Notícia

O Imparcial (Presidente Prudente, SP)

Uma era de riqueza para a pesquisa científica

Publicado em 23 setembro 2001

Por Herton Escobar
Brasília - Mais riqueza e desenvolvimento social. Essa é a promessa da nova era de pesquisa científica para o País, inaugurada na Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, em Brasília. O evento, encerrado na sexta-feira, serviu de ponte para unir dois setores que até recentemente viviam em mundos totalmente separados, mas que dependem intimamente um do outro para sobreviver e crescer: a pesquisa acadêmica e o empresariado. Frente a frente pela primeira vez em um debate de nível nacional, ambos concordaram que a cooperação é o melhor negócio. É essa aliança que guiará a política nacional de ciência e tecnologia pelos próximos dez anos. A ênfase passa da produção de conhecimento nas universidades para a aplicação desse conhecimento na indústria, em forma de produtos e novas tecnologias. De acordo com anteprojeto de lei apresentado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, a chamada Lei da Inovação, pesquisadores das universidades e instituições federais de pesquisa banharão mais liberdade para trabalhar em parceria com o setor privado e vice-versa. Os cientistas poderão pedir licenciamento para constituir empresas de base tecnológica (EBTs), sem que a vaga da universidade seja perdida, o que abre espaço para novos talentos seguirem o mesmo caminho. As empresas privadas também poderão firmar contratos para utilizar os laboratórios das universidades e centros de pesquisa, estabelecendo um intercâmbio de conhecimento técnico entre os dois setores. Toda a massa de produção científica que hoje dorme nas gavetas das universidades terá finalmente um forno para adquirir forma e crescer. "Não basta o País ter ciência e tecnologia se não puder transformar isso em riqueza", diz o físico Cylon Gonçalves da Silva, coordenador da conferência. "Já temos o conhecimento, só precisamos usá-lo", concorda o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Eduardo Krieger. A idéia é simples: o pesquisador trabalha na universidade para produzir conhecimento e as empresas usam esse conhecimento para criar produtos comercializáveis. Os lucros são divididos e o País ganha uma nova máquina de desenvolvimento. EMPRESAS - Combustível para mover essa máquina não falta. Só este ano o Brasil está formando 6 mil doutores, um contingente que as universidades sozinhas não têm condições de absorver. Caberá às empresas, portanto, aproveitar todo esse conhecimento. "Vamos sofrer um choque de oferta e vamos ter de nos adaptar a isso", disse o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva. "O empresariado obviamente tem interesse em atrair esses cientistas. Há uma consciência crescente sobre a importância da inovação dentro das empresas. Todo mundo sabe que conhecimento é poder." INCENTIVO-As empresas brasileiras gastam atualmente apenas 0,3% em pesquisa e desenvolvimento (P&D) em relação ao PIB. Nos Estados Unidos, por exemplo, o investimento é de 2,2%, e na Coréia do Sul, 1,8%. A meta nacional, segundo o ministro Ronaldo Sardenberg, é elevar os investimentos em P&D empresarial para 2,5% do PIB nos próximos dez anos. O incentivo virá de novos subsídios para pesquisas no setor privado, algo que hoje é praticamente inexistente. A Lei da Inovação permitiria ao ministério usar capital de risco para fazer "encomendas tecnológicas" a empresas para projetos específicos, sem necessidade de licitação. "Esse é provavelmente o elemento mais revolucionário dessas propostas", avalia o presidente da Fundação, de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz. "As empresas têm de ter subsídios, porque a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico são atividades muito arriscadas." É importante, no entanto, que as empresas ofereçam uma contrapartida ao investimento do governo. "A lei precisará ser aplicada com muito cuidado para que os recursos federais não substituam o investimento feito pela própria empresa." O modelo segue o padrão dos EUA, onde o governo aplica no setor privado US$ 25 bilhões dos US$ 65 bilhões anuais destinados a pesquisa e desenvolvimento. Em contrapartida, as empresas investem US$ 180 bilhões em P&D, compara Brito Cruz.