Notícia

Jornal da USP

Um troféu à excelência e à dedicação

Publicado em 03 abril 2000

Vestido com uma camiseta branca simples, sem estampa, em que pendurava um crachá de funcionário da USP, o professor Fernando Reinach se levantou e, diante dos membros do Conselho Universitário, recebeu o troféu concedido aos pesquisadores da Universidade que trabalharam no Projeto Genoma-Xylella - a pesquisa que resultou no mapeamento completo do genoma da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da "praga do amarelinho". Depois, a pedido dos repórteres do Jornal da USP, reclamou, sorrindo, por ter de posar para uma fotografia segurando o troféu: "Isso é uma cafonice total". Essa informalidade é um retrato da forma descontraída e eficiente com que foi realizado um dos maiores projetos científicos da história da ciência brasileira. Em pouco mais de dois anos - de outubro de 1997 a fevereiro de 2000 -, o Projeto Genoma-Xylella envolveu 192 cientistas de 35 laboratórios do Estado de São Paulo, que mapearam todos os 2,7 milhões de pares de base da bactéria, ao custo de US$ 13 milhões, financiados pela Fapesp. A pesquisa abre a possibilidade de combater, através da genética molecular, a "praga do amarelinho", doença que a cada ano causa prejuízos de R$ 150 milhões à citricultura de São Paulo - um dos principais ramos da economia paulista. Dos 192 pesquisadores participantes do projeto, 87 estão ligados à USP. A esses cientistas a Universidade prestou uma homenagem no dia 28 de março, durante reunião do Conselho Universitário. Representando os pesquisadores da USP, Fernando Reinach, do Instituto de Química, e o professor Luís Eduardo Aranha Camargo, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba, receberam o troféu confeccionado especialmente para os autores uspianos da façanha. "Esse é o resultado da dedicação e da competência de várias gerações de cientistas, em sua esmagadora maioria ligados à universidade pública", enfatizou o reitor Jacques Marco Vitch durante a cerimônia de entrega. Reinach e Camargo foram escolhidos para representar os colegas por motivos muito justos: o professor do Instituto de Química foi quem, em meados de 1997, sugeriu à Fapesp que se fizesse o mapeamento completo de uma bactéria e o professor da Esalq fez, em fevereiro de 2000, a leitura do último "pedaço" do genoma da bactéria, completando a pesquisa. Criado pelo arquiteto Heliodoro Teixeira Bastos Filho, o Dorinho, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, o troféu oferecido aos pesquisadores tem a forma de um círculo dourado sobre uma base de acrílico preto. Essa figura representa a calçada circular que envolve a torre da Praça do Relógio - um dos mais famosos "cartões-postais" da USP, situado na Cidade Universitária, em São Paulo - e onde está escrita a frase "No universo da cultura o centro está em toda parte". No troféu, ao invés da frase, encontra-se em azul o desenho da dupla hélice do DNA, a molécula que, na Xylella, contém os 2,7 milhões de pares de base investigados pelos cientistas. "Esse troféu nasceu praticamente na sala do reitor. Comecei a esboçar o desenho na presença de Marcovitch e do pró-reitor de Pesquisa, Hernan Chaimovich, e eles gostaram", conta Dorinho. E brinca: "A obra não é só minha. É nossa". Os 87 pesquisadores da USP homenageados pela Universidade estão distribuídos em nove unidades. Só o Instituto de Química teve 19 professores envolvidos no projeto da Xylella. A Esalq e o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) - ambos localizados em Piracicaba - participaram da pesquisa com 17 e 12 cientistas, respectivamente. As outras unidades da USP que ajudaram a mapear o genoma da bactéria foram a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (11 professores), a Faculdade de Medicina (oito), o Instituto Oceano gráfico (oito), o Instituto de Ciências Biomédicas (cinco), a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (quatro) e a Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCF RP). OS LOUROS DA VITÓRIA Os pesquisadores da USP merecem essa homenagem hoje eles formam maior parte da restrita comunidade de cientistas brasileiros capazes de fazer avançadas pesquisas em genética molecular. "Atualmente os trabalhos nessa área feitos em São Paulo equivalem em qualidade ao que é feito nos países mais desenvolvidos", afirma a pesquisadora Cláudia de Mattos Bellato, da Cena, com a experiência de quem trabalhou durante dez anos em empresas e universidades dos Estados Unidos, sempre na área de genética molecular. "Temos vários problemas, como a burocracia e a demora na entrega de material: nos Estados Unidos, pede-se qualquer produto de manhã e à tarde ele já está no laboratório", diz Cláudia. "Apesar de tudo isso, o Brasil está no mesmo patamar que os outros países." Atualmente, a equipe de que Cláudia faz parte - coordenada pela pesquisadora Siu Mui Tsai - se dedica ao chamado Projeto Genoma Funcional, que utiliza as informações obtidas com o mapeamento da Xylella para tentar entender os mecanismos da bactéria e deter a praga. Nessa tarefa, os cientistas ajudam a preparar mais especialistas em genética molecular. "O laboratório dá espaço para que estudantes de graduação e de pós-graduação façam estágios, o que é ótimo para ampliar o conhecimento e formar novos cientistas." Além do aprendizado adquirido com o projeto Genoma-Xylella, a troca de informações entre os pesquisadores foi outro precioso fruto da pesquisa, segundo Maria Antônia Ladalardo Etche-; garay, da Esalq. Graças à Onsa - sigla em inglês da Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos -, uma rede eletrônica montada pela Fapesp para interligar os 35 laboratórios ligados ao projeto, os pesquisadores podiam manter contato estreito e ajudar uns aos outros a resolver os problemas que surgiam. "Isso proporciona um aprendizado enorme", lembra a pesquisadora da Esalq. Durante cerca de um ano, Maria Antônia enfrentou uma "pesada rotina" diária. A ela cabia a tarefa de cultivar bactérias Xylella fastidiosa, extrair delas o DNA, preparar a reação de seqüenciamento e fazer o gel do seqüenciamento - as etapas necessárias para obter os dados que seriam depois analisados no computador por outras equipes de pesquisadores. "Esse era o "trabalho braçal' do projeto, uma atividade muito mecânica, e por isso árdua", conta. "Mas se torna muito bacana depois que a gente vê os resultados." Os cientistas da USP não se deitaram sobre os louros da maior conquista científica brasileira em tempos recentes. Eles já estão trabalhando em novos projetos - ligados ou não ao estudo da Xylella -, sempre com o objetivo de usar a genética molecular em prol da ciência e da sociedade. Já estão em andamento, por exemplo, investigações sobre a bactéria Xanthomona citri, causadora do cancro cítrico, e pesquisas sobre o genoma da cana-de-açúcar. Trabalhos como esses e outros feitos na USP deverão fortalecer a posição de liderança que o Brasil agora ocupa na área de fitopatogenia. De quebra, deverão render mais homenagens aos cientistas da Universidade responsáveis por essa liderança.