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Jornal da USP online

Uma ciência que nasceu nos anos da rebeldia

Publicado em 22 agosto 2013

Por Leila Kiyomura

Os desafios que a comunicação enfrenta como ciência no campo das humanidades começam a ser discutidos por professores e pesquisadores de universidades federais, estaduais e particulares de todo o Estado. O ciclo de conferências “50 anos das Ciências da Comunicação no Brasil: a Contribuição de São Paulo” foi aberto no dia 9 passado e se estende em uma série de oito encontros semanais, sempre às sextas-feiras, até o dia 4 de outubro.

O evento está sendo organizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação. Nesse período, entram em debate as primeiras e principais teorias e estudos e também a diversidade de pensamentos e pesquisas nessa área do conhecimento.

Pesquisas que nasceram em um momento conturbado da história cultural, política e social do País e do mundo.  Época em que a TV Tupi faz, em maio de 1963, a primeira transmissão em cores do Brasil. Seis meses depois, os brasileiros assistem ao assassinato do presidente John F. Kennedy. E, em março do ano seguinte, acontece o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart.

Foi em plena ditadura que duas instituições iniciam os estudos de comunicação no País. A USP cria, em junho de 1966, a Escola de Comunicações Culturais (ECC), a atual Escola de Comunicações e Artes (ECA). E a Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, na época vinculada à PUC paulistana, funda, em 1967, o Centro de Pesquisa em Comunicações Sociais.

José Marques de Melo, um dos fundadores da ECA e professor da Universidade Metodista, abriu o ciclo de conferências destacando o papel decisivo dessas duas escolas. “Elas influenciaram os rumos que os estudos de comunicação assumiriam em todo o País”, observou. “Quando for resgatada a memória do campo comunicacional brasileiro, esse fluxo cognitivo inevitavelmente vai emergir. Revelador desse processo é o simbolismo evidenciado pelas duas instituições, reconhecendo o pioneirismo de Luiz Beltrão no campo acadêmico brasileiro.”

O início em Recife – Marques de Melo lembra os primeiros passos das ciências da comunicação. “O foco dessa efeméride converge naturalmente para a cidade de Recife. O jornalista Luiz Beltrão desenvolveu naquela metrópole regional estudos e pesquisas que delinearam um novo ramo do saber no âmbito das ciências sociais aplicadas. O ambiente era propício e a conjuntura, favorável”, destacou. “Captando os ventos da mudança, o professor Luiz Beltrão antecipa-se aos centros universitários do Sudeste e do Sul. Não apenas funda um centro de pesquisas científicas em comunicação, o Icinform – Instituto de Ciências da Informação –, no dia 13 de dezembro de 1963. Mais do que isso: instaura um clima de emulação entre os jovens. Conecta ensino, pesquisa e extensão. Integra lúdico e utilitário. Aproxima teórico e empírico. Com o golpe de 1964, a equipe beltraniana se desfaz. Acuados pela mudança de cenário, alguns participantes migram para outros pólos nacionais.”

Beltrão foi o primeiro doutor em Comunicação do Brasil, na Universidade de Brasília, em 1967, sendo o precursor no Brasil das pesquisas em comunicação de massa, ganhando prestígio nacional e internacional. Em 1965, lança a revista científica Comunicação & Problemas e teve como referência o periódico Journalism Quartely, editado nos Estados Unidos e o primeiro da área no mundo. “Essas ações marcaram a presença de Beltrão no desenvolvimento dos estudos de comunicação no Brasil, que têm uma tradição enraizada na literatura das ciências humanas desde meados do século 19”, explicou Melo. “Porém só emergiu como campo de conhecimento no País no século 20.”

Apoio da Fapesp –
Um dos primeiros pesquisadores da ECA a buscar o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo foi o professor Marques de Melo. “Eu me sinto como uma peça do museu da Fapesp. Sou o primeiro freguês”, contou. “Foi no início da década de 1970, quando estava sendo processado pelo regime militar. Apresentei um projeto de pesquisa, mas na época não havia especialistas na área de comunicação. Oscar Sala, professor do Instituto de Física da USP e diretor científico da Fapesp, foi quem me entrevistou. Passei um ano nos Estados Unidos com bolsa de pós-doutorado e foi uma oportunidade para observar o sistema de pós-graduação em Jornalismo nos Estados Unidos.”

Desde o primeiro pesquisador da fila, a Fapesp, segundo o presidente Celso Lafer, vem acompanhando de perto as ciências da comunicação. “A nossa instituição também enfrenta em seu dia a dia o desafio da comunicação. A missão da Fapesp é não só apoiar a pesquisa como divulgar para o público em geral os resultados dos projetos que apoia. Acho importante destacar que apoiamos pesquisas de qualidade em todas as áreas do conhecimento.”

Lafer explica que a Fapesp apoiou cerca de 740 projetos na área de comunicação nos últimos anos. “São pesquisas em jornalismo, publicidade, propaganda, rádio e televisão, relações públicas, cinema e artes em geral. São pesquisas tanto em nível de graduação como de pós.”

Os projetos que pedem apoio aumentaram. Porém, a maior parte deles é de trabalhos pequenos, comparados aos apresentados em outras áreas. A avaliação é do professor Norval Baitello Júnior, membro da Coordenação da Área de Ciências Humanas e Sociais (subáreas Comunicação, Ciências da Informação e Museologia) e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

Baitello estimula os pesquisadores lembrando a disposição de instituições como a Fapesp. “Graças a esse apoio, há boas possibilidades de desenvolver as ciências de comunicação, que foram heroicamente fundadas por pessoas que enfrentaram monstros de carne e osso”, afirmou. “Há mais de mil projetos que entram por outras áreas do conhecimento, mas que, de fato, são de comunicação. Creio que uma das nossas falhas como área do conhecimento é que ainda somos muito tímidos. Apresentamos poucos projetos considerados complexos e que recebem maior volume de recursos. A maior parte deles é de iniciação científica, mestrado e doutorado. Só nos últimos anos é que começaram a surgir alguns projetos mais ambiciosos e de longo alcance. O número, porém, ainda está abaixo da expectativa da Fundação.”

O professor observa que, no segundo edital da Fapesp para selecionar novos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids), em 2011, foram apresentadas só duas propostas em ciências da comunicação entre as 100 propostas submetidas, mas não foram aprovadas. “São poucos os pesquisadores que apresentam projetos mais ambiciosos como o de um Cepid que financia centros de pesquisa por um período de 11 anos com volume de recursos maior do que o disponibilizado por outras agências de fomento no mundo.”

Avanços positivos – A área das ciências da comunicação, embora precise ousar em seus projetos, vem avançando nos últimos anos. Um dos pontos positivos é, segundo Baitello, o aumento da diversidade de temas estudados. “Antes os estudos eram mais concentrados em jornalismo, televisão e rádio. Agora, há um maior número de projetos sobre os novos meios de comunicação, como a rádio por internet, e sobre temas como websites, games e desenhos animados como os produzidos no Japão”, observou. “Com essa diversidade, temos que buscar pareceristas fora do Estado de São Paulo e até no exterior.”

O aumento na diversidade geográfica da produção científica na área é outra mudança positiva na área. “Antes, as pesquisas estava concentradas na cidade de São Paulo. Hoje, a produção está distribuída por cidades do interior do Estado e por outras instituições de pesquisa.” Baitello observa que, além da crescente produção das três universidades estaduais paulistas – USP, Unicamp e Unesp –, há a participação “com grande capacidade e excelência”  das universidades municipais e particulares.

A Fapesp, segundo o professor Baitello, pretende contribuir com o avanço da cooperação científica internacional na área das ciências da comunicação, propiciando bolsas para estágio no exterior. “A internacionalização da pesquisa em São Paulo cresceu muito e a área, antes voltada no máximo para a América Latina, tem se expandido. Jovens de 18, 19 anos estão indo para pesquisar em universidades da França e dos Estados Unidos.”

Baitello aproveitou a abertura do evento para uma boa nova. “A Fapesp está apoiando a transferência do arquivo do filósofo e jornalista Vilém Flusser ao Brasil”, anuncia. “Cerca de 80% dos seus textos ainda não foram publicados e 70% das mais de 50 mil páginas estão em português. A meta é trazer esse acervo ao Brasil”. Flusser nasceu em Praga, 1920, capital da República Tcheca. Durante a Segunda Guerra Mundial, fugiu do nazismo e veio para o Brasil, onde viveu por 20 anos, atuando como professor de Filosofia na USP, sendo apontado como um dos principais estudiosos de comunicação no mundo.

Conferências – Na abertura do ciclo de conferências, no dia 9, os pioneiros das ciências da comunicação foram lembrados pelos professores que atuam na área. Na primeira parte da programação, Marialva Barbosa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destacou a importância da obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. O professor Carlos Eduardo Lins da Silva, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), homenageou Antonio Candido, comentando a importância de Literatura e Sociedade. A professora Maria Cristina Gobbi, da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp), contou a história de Florestan Fernandes e sua obra O Folclore de Uma Cidade em Mudança. Luiz Milanesi, da ECA, resgatou a importância de Egon Schaden e o seu pensamento em Homem, Cultura e Sociedade no Brasil.

Na segunda sessão do programa, Cristina Schimidt, da Universidade de Mogi das Cruzes, destacou a obra O Campesinato Brasileiro, de Maria Isaura Pereira de Queiroz. A importância de Hiroshi Saito no Departamento de Jornalismo da ECA foi reverenciada por José Luiz Proença, também professor da ECA. Proença, que atuou recentemente como professor em Kyoto, no Japão, destacou a obra Assimilação e Integração dos Japoneses no Brasil, falando sobre a presença de Saito no jornalismo rural brasileiro. Antonio Costela, diretor do Museu de Xilogravura de Campos de Jordão, destacou O Livro, o Jornal e a Tipografia no Brasil, escrito por Carlos Rizzini. O professor Adolpho Queiroz, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, apresentou os estudos de José Roberto W. Penteado no livro A Propaganda Antiga. Os estudos de Alfredo Bosi no livro Cultura Brasileira foram apresentados por Osvando J. de Morais, integrante da  Intercom.