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Portal do Meio Ambiente

Um segredinho para adiar a morte

Publicado em 21 agosto 2010

Tudo é uma questão de dose, costumam dizer os especialistas em venenos. Uma substância capaz de matar pode também curar ou proteger, quando entendemos como ela funciona e aprendemos a usá-la em nosso favor. Assim é com a taturana mais perigosa do Brasil, de nome científico Lonomia obliqua, encontrada com mais frequência na região Sul.

Basta encostar nela e a vítima logo sente náuseas e dor de cabeça. Em seguida começam os sangramentos da gengiva, de feridas ou mesmo de cicatrizes recentes, com possibilidade de morte por hemorragia cerebral ou insuficiência renal. Os acidentes fatais com essa taturana motivaram pesquisas no Instituto Butantan, em São Paulo, com o objetivo de se descobrir um soro, hoje já disponível.

Mas a equipe de especialistas não parou no antídoto e esmiuçou os estudos até perceber que o veneno não é simplesmente anticoagulante - como seria de se esperar de uma substância que provoca hemorragias. O caminho é bem mais tortuoso, iniciando no sentido contrário: o veneno é pró-coagulante e primeiro provoca a coagulação do sangue dentro das veias (intravascular). Isso consome os fatores de coagulação e - aí, sim - torna o sangue incoagulável. Daí para frente, até furar a orelha é um perigo para a vítima, pois o furinho vai sangrar sem parar.

Ao decifrar essa forma de agir do veneno, a equipe coordenada por Ana Marisa Chudzinski Tavassi isolou a proteína pró-coagulante e identificou diversos usos potenciais: em diagnósticos, em cosméticos, no reparo de tecidos em casos de queimaduras ou isquemias, em cicatrização e até para evitar processos neurodegenerativos. A tal proteína seria como um novo tipo de "escudo" celular, capaz de conferir imunidade mesmo a células consideradas "velhas".

"O princípio de coagulação tem diversas aplicações na proteção contra a morte celular", explica a pesquisadora. "Todas as células do nosso organismo estão programadas para morrer, mas a proteína da taturana consegue estimular componentes extracelulares responsáveis pela proteção - como o colágeno, entre outros - adiando essa morte celular programada".

A pesquisa gerou três patentes e uma quarta está em vias de ser depositada, atraindo a atenção das indústrias farmacêutica e cosmética. Até aqui os estudos contaram com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Daqui para frente, os testes pré-clínicos devem ter apoio privado, assim como o desenvolvimento de produtos comerciais.

Os pesquisadores já têm como produzir a proteína em laboratório e também separaram um pedaço da proteína - um peptídeo - com mesmo efeito da molécula toda. Melhor assim: não faria sentido sair coletando taturanas para atender às necessidades da produção em massa. Mesmo oferecendo risco de acidentes, o inseto sulista presta lá seus serviços ao progresso da Ciência...