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Terra da Gente

Uma das maiores coleções sonoras do mundo está na internet

Publicado em 30 maio 2012

Presente para os amantes da fauna. O patrimônio de vocalizações de animais deixado pelo ornitólogo e professor da Unicamp, Jacques Vielliard, morto em 2010, pode ser acessado gratuitamente pela internet. São sons emitidos pelos animais para se comunicarem, como os cantos das aves e baleias, os uivos dos caninos, o bramir dos elefantes e crocodilos, e os ruídos dos insetos. São cerca de 40 mil vocalizações, das quais mais de 11 mil já digitalizadas.

O acervo virtual pertence à Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard (FNJV), do Instituto de Biologia (IB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A Fonoteca está entre as cinco maiores coleções sonoras do mundo e é constantemente incrementada com novas gravações pelos colaboradores do ornitólogo e demais estudiosos. Há gravações de todos os grupos de vertebrados, como peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos, além de alguns invertebrados, como insetos e aracnídeos.

O acervo virtual foi viabilizado com o emprego de pesquisas de ponta na área da computação e da biologia. O projeto tem a proposta de produzir efeito facilitador e multiplicador na pesquisa científica em bioacústica por meio do uso de ferramentas computacionais e conceitos relacionados à preservação, ao compartilhamento e enriquecimento de dados.

Quem coordena o programa é a docente Claudia Bauzer Medeiros, do Instituto de Computação (IC), e o pesquisador Luíz Felipe Toledo, colaborador do Museu de Zoologia do IB e um dos curadores da Fonoteca. O projeto é financiado por três agências de pesquisa: Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Segundo Medeiros, o sistema on-line permite o acesso às vocalizações e aos dados ou elementos sobre elas, como nomes de espécies, locais, datas e horas de gravações. O enriquecimento de dados permite que novas informações sejam geradas ao integrar os elementos dos sons a outras bases. Dessa forma, será possível atrelar os sons emitidos pelos animais a diversas variáveis do meio ambiente.

A partir dos dados já armazenados, os usuários poderão coletar informações adicionais nos portais da Nasa, a agência espacial norte-americana, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Os dados disponíveis podem ser relacionados com a temperatura da época em que foi gravado determinado som com a velocidade do vento daquele momento e com uma série de elementos climatológicos associados àquela época.

As informações serão primordiais para as futuras pesquisas na área da bioacústica e biodiversidade. Isso porque as espécies são influenciadas pelos fatores climáticos, complementa Toledo. “Há bichos que só cantam se estiver chovendo. Muitos param de cantar enquanto está ventando muito. Até terremoto estimula a vocalização de animais. Mas só sabemos isso depois da observação. Se não temos esses dados fica difícil inferir qualquer análise. Como as novas ferramentas, conseguiremos desenvolver pesquisa e saber mais sobre a história de vida das espécies.” Ele ainda explicou que, eventualmente, não será necessário ir a campo para coletar dados.

Estudos sobre a comunicação sonora dos animais são imprescindíveis para a preservação da biodiversidade. Conforme a ciência desvenda aspectos do comportamento dos animais, criam-se cada vez mais condições para propor ações no sentido de preservá-los.

Sobre o sistema on-line, Toledo explica que há muitos estudos de fronteira envolvidos em seu desenvolvimento. “A Unicamp está sendo pioneira com esta iniciativa, pelas características inovadoras do sistema, talvez o primeiro no mundo a se preocupar com alguns tipos de enriquecimento de dados.” Segundo ele, a disponibilização digital já era prevista pelo professor Vielliard e é de extrema importância. “Nós não só estamos disponibilizando o acervo digital, mas criando e oferecendo métodos relacionados ao que chamamos de e-Science.”

O termo refere-se à utilização de pesquisas em computação para a obtenção de resultados científicos aplicados a outras áreas do conhecimento. Na e-Science, pesquisadores da computação realizam investigações para ajudar cientistas de outras áreas a desenvolverem suas pesquisas de forma melhor, mais rápida ou mais eficiente. Além disso, um dos aspectos-chave é o compartilhamento.
Foram dois anos de pesquisas conduzidas pelo doutorando do IC, Daniel Cintra Cugler, que geraram dois artigos científicos. Até o final do ano, novas ferramentas para permitir o enriquecimento e a integração dos dados devem estar disponíveis. O objetivo, agora é aprimorar as funções oferecidas pelo sistema.

Por enquanto, o sistema permite o acesso às informações sobre o acervo a qualquer pessoa. Pesquisadores e demais interessados podem também solicitar aos curadores, via formulário eletrônico, os sons digitalizados. Para o público leigo, há amostras de gravações disponíveis, como a do sabiá-laranjeira, um dos pássaros mais conhecidos do Brasil, identificado por seu canto melodioso durante o período reprodutivo.

As vocalizações já digitalizadas e disponíveis podem ser acessadas em http://proj.lis.ic.unicamp.br/fnjv/.

Quem foi Jacques Vielliard

O professor Jacques Marie Edme Vielliard foi convidado a trabalhar na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) por Zeferino Vaz, na década de 70. Francês de nascimento, deixou seu país para trabalhar no Brasil num momento em que o debate em torno do meio ambiente começava a ser expressivo na Europa. O ornitólogo era graduado em Ciências pela Universidade de Paris (1967), com mestrado e doutorado em Ecologia, na École Normale Supérieure (1968 e 1971).

Na Unicamp, Vielliard criou o Laboratório de Bioacústica e passou a formar um acervo sonoro de espécies, com destaque para a as aves, com aproximadamente 30 mil fitas magnéticas. Os registros de Vielliard eram geralmente feitos em campo, com pesados gravadores e microfones ultrassensíveis.

Jacques Vielliard morreu no dia 9 de agosto de 2010, em Belém (PA), onde desenvolvia na Universidade Federal do Pará, em parceria com a Unicamp, um projeto para digitalizar o seu acervo.

Com informações da Unicamp