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Uma época contada por meio de retratos de negros

Publicado em 13 agosto 2021

Por Erico Elias

Dispersas por álbuns de família, por acervos particulares de colecionadores e por arquivos públicos de documentação, os retratos de negros realizados durante o século 19 no Brasil resistem como testemunhas de uma história marcada pela escravidão e submissão. Em sua pesquisa de doutorado, defendida em 2006 no Instituto de Artes da Universidade de Campinas (Unicamp), Sandra Sofia Machado Koutsoukos trouxe uma significativa contribuição à leitura dessas imagens. Ela mergulhou fundo em diversos acervos para levantar e ordenar retratos de negros feitos em estúdio na segunda metade do século 19.

Após o trabalho de garimpagem, a pesquisadora partiu para a tarefa mais intrincada: a interpretação daquelas fotos, que atravessam o tempo como testemunhas mudas. Aos interessados em desvendar o que as imagens podem nos “dizer”, é necessário não se contentar com o que está impresso na superfície fotossensível.

Nessa busca, Sandra Koutsoukos conseguiu levantar importantes ligações entre os retratos de negros e a situação social reinante no Brasil oitocentista. A pesquisa, orientada por Iara Lis Schiavinatto, teve tantos méritos que acabou entre as escolhidas para serem publicadas no formato de livro. Negros no Estúdio do Fotógrafo foi lançado em 2010 pela Editora da Unicamp, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), que financiou a pesquisa. Conheça um pouco dessa história.

O que despertou Sandra Koutsoukos para o tema de pesquisa que escolheu foi a descoberta de fotos de amas negras com os filhos de senhoras brancas. Inseridas nos álbuns de famílias aristocráticas, estas fotos destoavam justamente por introduzirem no cenário um indivíduo de pele escura. “A minha ideia era estudar as figuras infantis, brancas e negras, retratadas nas fotos antigas, quando percebi, em alguns daqueles retratos, as amas de leite e as amas-secas negras que seguravam as crianças. A indumentária daquelas amas, muitas vezes de um luxo europeizado, não condizia com a sua situação social”, conta Sandra, na apresentação do livro.

Para delimitar o tema de estudo, a pesquisadora escolheu analisar apenas os retratos feitos em estúdio. O levantamento do material se deu em diversos arquivos, dentre eles a Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro, o Museu Paulista, em São Paulo, e a Fundação Joaquim Nabuco, no Recife.

No decorrer do trabalho de pesquisa nos arquivos, bibliotecas e coleções, a maior surpresa foi quando ela encontrou dois álbuns da “Galeria dos Condenados”, com fotos de presos que estavam na Casa de Correção da Corte na década de 1870, constantes na Coleção Dona Theresa Christina, da Biblioteca Nacional, no Rio. “Fiquei surpresa pela riqueza, qualidade e quantidade de fotos”, relata a autora. Sandra ainda passou um semestre nos Estados Unidos, pesquisando nas bibliotecas da Universidade de Michigan. O intercâmbio permitiu que ela entrasse em contato com farta documentação sobre manuais de fotografia da época estudada.

Retrato de um negro livre, feito para legitimar sua posição social. Foto: Militão Augusto de Azevedo Escravos fotografados exoticamente, com roupas da moda da época, mas com os pés descalços. Foto: Cristiano Junior “Afeto” criado entre filho branco e sua ama de leite negra. Foto: João Ferreira Villela Ficha cadastral de Victorino, identificado como crioulo e condenado a prisão perpétua pela Casa de Correção da Corte, em foto de 1871

Inspirada nos trabalhos das pesquisadoras norte-americanas Jasmine Alinder, Deborah Willis e Carla Willians, a brasileira abriu uma nova perspectiva para o estudo dos retratos de negros no contexto nacional. “Pesquisadores nacionais importantes como Boris Kossoy, Ana Maria Mauad, Pedro Karp Vasquez e George Ermakoff, para citar alguns, publicaram trabalhos nos quais trataram as imagens fotográficas de pessoas negras no Brasil. Como eles, eu tinha a proposta de olhar as diferentes categorias de fotos como documentos históricos. Em dado momento, me veio a ideia de olhá-las também como retratos pessoais, e encontrar indícios da contribuição dos sujeitos, junto aos fotógrafos, na construção do seu retrato”, argumenta.

Embora grande parte dos retratos de negros tenham sido encomendados por outras pessoas, sobretudo no caso dos escravos, Sandra defende que os retratados também tiveram sua parcela de contribuição e conseguiram imprimir parte da personalidade e da história deles nas fotos. Seguindo esse princípio, a autora desfia inúmeras histórias particulares, relacionando-as ao contexto histórico do País.