Notícia

Gazeta Mercantil

Uma busca mundial por cérebros

Publicado em 10 agosto 1997

Como caçador de talentos, George Van Derven tem uma ligação improvável: a ex-empresa aérea estatal da Rússia, Aeroflot. Não que Van Derven negocie pilotos, mecânicos de aviões ou comissárias de vôo. Mas, em sua antiga carreira, ele vendeu um sistema computadorizado de reservas à Aeroflot e passou a conhecer os talentosos programadores escondidos nos escritórios internos. Quando a Aeroflot se fragmentou em várias empresas regionais em 1992, Van Derven prontamente se voltou para sua antiga reserva de cérebros. Agora, como presidente da Alternative Technology Resources em Sacramento, Califórnia, ele está explorando um rico veio de talentos de programação e os despachando para departamentos de computação com mão-de-obra insuficiente por todo o mundo ocidental. Outros recrutadores deveriam ter a mesma sorte. Os caçadores de talentos de alta tecnologia para a Andersen Consulting percorrem as escolas técnicas em Budapeste e feiras de emprego em Manila. Em uma recente sessão de treinamento para programadores na Holanda, a Microsoft Corp, contratou um guarda-costas para manter os recrutadores à distância. E um recrutador da Global Service Divisão da IBM, que está tentando contratar 15 mil programadores apenas neste ano, se apresentou como James E. Bunch ("punhado"), como em "um punhado de empregos". Hiato A Revolução dá Informação está avançando à frente de sua matéria-prima vital: capacidade cerebral. À medida que explode a demanda de aplicações computadorizadas para tudo, desde comércio eletrônico na Internet até a resolução do problema do ano 2000, as empresas estão se vendo carentes de programadores. Só nos Estados Unidos, que respondem por dois terços do mercado mundial de US$ 300 bilhões em produtos e serviços de software, cerca de 190 mil empregos de alta tecnologia estão disponíveis, a maioria deles para programadores, segundo a Associação da Tecnologia da Informação. Mas os recrutadores estão tendo ataques de nervos para preencher empregos em quase toda a parte. "Em termos mundiais, existem mais de 400 posições em aberto", declara Sushma Rajagopalan, recrutador-chefe da Mastech Systems Corp., empresa de terceirização baseada em Pittsburg. Isso está levando as empresas a uma busca frenética de cérebros. Estão atraindo talentos ao redor do mundo e tirando funcionários uma das outras. "Eu tinha esse programador da China", lamenta um dirigente da Electronic Data Systems Corp.. "Ajudei-o a passar por todo o processo de imigração para obter seus documentos. Depois ele recebeu uma proposta melhor." Ainda mais agourento, a escassez de talentos em software está elevando os salários - em uma média de 13% nos Estados Unidos, com aumentos semelhantes em outras partes. Os peritos receiam que os salários inflados poderão vir a prejudicar a máquina mundial de tecnologia à medida que as margens de lucro ficam espremidas e os investimentos adiados. "É um verdadeiro fator limitador ao crescimento", avalia Avron Barr, um pesquisador do Stanford Computer Industry Project que está investigando a escassez de programadores. E não há nem sinal de melhoria da situação. Excluindo algum avanço dramático e redutor de mão-de-obra em software, o hiato entre estudantes de ciência de computação e a esperada demanda provavelmente não diminuirá por uma década. O problema é que um número excessivo de jovens inteligentes, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, considera a programação trabalho de "gente esquisita" e escolhem outras carreiras. Nos Estados Unidos, o número de graduados em ciência de computação despencou na última década, de 48 mil em 1984 para estimados 26 mil neste ano. Na procura de talentos, qualquer talento, as empresas estão oferecendo treinamento em programação a professores de matemática de curso secundário e a físicos nucleares que perderam o emprego. E estão vasculhando asilos de aposentados em busca de antigos profissionais da área de computadores centrais. Margie Mader, diretora de recursos humanos da Netscape Communications Corp., afirma: "Todos estão ficando malucos tentando encontrar essa gente". De fato, para as empresas de alta tecnologia, a carência de programadores é a maior ameaça à expansão no próximo ano - bem mais ameaçador do que uma depressão econômica ou a competição no mercado. E não é um problema apenas para empresas de tecnologia. Muitas das outras empresas estão precisando desesperadamente dos mesmos talentos. Fabricantes de automóveis, de Tóquio a Detroit, estão colocando mais capacidade de computação em seus carros e fábricas. Bancos, corretoras e empresas telefônicas estão se apressando a tentar superar-se mutuamente com os serviços on-line mais modernos, que exigem hordas de programadores. Os que preferem não instalar a nova tecnologia, afirma Michael D. Radcliff, chefe de informações da Owens Corning, estão "criando um passivo competitivo". Fontes Como a escassez ficou tão grave? Durante anos, as empresas de tecnologia tiveram pouco motivo para se preocupar, No começo dos anos 90, o setor contratou centenas de milhares de trabalhadores de tecnologia que ficaram disponíveis no mercado quando grandes corporações reduziram a gerência do escalão médio - uma fonte que está se esgotando agora. Ao mesmo tempo, o processo de elaborar softwares não acelerou, apesar da revolução do computador e da enorme quantidade de informações que circula pelo mundo. Hoje até os melhores programadores às vezes produzem apenas dez linhas de códigos por dia. Sofisticarmos programas de hoje - mesmo um telefone celular requer cerca de 300 mil linhas de códigos - exige exércitos de programadores que escrevem laboriosamente. Considere o seguinte: existem cerca de seis milhões de programadores de software no mundo hoje em dia, dois milhões deles nos Estados unidos e um milhão no Japão". Como modelo industrial, parece com os mosteiros pré-Gutenberg com suas legiões de monges escribas. Durante anos, os sábios digitais desprezaram a escassez de programadores, citando o exemplo da Índia, que exibia uma reserva aparentemente infindável de talentos técnicos. A Índia, acreditavam, seria para o software o que a Arábia Saudita era para o petróleo. É verdade, com 50 mil programadores saindo de escolas técnicas e universidades todos os anos - o dobro do total dos Estados Unidos -, a Índia é uma reserva valiosa. Mas, com os gastos mundiais em tecnologia aumentando para US$ 3 trilhões nesta década - quatro vezes mais do que nos anos 80 - o suprimento da Índia é insuficiente. De fato, Dewang Mehta, diretor executivo da Nasscom, a associação do setor de software da Índia, prevê que o país sentirá sua própria escassez de programadores dentro de cinco anos. Enquanto isso, nenhuma outra fonte abundante de peritos em software aparece no horizonte. A Rússia promete, mas é limitada: pouco dos seus programadores falam inglês ou entendem aplicações comerciais. A China é uma possibilidade, mas provavelmente empregará a maioria de seus programadores durante a próxima década para seus próprios projetos de desenvolvimento de grande porte. E os paraísos de alta tecnologia como Israel, Irlanda e Sri Lanka, estão lutando com carências próprias. A Irlanda, por exemplo, receia que poderá perder investimentos da Hewlett-Packard, IBM e L.M. Ericsson, a menos que o país consiga alguns programadores às pressas. O governo criou um fundo de emergência de US$ 7,6 milhões para treinamento de programadores. Nesse mercado frenético, existe uma clara ordem hierárquica. No topo estão programadores para prósperas empresas de tecnologia para a Internet, que estão nadando em opções de ações. Um pequeno passo abaixo estão os consultores de primeira categoria, que ganham de US$ 85 mil a US$ 400 mil e viajam pelo mundo para instalar os mais recentes sistemas de rede. Essas estrelas estão ligadas, por satélite ou Internet, a legiões de programadores de remuneração mais baixa que escrevem códigos em fábricas de software. O salário inicial para programadores em Bangalore, na Índia, é de US$ 7 mil por ano - embora esteja aumentando em grande velocidade. Promoção Naturalmente, a Índia perde muitos dos seus programadores mais brilhantes. Mesmo com a indústria local em crescimento, bem mais da metade dos formados em ciência de computação do prestigioso Instituto Indiana de Tecnologia vai para o exterior. E a Índia não é a única vítima da fuga de cérebros. Departamentos da informação de empresas no mundo sabem agora que se não instalarem um sistema popular, atualizando seu pessoal em algo novo, por exemplo, da Oracle Corp. ou da gigante alemã de software SAP, perdem logo seus funcionários para outras empresas. Don Yates pôs suas mãos no SAP, um bem-sucedido pacote de software para empresas, enquanto ajudava a instalar o sistema no começo dos anos 90 na Royal LePage Ltd., uma imobiliária em Toronto. Em um ano, o departamento de 18 funcionários foi esvaziado. "Fui o último a ir embora", afirma Yates, que agora ganha três vezes mais, cerca de US$ 150 mil por ano, como programador itinerante da EMI, empresa sediada em Pittsburg que aluga a terceiros mão-de-obra talentosa em software. Enquanto isso, as empresas estão usando a própria tecnologia que estão criando, incluindo a World Wide Web, para alcançar contratados em potencial ao redor do mundo. Michael L. McNeal, chefe de recursos humanos na Cisco Systems Inc., sabe que a maioria dos técnicos que ele procura, desde seus vizinhos no Vale do Silício até paraísos em Dussedorf e Cidade do Cabo, estão navegando na Internet. A tática é identificar as páginas da Web que eles preferem e depois comprar um "banner" (espaço) de anúncio que canalizará o público até a página da Cisco. Ele mandou funcionários identificarem "sites" populares: as páginas de linhas áreas e de viagem são mania na Ásia e na Europa, enquanto Dilbert é popular nos Estados Unidos. A Internet traz para a Cisco 500 mil visitantes por mês. Os "navegantes" podem consultar cerca de 500 vagas de emprego correntes. Os candidatos do mundo todo podem apertar botões para traduzir a página em cantonês, mandarim e russo. E, abrindo um breve questionário, podem criar um currículo e enviá-lo à Cisco. Isto fornece à Cisco um monte de dados sobre o mercado de trabalho - não apenas qual país ou região vem às consultas, mas freqüentemente de qual empresa. "O recrutamento parece com a tentativa de vender um produto", comenta McNeal. "Quanto mais alveja, mais vende." Com os dados nas mãos, McNeal pede ajuda aos funcionários da Cisco. Os alemães, por exemplo, telefonam a conterrâneos alemães para convencê-los a trabalhar na Cisco. A promoção mundial parece funcionar. A Cisco mantém um grupo de advogados de imigração, que processam cerca de 400 vistos de trabalho por ano, cerca de 10% das contratações americanas da empresa. Como as outras, a Microsoft recruta pela Internet e compra empresas novas para absorver talentos - cerca de vinte empresas apenas em 1996. Mas a necessidade mais urgente da gigante de software é de técnicos para instalar os produtos Microsoft para suas grandes clientes. De fato, uma vez que criadoras de software como a Microsoft concluem um produto, elas podem produzi-lo aos milhões. Mas, para instalar o software e fazê-lo funcionar pelo mundo, dependem de empresas de serviço, que estão com falta de pessoal. Em uma conferência de 6 mil empresas de serviços, afirma Sam Hadallah, um vice-presidente da Microsoft, "pedimos a todos com uma oferta de emprego que levantassem. Não ficou ninguém sentado". A Microsoft calcula que suas parceiras de serviço estão com falta de 41 mil profissionais treinados para instalar produtos Microsoft. Isto está forçando a empresa a entrar no ramo de instrução. Com um esforço conhecido como Skills 2000, a Microsoft está entrando em 350 escolas e universidades no mundo, onde está ministrando cursos que produzirão mais programadores. Nos últimos seis meses, a Microsoft treinou 30 mil pessoas. Uma grande parcela do esforço está na Europa, um importante mercado que tem 18 milhões de trabalhadores de>empregados. O plano da Microsoft é convidar europeus desempregados em onze países a se inscreverem em programas de treinamento gratuitos. No último ano, 3 mil europeus passaram pelo programa, com 98$ deles conseguindo emprego. Serviços É nesse mercado de US$ 170 bilhões de serviços mundiais de software, incluindo as seis grandes firmas de consultoria, a IBM Global Services, Manpower e muitas outras, que a demanda de programadores é especialmente intensa. O motivo é que as empresas precisam de muita ajuda para ligar suas operações dispersas em grandes distâncias com as mais recentes inovações em redes de e-mail, controle de estoques e sistemas financeiros. Computadores ligados com fornecedores e clientes são vitais para entrega just-in-time e controle de qualidade. "O setor de produção da economia está ficando absolutamente dependente em sistemas de software", garante o autor de reengenharia Michael Hammer. "Se o SAP desaparecesse, as pessoas não poderiam comprar uma lata de Coca-Cola." Nas capitais financeiras de Londres, Tóquio e Hong Cong, os bancos estão instalando vastos sistemas novos para se adaptar à moeda única da Europa e ã desregulamentação financeira do Japão. Nesse meio tempo, estão trabalhando até tarde da noite para resolver o enorme problema que poderá ocorrer no ano 2000, se as empresas não reformularem seus programas para datas de quatro dígitos. Há um ano. A Mastech Systems enviou um punhado de programadores para rastrear um contrato do Citibank de Cingapura até Londres. Uma vez em Londres, descobriram uma série de outros negócios e começaram a importar mais programadores da África do Sul, Sri Lanka, Índia e Austrália. "Temos 50 pessoas agora e contrataríamos outras 50 hoje se pudéssemos encontrá-los", afirma o gerente no país, Gui Hastings. O problema com o mercado de serviços é o uso intensivo de mão-de-obra. As empresas de serviço crescem principalmente por meio de contratações - sempre difíceis em um mercado restritivo. "Estamos buscando 50% a 60% de expansão na Europa Orienta!", diz o chefe regional da Andersen Consulting, Leslie Bergman. "Deste modo, temos de contratar pessoas ao mesmo ritmo." Quando Bergman começou a trabalhar em Praga há seis anos, um único anúncio de jornal atraía 500 respostas e a contratação de dez funcionários. "Esses dias acabaram", explica. Neste mercado mais limitado, recrutadores rivais se encontram em feiras de carreiras e no campus da Universidade Técnica de Praga. E conseguem uma ou duas contratações de cada vez. Para garimpar mais talentos, fazem incursões em novos mercados. A próxima escala de Bergman é a Romênia. Ao mesmo tempo, empresas terceirizadoras como a Manpower Inc. esperam avidamente por programadores e cientistas às portas de empresas de alta tecnologia em dificuldades, desde a Apple Computer Inc. até a Westinghouse Electric Corp. "Ficamos com essas pessoas, e as treinamos e redistribuímos", conta Jeffrcy A. Joerres, chefe de recrutamento mundial da Manpower. Com a crescente demanda de cérebros, a Manpower, com seu quadro de pessoal temporário de 150 mil, consegue faturar US$ 130 por hora por programadores de primeira linha. "O desespero gera esses tipos de oportunidades", observa Joerres. Para tirar proveito máximo de seus cérebros escassos, as empresas de serviços estão criando fábricas virtuais. Em essência, estão usando a tecnologia de computador e de telecomunicações para criar unidades de produção ao redor do mundo para si. Ernst & Young, por exemplo, mantém uma ligação entre sua fábrica a Year 2000, na Costa Mesa, na Califórnia, e a Crystal Systems Solutions, de Israel, e um "oficina de estrutura central" com 7.300 programadores na Índia, administrada pela Tata Consultuncy Services. Os programadores trabalham em mais de milhões de linhas de códigos por oito a dez horas e depois os enviam via satélite ao continente seguinte, onde seus colegas estão apenas chegado ao trabalho. "Se um fornecedor de Year 2000 não tem uma fábrica, não tem nenhuma possibilidade", afirma Bill Ruckle, que dirige a operação Year 2000 da Ernst & Young. Várias empresas estão montando redes mundiais parecidas para cuidar de todos os tipos de trabalho de programação. Enquanto lutam para atrair pessoal para as redes, concentram-se em especialidades regionais. Os russos são gênios de matemática. A Universidade de Pune, na Índia, tem um forte programa em japonês, que a qualifica para a carga de trabalho da Year 2000 do Japão. Os programadores da África do sul aprenderam a enfrentar os anos de boicote "anti-apartheid" com uma coleção variada de computadores centrais modificados: isto serve para o trabalho da Year 2000, que é em grande parte baseado em software para computadores centrais envelhecidos. Ensino Sem dúvida, os governos de países que vão da Inglaterra à Tailândia estão estimulando o ensino de alta tecnologia, visualizando uma força de trabalho inteligente como um magneto para investimentos. A artimanha, como atestaria a Índia, é manter esses cérebros em casa. Para fazer isso, o governo malaio esta lançando um corredor de alta tecnologia de US$ 11,5 bilhões denominado Putrajaya. Ali, a Malásia pretende desenvolver seu próprio Vale do Silício. O governo está instalando a fiação e as ligações por satélite e promovendo o ensino de matemática e tecnologia nas escolas. A esperança é que os investidores se instalarão em Putrajaya e no futuro empregarão uma força de trabalho de alta tecnologia de 150 mil. Para os programadores, o mundo é uma ostra digital. Em um laboratório de computação em Austin, Texas, Natalya Bogataya e seu marido, Konstantin Bobivich, ambos bielo-russos e produtos da chamada conexão russa da George Van Derven, se dedicam a um programa para o computador central. Deixaram seus dois filhos com parentes em Minsk, enquanto resolvem os problemas em software de seguro para a Computer Sciences Corp. "Não podemos usar nossa experiência em nosso país", explica Bobovich. "e minha mulher disse 'vamos ver os Estados Unidos'. Porque não?" Na economia da informação e especialmente no fervilhante mercado de software, a capacidade intelectual é uma passagem para quase qualquer lugar. Caçando talentos no Terceiro Mundo Business Week Em seu escritório em um subúrbio de Pittsburgh, Sushina Rajagopalan, uma nativa transplantada de Bombaim, navega na Internet, procurando não apenas programadores mas também sinais de aflição, talvez um colapso cambial ou um evento que envolva reféns - algo que estimule um criador de software a abandonar sua residência por uma vida carregando malas de viagem como programador de aluguel. Rajagopalan é uma recrutadora mundial para a Mastech Corp., uma empresa sediada em Pittsburgh que supre mão-de-obra especializada em software, desesperadamente exigida por gigantes como a Ford Motor Co., IBM e o governo dos Estados Unidos. E ela sabe onde procurar. O Chile, por exemplo, é um dos lugares "quentes" na América do Sul para software. Mas para Rajagopalan, que trabalhou na divisão de tecnologia da informação do Citibank na Índia, antes de se mudar para os Estados Unidos há seis anos, o Chile é simplesmente próspero e confortável demais - não há o suficiente do que ela chama de "incentivo" para os programadores partirem. Inversamente, ela vê promessas na Colômbia assolada por problemas, e Hong Cong poderia ser um oásis de recrutamento se os chineses iniciarem a repressão. "É muito mais fácil vender algo a pessoas que estão ansiosas por ir embora", diz ela. Soa um pouco frio? É sinal dos tempos apressados para as empresas terceirizadoras e para qualquer uma que precisa de mão-de-obra especializada em software. Com os gastos em tecnologia de computação no mundo projetados em US$ 3 trilhões durante esta década, é estratosférica a demanda de gênios de software que conseguem fazer de tudo, desde interligar redes mundiais até fazer uma pequena imagem da Internet dançar em uma página da World Wide Web. É onde entra Rajagopalan. Ela é a recrutadora número um para a Mastech, uma empresa de US$ 125 milhões fundada há dez anos por dois imigrantes indianos, Sunil Wadhwani e Ashok Trivedi. Enquanto outros no setor perseguem programadores, a maioria para missões no mercado interno, a Mastech calcula que quanto mais talentos encontrar, mais rapidamente a empresa crescerá. Afinal, cada funcionário - existem 2 mil - deverá gerar US$ 90 mil em receita e uma margem operacional de 12%. Neste cálculo, a demanda não diminui. "Não é como carne suína e café", comenta o executivo-chefe Wadhwani. Nesse mercado, Rajagopalan enfrenta todos os tipos de concorrência. Ela coloca programadores talentosos em um emprego, e logo o cliente começa a perguntar onde exatamente, em Sri Lanka ou na África do Sul, encontrou o trabalhador. Ela não revela. Hoje, diz Rajagopalan, que passa a metade do seu tempo na estrada, os clientes estão enviando executivos de recursos humanos ao redor do globo para achar eles próprios os peritos. "Estou concorrendo com meus próprios clientes", queixa-se ela. O plano da Mastech é contratar centenas de programadores, mandá-los pelo mundo em projetos e fazer a ligação de todos eles via satélite com grandes empresas de software e centros de treinamento na Índia. A empresa - que abriu o capital no ano passado a US$ 15 por ação que está sendo negociada agora a US$ 23 - já mantém operações na Inglaterra, Canadá, Cingapura, Austrália e Japão e uma fábrica na Índia. "A Mastech transformou nosso negócio", afirma Curtis Smith, controlador da Cloister Spring Water Co., de Lancaster, Pensilvânia. O ideal seria Rajagoiapan contratar programadores que dominam o inglês, que é a língua franca da alta tecnologia, bem como as mais recentes tecnologias. Mas, no mercado de trabalho movimentado, todos ficam satisfeitos com menos. Ela está sendo flexível em relação ao inglês. E freqüentemente Rajagopalan precisa contratar os peritos em tecnologia que ela consegue encontrar e depois'treiná-los ou encontrar uma função para seus conhecimentos. Os filipinos, por exemplo, são fortes em velhos sistemas Unisys - justamente o que se requer para um importante contrato em andamento no Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano americano. A dúvida, evidentemente, é sobre como os recrutadores mundiais como a Mastech resistiriam a uma queda de demanda. Wadhwani, por exemplo, não prevê tal situação. "O crescimento da capacidade de computação no mundo está dobrando a cada dois anos", diz ela. "O software precisa acompanhar o ritmo." Se isso for verdadeiro, Sushma Rajagopalan pode esperar encontrar muitos dos colegas recrutadores perambulando pelo mundo em busca de cérebros.