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O Norte

Um salto na cultura: Grupo atualiza 'Flora' de Martius

Publicado em 18 setembro 2003

Especialistas do Brasil e do Exterior revisam a monumental mas datada "Flora brasiliensis" do botânico von Martins Num aspecto parecem-se as pesquisas com as revoluções: sabe-se onde começam, nunca onde terminam - e sempre aprendemos mais que pretendíamos. Há dias, indaguei-me se os gêneros botânicos "Arrudea" e "Clusia", da família das Gutíferas (ou Clusiáceas) não seriam a mesma coisa. Os livros pouco ajudando, e-mailei a um dos maiores especialistas do Mundo em sistemática vegetal, Paul E. Berry, internacionalmente respeitado no campo da taxonomia, ciência que atribui nomes corretos a plantas e animais, classificando-os num sistema. Não por acaso o Dr. Berry integra o Departamento de Botânica da Universidade de Wisconsin e é o diretor de seu Herbário, em Madison. Ao invés de só responder, Berry fez o certo: reendereçou o e-mail (disto gentilmente avisando-me, em perfeito anglo-portunhol) a seu colega naturalista Volker Bittrich, da Unicamp, aqui no Brasil. Bittrich é dos que mais entendem de Gutíferas no mundo. Alemão, leciona e pesquisa em São Paulo e é casado com brasileira. O grupo internacional de estudos de que participa o Dr. Volker inclui, entre especialistas doutros países, técnicos de alto nível, como a) o citado americano Berry, especialista internacional em Rapateáceos, Euforbiáceas e Onagráceas (a família do brinco-de-princesa); b) o próprio Bittrich, do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da Universidade de Campinas, SP, e um dos maiores especialistas mundiais em Clusiáceas - tanto que há uma espécie de arbusto rupestre com flores amareladas e folhas quase triangulares, a "Clusia obdeltifolia Bittrich", descrita justamente pelo Volker e que é citada, entre outros URLs, no web site do Jardim Botânico de Nova Iorque; c) a esposa brasileira de Volker, a também naturalista e professora-doutora Maria do Carmo E. Amaral, especialista em Comelináceas e plantas aquáticas e integrante do Departamento de Botânica e do Laboratório de Taxonomia da Unicamp; e d) o Dr. George J. Shepherd, botânico egresso há 30 anos da Escócia, especialista em Ciperáceas e fitossociologia, e que leciona também no Departamento de Botânica da Unicamp. A equipe inclui ainda os Drs. José Rubens Pirani, do Departamento de Botânica do IB/USP; a brasileira Lúcia Lohmann, pós-doutoranda do Missouri Botanical Garden (EUA); Ana Odete Vieira, da Universidade de Londrina; e Daniela C. Zappi, do Royal Botanic Gardens, Kew, Inglaterra. Essa equipe envolve-se em projeto-piloto com importantíssima proposta: atualizar os nomes das pranchas ilustrativas da obra "Flora brasiliensis", de von Martius (1791-1868), monumental obra publicada entre 1840 e 1906 - um marco da Botânica do século XIX. Se levado adiante o projeto, ciclópica há de ser a tarefa dele e de dezenas de botânicos no Brasil e no Estrangeiro: revisar, atualizar e digitalizar as pranchas (gravuras, estampas, desenhos, fotos) das plantas descritas na "Flora brasiliensis". As pranchas irão sendo disponibilizadas na Internet, constituindo gigantesco catalogo on line que chamaríamos de "a 'flora brasiliensis' de von Martius adaptada ao Século XXI e às novas tecnologias da Informação". O mais importante é que tal "web site" representará autentica revisão das famílias, gêneros e espécies de plantas da flora brasileira! Por enquanto, já se pode ver pequena amostra (ou protótipo) desse trabalho em www.cria.org.br/rosa/, com algumas pranchas disponíveis. Não ficam aí as idéias de Bittrich, Carmo, Berry, Shepherd e demais especialistas desse capacitado grupo de cientistas. O ambicioso projeto está na fase inicial e o grupo busca financiamentos. Se o leitor tem tio rico que ame a natureza e queira ajudar esses idealistas, eis a hora de bem aplicar a fortuna. Trata-se de trabalho de gente grande, que interessa de perto ao País e a organismos nacionais e internacionais, como o CRIA (Centro de Referência em Informação Ambiental); o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia); o Museu Emílio Goeldi, de Belém, PA; o Projeto Hora da Amazônia; a Species 2000; o ITIS-Brasil (Sistema Integrado de Informação Taxonômica); o GBIF (Global Biodiversity Information Faciliiy); o International Working Group on Taxonomic Databases; a International Union of Biological Sciences; o TDWG (Taxonomic Database Working Group); a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo); o New York Botanical Garden etc, para não falar de ONGs da área. É autêntica rede de informações on line sobre a biodiversidade interamericana, como sugerido pela Flora Neotropica do Jardim Botânico nova-iorquino. Grande salto para a Ciência e Cultura do País, pois a admirável classificação de Martius, continuada por Eichler (nos anos 1868-1887) e por Urban (entre 1887-1906), tornou-se aos poucos ultrapassada, ao longo do século XX. Berry e demais especialistas participaram em 2002 de importante seminário sobre a "Flora brasiliensis Revisited" (a obra de Martius revisitada). Discutiram a concretização de um herbário virtual na Internet: classificações regionais on line; compartilhamento de dados taxonômicos pelos botânicos de várias partes do Mundo; ferramentas para o desenvolvimento da base de conhecimento da flora brasileira etc. Abordaram ainda temas que iam das perspectivas da taxonomia botânica no Brasil e na América Latina tropical, à luz da tecnologia da informação, até o estado-da-arte do conhecimento das espécies latino-americanas, passando pela análise de floras localizadas; base de dados de herbários; diferenças regionais na sistemática vegetal; catálogos das espécies de plantas neotropicais; disponibilidade de informações taxonômicas on line; gerenciamento de dados estruturados sobre o atual conhecimento da flora; modernas tendências rumo a uma biblioteca tetânica virtual; Floras do Século XXI; ferramentas taxonômicas na produção de Floras acessíveis, a todos; modernização das antigas denominações; serviços on line de geo-referenciamento automatizado das coleções de História Natural; modelagem da distribuição fitogeográfica das espécies; "et alia".