha de S. Paulo indicou que essa praga é responsável por prejuízos da ordem de 100 milhões de dólares por ano, porque além de reduzir a produtividade torna a laranja pequena e dura, imprópria para o consumo. Até o momento a única solução utilizada era o extermínio das árvores afetadas pela praga. Ainda de acordo com a reportagem, de 1990 a 1998 foram arrancados 10 milhões de pés de laranja. Somente em 1999 quatro milhões de laranjeiras foram exterminadas. Outra praga que está trazendo transtornos e prejuízos aos laranjais do país é o cancro cítrico, também produzido por uma bactéria, a Xanthomonas citri. Felizmente, o grupo de pesquisadores paulistas vem trabalhando na determinação da seqüência dos genes dessa bactéria, o que representará mais um importantíssimo passo em defesa da economia citrícola do Brasil. Creio que devemos informar ao público estes avanços para que os investimentos em pesquisas científicas e tecnológicas sejam apoiados. Há cerca de 15 anos o Brasil produzia cerca de 0,4% dos estudos científicos internacionais, o que era ridículo. Hoje esse percentual é de 1% e continua irrisório. Precisamos mudar esses números. Espero que esse extraordinário feito da Fapesp sirva de incentivo à nossa Fapemig - que, segundo dizem, anda muito mal das pernas. Minas Gerais, o segundo Estado da Federação, tem que cumprir o que está determinado em sua Constituição e entregar à Fapemig os recursos a ela destinados. Somente assim ela poderá financiar projetos de alto interesse nacional. É urgente que Minas Gerais, com seis universidades federais, duas estaduais e outras tantas instituições universitárias e não-universitárias, tenha uma política de real aplicação dos recursos destinados pela Constituição à pesquisa, para que não sejamos ultrapassados por estados como o Paraná e a Bahia, uma vez que já o fomos pelo Rio de Janeiro. Aluísio Pimenta, membro da Academia Mineira de Letras, ex-ministro da Cultura, ex-reitor da UFMG e da UEMG, escreve aos sábados nesta coluna