Notícia

Jornal da USP

Um táxi para o céu

Publicado em 16 outubro 2000

Há poucos dias perdíamos Eduardo Leone, professor titular de Cinema. Esteve ligado à ECA desde o primeiro vestibular, em 1%7, quando ela ainda se chamava escola de Comunicações Culturais. Não se pode dizer que lenha sido um aluno comum. Como não terá sido um professor comum. Entrar na escola, por si, significou tumulto na vida pessoal. Planos de origem familiar, como se formar em direito na Universidade Mackenzie, seriam rompidos para sempre, embora chegado até quase o último ano. O cinema, atividade que o atraíra bem cedo, mais por curiosidade e prazer do que por rigor, método ou obrigação, em suas palavras, "era sangue, oxigênio, gasolina para a vida toda". Não dirigia. Durante anos, um táxi o trazia pela manhã. Ao meio-dia o levava para almoçar, trazendo-o novamente para o expediente da tarde. Quando se inaugurou o Clube dos Professores, passou a freqüentar o lugar. Na primeira vez, chamou um táxi. Veio um carro que estivera longo tempo estacionado no ponto da Reitoria. O chofer, possesso ao saber do destino, falou horrores sobre o prejuízo em perder o lugar na fila por uma corrida entre a ECA e o clube. Nunca se soube o que Leone teria respondido ao motorista, mas o homem nunca mais deixaria de atendê-lo. Inclusive nessas corridas. Na abertura do Memorial de professor titular, numa parte intitulada "Do Fundo do Coração", escreveu: "Acho que já gastei um bom tempo de minha vida escriturando memoriais. E não acho isso ruim, pois nos memoriais se pode organizar melhor o que se faz na vida e no ofício. O que acho ruim é quando memoriais se transformam em autobiografias laudativas: nas quais se encontra espaço para tudo, até para a valorização daquilo que não tem a menor importância, num amontoado de nostalgias. Em discurso monocórdio, sem o talento, por exemplo, do "Samba de uma nota só", do Jobim". Dotado de uma desconcertante maneira de tratar a própria vida, não se fazia concessões. Era rigoroso consigo próprio. Modelo que lhe servia na avaliação de tudo quanto o cercava. No mesmo Memorial, mais à frente, continuava: "Parte do talento de uma pessoa deve ser medido pelas influências recebidas, se é que pretendemos ser síntese de alguma coisa. Griffith inventou a articulação muito antes das imagens em movimento. Também tive minhas influências com Nicholas Ray, Robert Wise e Mauro Alice, montador da Vera Cruz e discípulo de Hafenhichter, o genial montador alemão, importado do cinema inglês pelo Cavalcanti, e que conseguiu dobrar o Lima Barreto na montagem de O Cangaceiro". A curiosidade pelo movimento, pela invenção, pela cena, pela ficção, teria surgido provavelmente na infância, quando ganhou algumas marionetes no Natal. Quem sabe essa experiência com espetáculos produzidos para si mesmo, bem antes do ginasial, não revelaria a descoberta de uma possibilidade pessoal ilimitada. No próprio relato, descreve o que chamou de sua "primeira vez"', durante umas férias em Santos, quando tinha sele anos: "Foi minha tia Rosário quem me levou ao Cine Caiçara para assistir a Love is a my splendored thing (Suplício de uma saudade) na imensa tela de cinemascope. O saguão do cinema era enorme, repleto de colunas que mais pareciam labirinto. Se minha memória não falha, também havia redes de pescadores enfeitando as paredes. Os tapetes, vermelhos, faziam-nos importantes. Fui afundando no labirinto, com minha tia e os primos, qual chegada a uma celebração. Fascinado, olhava de um canto a outro. Pelo que conseguia acompanhar, entendia tratar-se de imenso caso de amor". Sobre essa experiência ele ainda escreveria: "Impressionaram-me aquelas cenas no alto das montanhas que cercavam Hong Kong, onde Jennifer Jones e WiIliam Holden viviam o seu amor e posteriormente viveriam as suas tragédias. Mal sabia eu que, anos depois, estudaria o alto e o baixo a partir de S. M. Eisenstein em O Encouraçado Potenkim, uma das essências cinematográficas pela força e emoção que transmite. Se Jennifer Jones subia a montanha para chorar a morto de William Holden, a infle russa subia as escadarias para ser brutalmente assassinada pelos soldados cossacos. O problema, mais tarde, foi o de entender as duas coisas sem subtrair-lhes a importância, ou pertinência no universo dos espetáculos cinematográficos". Foi dessa maneira que Eduardo Lenone começou a viver, não apenas num universo imenso de imagens e movimentos, mas, sobretudo de idéias. A principal marca de sua vida, porém, foi entender o cinema por dentro e por fora do processo cinematográfico. Pode-se ate dizer que a ênfase de sua preocupação estava mais na audiência e no espectador, propriamente dito, do que em toda a realização cinematográfica. Tinha também uma característica rara em profissionais de cinema marcados pelo interesse acadêmico: conhecia como ninguém o processo do cinema publicitário. Além de alguma atividade como crítico da área quando ainda estudante, no antigo Diário de São Paulo (que ele não gostava de lembrar), foi montador. Diretor, diretor de dublagem e diretor de produção. Trabalhou com nomes da envergadura de Roberto Santos, com quem integrou a equipe que realizou As três mortes de Solano, longa-metragem produzido pela própria ECA. Aluou como montador em incontáveis realizações, destacando-se as de diretores como Rudá de Andrade, Fernando Duarte, Plácido de Caimpos, Herval Pina Ribeiro, Adélia Sampaio, Suzana Amaral, William Cobbett, Sebastião de Souza. Milton Dutra e Vladimir de Carvalho. Em 1969, enquanto cursava o terceiro ano da escola, realizou A morte da strip-teuser. Filme em preto-e-branco, na bitola de dezesseis milímetros, que contém imagens de Lupe Cotrin. Este, que teria sido o primeiro projeto de aluno, foi também o último como profissional. Nos últimos tempos ocupava-se do restauro e recuperação da fita. Dedicava-se a digitalizá-lo no Midialab, laboratório de pesquisa da imagem com equipamentos de última geração, que ele próprio montou na ECA com apoio da Fapesp. Seu mestrado foi dedicado à montagem cinematográfica como linguagem. A tese de doutorado teve como título "Retrato não terminado". A de livre-docência. "Era uma vez a montagem". Os textos que deixa são fartos, ricos, impregnados de estilo absolutamente pessoal. Não raro, por conta do estilo pouco convencional, relatórios que apresentava após viagens de estudo provocavam intensas polêmicas institucionais. Após estada em Cuba, onde participara de oficina de montagem, comentando as instalações da escola anfitriã, relataria: "Acabo de voltar da videoteca bastante impressionado com os títulos: é possível, com o material de lá, montar um curso em diversas direções: montagem mais clássica com Eisenstein, Pudovkin, Griffith, Vertov, Ford, Hitchcock, montagem narrativa moderna com Spielberg. Scorcese, Wenders, Fassbinder, o caso Welles, os fenômenos latino-americanos. Fiquei encantado com a quantidade de filmes em cassettes Bela. A videoteca da ECA ainda tem um longo caminho a percorrer. Espero, em futuro próximo, deixar de usar meu dinheiro para a compra de material didático". No mesmo texto, bem à frente, depois de considerar temperatura, clima, alimentação, discorre sobre as próprias impressões do país onde se encontrava: "Ligo a televisão e lá está o comandante no seu discurso de oito horas. A platéia parece impassível. Não reage em nada e os aplausos são tão ensaiados como os aplausos de um programa de auditório. Será que esse congresso não é um pouco a porta da esperança da Ilha? Segundo o repórter local o mundo está na expectativa dos resultados do quinto congresso do PCC". De outro relatório, sobre participação em congresso, na Dinamarca, dedicado á interatividade na formação em cinema, extrai-se: "O meu medo nessas discussões sobre a interatividade é que se perca um pouco determinadas noções anteriores e seus parâmetros relativos. Não se trata de, em um único espetáculo hoje, ousar alguma coisa que a humanidade sempre ousou: a pesquisa sempre foi interativa, numa conjunção entre o ser que pesquisa e a materialidade pela qual ele lerá que viajar. Será que não existe uma grande mistificação nesse termo, nessas ousadas" propostas pelas quais os pesquisadores sempre viajaram? Afinal de contas, o que significa essa tremenda novidade que se afunda nos mais velhos métodos? Corta vez alguém me disse que o mais importante era consultar dicionários para fugir dessa visão "especialista" do mundo. Ora, consultar dicionários é o mesmo que lazer longas viagens pelas enciclopédias e, interativamente, chegar a esses pontos paradigmáticos. Será que, além do classicismo não estamos retornando a esse ponto enciclopédico através da Net?" Assim era Eduardo Leone. Compulsivo, imagético, rememorativo, intermitente, dotado de um talento notável. Talento não só acadêmico ou profissional. Era dotado de uma admirável capacidade humana, própria dos artistas que amadurecem além das sensações exclusivamente pessoais. Exercitava-se na percepção que ultrapassa diferenças, deficiências e defeitos do ser humano. Um aparente azedume pessoal disfarçava a grande alma, carregada de a feto e preocupação para com todos. Quem o conheceu, teve ocasião de privar com um realizador superlativo. Quem, a partir de agora, ler ou ver o que ele deixou, terá oportunidade de entender que o cinema, a universidade, a escola e os mais próximos perderam alguma coisa de grande significado. Nas exéquias havia umtáxi estacionado à frente da casa funerária. O chofer, durante longas horas, esteve sentado a um canto da sala. Estava triste como familiares, amigos, colegas, profissionais de cinema e outros presentes na despedida a Eduardo Leone. Era o mesmo profissional que por muito tempo o transportara por onde precisava ir. "COMPANHEIRO MUITO LEAL" Um dos diretores que mais conheceram o trabalho de Eduardo Leone como montador também era um de seus melhores amigos. "Ele foi montador de alguns dos meus filmes, companheiro muito amado, muito leal, apesar do temperamento que muitos não apreciavam. Ele era autêntico, tinha muita personalidade", lembra o diretor Vladimir de Carvalho. Atuaram juntos em várias produções, sendo a mais importante Conterrâneos velhos de guerra, filme sobre a construção de Brasília, a capital que está completando 40 anos. Sobre o trabalho profissional de Leone, Carvalho acrescenta: "Ele tinha participação ativa, porque o filme não é só direção, a montagem completa o filme. Como professor, tinha grande percepção da teoria cinematográfica e levava essa teoria à prática". Nos últimos tempos, o professor Eduardo Leone estava realizando um documentário, um "making of extemporâneo" do filme A hora e a vez de Augusto Matraga, dirigido por Roberto Santos em 1966. O trabalho estava sendo feito em conjunto com Heitor Capuzzo, professor da UFMG, e editado no Midialab.br, laboratório de edição digital que Leone coordenava na ECA. O documentário estava apenas na metade, mas Leone deixou pronto o mapa de montagem que permitirá que ele continue a ser editado no Midialab. Capuzzo foi aluno de mestrado e doutorado de Leone e já o conhecia desde os anos 70. "Das pessoas que tenho contato no Brasil, ele era das que mais conheciam cinema. Poucas pessoas são tão aguçadas para compreender o cinema como ele. Era um excepcional editor de filmes do cinema brasileiro", diz. Rudá de Andrade, fundador do curso de Cinema na ECA e ex-professor de Leone, afirma: "No início, ele era tímido, mas foi se soltando. Era criativo e realizava filmes imaginosos. Essa mesma criatividade o acompanhou como aluno, nas suas teses de mestrado e doutorado, professor e criador". Marina Vieira