Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Um trator chamado desconhecimento

Publicado em 10 outubro 2005

Por Ciência & Meio Ambiente

Na semana passada, a professora Antonia Cecília Zacagnini Amaral, do Instituto de Biologia da Unicamp, foi procurada por um grupo de moradores do Litoral Norte paulista.
O objetivo era obter a opinião e o aval dessa especialista para a implantação de sistemas mecanizados de limpeza da areia das praias, por meio de pequenos tratores - um processo que ao longo dos últimos anos vem sendo adotado por várias prefeituras.
"Se dependesse de mim, esse sistema não seria implantado. A presença de resíduos sólidos (papel, plástico, folhas) pode ser facilmente evitada com a conscientização da população. Quando presentes, devem ser retirados manualmente", afirmou.
Para entender a reação da professora Cecília, é preciso primeiro conhecer o trabalho no qual ela e outros cerca de 100 cientistas se dedicaram ao longo dos últimos quatro anos.
Pacientemente, eles mapearam a biodiversidade da costa paulista, mais especificamente o Litoral Norte, coletando e identificando um vasto número de espécies da fauna bentônica (nome dado ao conjunto de animais que vive no leito do mar), tais como moluscos (caramujos, mariscos), crustáceos (camarões, caranguejos, siris) e poliquetas (minhocas marinhas).
Recentemente concluído, esse levantamento revelou a existência de várias espécies até então desconhecidas pela Ciência.  "Só para se ter uma idéia, em apenas um grupo, o das minhocas do mar, nós identificamos 70 casos desse tipo", afirmou a coordenadora dos trabalhos.
Também foram encontradas esponjas-do-mar e ácaros marinhos até então desconhecidos pelos biólogos. E isso ocorreu numa das áreas mais estudadas de todo o litoral brasileiro. 

Desconhecimento
O que poucos sabem, inclusive aquele grupo de moradores interessados na limpeza mecânica, é que mais de 80% desses seres vivem exatamente nas primeiras camadas dessa areia, entre 2 e 10 centímetros de profundidade.
"Usar a máquina significa destruir esses animais. Dependendo da quantidade de areia retirada, podem ocorrer mudanças na formação da praia e na composição da areia, pois junto com os resíduos são retiradas as conchas que tem grande influência nesta composição. Em longo prazo isto pode até provocar problemas de erosão", explicou a professora Cecília.
Esse pequeno exemplo dá a dimensão do se passa hoje com a mais densamente povoada região do País, o litoral.
Para o pesquisador Ícaro Cunha, professor de política ambiental da Universidade Católica de Santos (Unisantos), partes dos cerca de 7 mil quilômetros litorâneos vêm sofrendo um novo e talvez derradeiro fenômeno.
"Estamos, nas últimas décadas, reocupando a costa. Os espaços desabitados vêm sofrendo um processo predatório de ocupação, sem critérios ou organização", alertou.
A professora Cecília concorda. "A degradação é visível e preocupante. Os meios de comunicação devem nos ajudar a conscientizar a comunidade".
Área mais densamente povoada do País, o litoral foi e é vanguarda quando o assunto é desenvolvimento versus preservação. Nessa luta desigual, o passado mostra que os recursos naturais sempre saíram perdendo. O que não quer dizer que já seja tarde demais, que não haja mais o que proteger e usufruir.

Mapa da conservação
O projeto Biota-Fapesp, no qual a pesquisa coordenada pela professora Cecília Amaral está inserida, teve início em 2000, com o objetivo de inventariar e caracterizar a biodiversidade do Estado de São Paulo, definindo os mecanismos para sua conservação, seu potencial econômico e sua utilização sustentável.
À medida que o levantamento avançava, as equipes publicavam relatórios anuais dando conta da evolução das atividades. Para este ano, o Biota-Fapesp está programando a realização de um workshop, em novembro, com o propósito de conceber um mapa indicando as áreas prioritárias de conservação e restauração do Estado.
Este produto, de acordo com a coordenação do programa, "representaria uma primeira expressão real da possibilidade do uso de dados científicos coletados de forma ordenada e sistematizada na elaboração de políticas públicas de conservação da biodiversidade no Estado".