Notícia

Diário de Pernambuco

Uma avaliação da política econômica de Lula

Publicado em 26 janeiro 2007

Os economistas do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp publicaram, recentemente, uma avaliação que abrange as várias dimensões da política econômica adotada pelo governo Lula. Organizado por Ricardo Carneiro, o estudo abrange o contexto internacional, a estabilidade e a política macroeconômica, o crescimento econômico e sua política (A Supremacia dos Mercados e a Política Econômica do Governo Lula, Fapesp - Unesp, 2006). Elaborado por mais de uma dezena de economistas, entre eles Luiz Gonzaga Belluzzo e Mariano Laplane, o trabalho constitui certamente uma contribuição para rediscutir os rumos da economia.

Na introdução de Ricardo Carneiro é realizada uma síntese das principais conclusões dos 10 capítulos que constituem o trabalho. Entre os temas abordados, as análises convergiram para quatro hipóteses, em relação às quais se procura avaliar o desempenho do governo: (I) a redução da vulnerabilidade externa da economia nacional, (II) a diminuição da fragilidade fiscal, (III) a melhoria da distribuição de renda e (IV) o estabelecimento de um novo modelo de crescimento econômico. Os autores, apesar de assinalarem aspectos que contribuíram para a redução da vulnerabilidade externa (contexto mundial favorável e mudanças na composição da dívida pública), consideram que a economia nacional tornou-se mais vulnerável em razão da ampliação, no atual governo, da abertura financeira que tornou mais frágil o país a um ataque especulativo contra o real. Além disso, há que considerar a redução dos saldos nas relações comerciais com o exterior, como agravante. Este fato está associado, em grande parte, à valorização do real.  Relativamente à situação fiscal que envolve, sobretudo, a questão da dívida externa, ao destacarem os aspectos positivos relacionados com a redução da dívida como proporção do produto, além da melhoria da sua composição quanto aos tipos de títulos públicos negociados, os economistas da Unicamp ressaltam a redução dos prazos médios da dívida (parcela crescente com vencimento médiode apenas um ano), do que pode decorrer uma reversão dos ganhos obtidos diante de uma mudança no quadro macroeconômico. Há que ressaltar, ainda no quadro fiscal, com relação aos gastos, o aumento simultâneo dos pagamentos de juros e das despesas correntes, em detrimento dos investimentos, o que significa impasse na continuidade desse tipo de ajuste fiscal adotado.

Relativamente à distribuição de renda, os autores ressaltam que em função da maior elasticidade do emprego em relação ao crescimento do produto, do processo de formalização das relações de trabalho e do câmbio valorizado que permitiu o barateamento de alguns produtos, ocorreu uma melhoria nesta distribuição, cuja continuidade, no futuro, depende da dinâmica das exportações (das quais decorreu, em grande parte, o aumento do emprego gerado) e do processo de modernização industrial que poderá diminuir a demanda de trabalhadores.

Finalmente, no que se refere à tese do novo modelo de crescimento, ela não encontra sustentação nem no crescimento do produto e da produção, nem da ampliação da capacidade de investir. Neste particular, é ressaltado o baixo valor dos investimentos realizados, a ausência de política industrial e a falta de articulação do crédito com um projeto de desenvolvimento nacional. A taxa de 2,6%, ao ano, estimada para o produto no governo Lula e a relação entre os investimentos e o produto que não ultrapassa os 20%, confirmam plenamente esta conclusão.

Na contracorrente dos estudos e opiniões neoliberais, bem presentes nos meios de comunicação, neste final da administração de Lula I e de início de Lula II, o trabalho da Unicamp amplia a discussão e mostra que há vida inteligente no debate atual sobre a economia brasileira.