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Jornal da USP online

Uma ajuda contra o vício, sem estigmas ou preconceitos

Publicado em 30 março 2015

Por Izabel Leão

Será que é tempo que lhe falta pra perceber?

Será que temos esse tempo pra perder?

E quem quer saber?

A vida é tão rara, tão rara

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma

Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma

Eu sei, a vida não para

A vida não para, não

Lenine

Parafraseando o cantor e compositor Lenine, em sua música “Paciência”, o Programa Acolhe-USP, mantido pela Superintendência de Assistência Social (SAS) da USP, busca – através do acolhimento, da discrição e da paciência – atender a alunos, funcionários e professores da USP que fazem uso abusivo de álcool ou drogas. E mostrar a eles que não há “esse tempo pra perder”, que “a vida é tão rara” e que “o corpo pede um pouco mais de alma”, “um pouco mais de calma”.

Trata-se de um programa desenvolvido pela Divisão de Promoção Social da SAS, que surgiu da unificação das iniciativas que já existiam na USP voltadas para o tratamento de dependentes químicos e álcool. O superintendente da SAS, professor Waldyr Antonio Jorge, conta que, durante seis anos, uma comissão instituída em 2005 – intitulada Comissão de Política de Enfrentamento de Uso de Álcool e Drogas na USP – discutiu esse problema e, em 2012, criou o Acolhe-USP, que atende atualmente algo em torno de 250 pessoas.

A coordenadora administrativa do programa, Marília Zalaf – especialista na área de drogas no meio estudantil –, ressalta que o cenário do consumo na USP não é diferente do da sociedade brasileira de modo geral. “O problema não é na USP, e sim na sociedade. A Universidade acaba sentindo o reflexo do que circula por aí.”

A palavra “acolhimento”, para a equipe do programa, significa não vincular o tratamento a um caráter médico. Além disso, o nome Acolhe desvincula o consumo de álcool e drogas de qualquer estigmatização que possa ocorrer, como explica o superintendente Waldyr Antonio Jorge. “Buscamos ser sutis, sigilosos e fazer um acolhimento voltado ao indivíduo fragilizado socialmente”, diz ele.

O Acolhe-USP conta com dois assistentes sociais, dois enfermeiros e dois estagiários de psicologia, para dar a atenção necessária e especializada àqueles que procuram ajuda. Eles se revezam em plantões e fazem atendimentos das 7h às 19h.

Calouros – Em todo início de ano, a SAS realiza um trabalho de prevenção com os calouros da USP, com o objetivo de oferecer aos novos alunos mais conhecimentos sobre o risco que correm diante da alta procura e incidência do uso de estimulantes. “Sabemos que a procura pela ‘felicidade’ e realização é o que faz com que o jovem procure drogas ou álcool”, explica Waldyr Jorge.

O programa conta com parcerias com o Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP e o Hospital Universitário (HU), entre outras instituições. Em caso de necessidade de intervenção, é possível encaminhar o paciente a esses centros, caso o atendimento ambulatorial não apresente resultados satisfatórios.

O superintendente deixa claro que cada pessoa é vista individualmente, pois cada uma tem suas próprias motivações para o uso de diferentes substâncias psicoativas. “Uns querem esquecer os problemas, outros não conseguem se socializar com facilidade, outros são inseguros, outros estão em depressão etc. Por isso o tratamento também é individualizado. O importante é que a pessoa tome consciência do seu vício, que hoje sabemos ser uma doença.”

De acordo com o regulamento do programa, o sigilo no Acolhe é absoluto e em nenhuma hipótese os nomes dos pacientes são divulgados sem o consentimento deles. Os profissionais do programa – entre eles, os assistentes sociais – não têm relação com os assistentes sociais que atendem no Serviço Social da SAS.

A equipe do Programa Acolhe-USP atende de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h, em dois endereços: na rua Afrânio Peixoto, 333, telefone (11) 3032-1127, no bairro do Butantã, em São Paulo (próximo ao Portão 1 da Cidade Universitária), e na rua do Anfiteatro, 295, telefone 3091-8345, na Cidade Universitária, em São Paulo. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mailacolheusp@usp.br.

Grea é outra opção de ajuda

Outra ação de enfrentamento do abuso de drogas lícitas e ilícitas na USP é realizada pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP.

Segundo o coordenador do Grea, professor Arthur Guerra de Andrade, o grupo trabalha com três grandes iniciativas. A primeira delas foi a criação de um grupo de trabalho com o objetivo de desenvolver uma política de enfrentamento ao álcool, drogas e tabaco. A segunda é um forte investimento em programas de prevenção, para evitar o abuso dessas substâncias ilícitas e o uso inadequado de álcool e drogas dentro do ambiente universitário. E a terceira iniciativa é estimular ao máximo atividades de tratamento para quem já tem o vício.

Guerra explica que na Faculdade de Medicina da USP existe o Grupo de Assistência Psicológica (Grapal), que oferece assistência aos alunos daquela faculdade e aos médicos residentes do Hospital das Clínicas, incluindo consultas psiquiátricas, sessões de psicoterapia, orientação familiar e grupos de reflexão sobre identidade médica e relação médico-paciente.

A pesquisa científica também compõe as atividades do Grea, que desenvolveu o primeiro Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre Universitários das 27 capitais brasileiras.

O levantamento é um estudo epidemiológico transversal, de base populacional universitária, com o objetivo de investigar o uso de drogas e outras condições de saúde mental e identificar políticas institucionais para o uso de drogas em universitários de instituições de ensino superior públicas e privadas das 27 capitais brasileiras. O levantamento foi realizado entre 2009 e 2010, sob a coordenação da Faculdade de Medicina da USP, e financiado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A professora Gabriela Arantes Wagner, pesquisadora do Grea, explica que foram pesquisados 12.711 universitários em todo o Brasil, a fim de obter uma amostragem representativa. “Para a coleta dos dados foram utilizados instrumentos de pesquisa padronizados, de autorrelato, aplicados por entrevistadores previamente treinados, em salas de aula.”

Os dados resultantes mostram que 86% dos universitários já fizeram uso na vida de álcool, 47%, de produtos de tabaco e 49%, de alguma substância ilícita. São consideradas drogas ilícitas toda e qualquer substância em que a produção, comercialização e consumo são proibidos por lei. As drogas ilícitas, quando ingeridas, inaladas ou aplicadas no organismo, provocam alterações no seu estado, pois agem sobre o sistema nervoso e modificam o comportamento e o estado mental das pessoas que delas fazem uso. São as chamadas drogas psicotrópicas.

A ingestão de cinco ou mais doses de bebida alcoólica em uma única ocasião atinge 36% dos universitários. Quase 19% dos universitários usaram três ou quatro drogas nos últimos 12 meses e 43% relataram já ter feito uso múltiplo e simultâneo de drogas na vida.

Tendência – Gabriela relata que o levantamento também contou com a descrição das tendências de uso de drogas entre alunos da USP em 13 anos (1996-2009). Em 2009 foi observado o aumento significativo do uso de álcool, atingindo um teto de 96,1% de alunos que relataram terem feito uso dele na vida; 82,1% no último ano e 68,7% nos últimos 30 dias. “Esse aumento de uso nos últimos 13 anos também foi significativo para tabaco, alucinógenos, anfetamínicos, tranquilizantes e opiáceos.”

A pesquisadora ressalta que, entre os anos de 2001 e 2009, observou-se uma diminuição do uso de inalantes. E, conforme a área de concentração acadêmica, observou-se maior uso de drogas entre alunos das ciências humanas.

Gabriela Wagner conclui que, segundo o levantamento, a situação mais preocupante reside no fato de que muitos dos comportamentos de risco investigados foram mais frequentes entre os universitários, quando comparados aos jovens de faixa etária correspondente da população geral brasileira.

O Grea está instalado no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (rua Doutor Ovídio Pires de Campos, 785, Cerqueira César, São Paulo, SP). Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 2661-6960 e no endereço eletrônicowww.grea.org.br.