Notícia

A Folha (São Carlos, SP)

Um saldo positivo

Publicado em 28 fevereiro 2013

Por Samuel Ponsoni

A Comissão da Verdade já apurou que mais de 50 mil pessoas sofreram violência por parte do Estado durante os anos ditatoriais, entre 1964 e 1985, seja de forma sistemática, como, aliás, está se provando que era práxis, seja de forma esporádica. Por um lado, boas novas estão chegando juntamente com essas investigações: identificação de torturadores, processos contra os mantenedores dessas situações, mudança nos laudos de mortes, inquéritos, entre outras coisas. Por outro lado, péssimas notícias precipitam no horizonte: refiro-me a dizimações de tribos indígenas – caso da BR-174. Porém, escrevo aqui o que creio ser o único do saldo positivo – ainda que a duras penas – dos tempos da “grande repressão”: a criatividade artística. Com a censura do dizível, escritos literários, canções e artes plásticas, fílmicas e cênicas usaram de artifícios verbais e não verbais para transgredirem as regras de “expressão” daquele tempo. Por exemplo, no livro “Cadeiras proibidas”, de Ignácio de Loyola Brandão, publicado em 1979, as personagens não são nominalizadas rigidamente e as situações em que aparecem são caóticas e insólitas. Como recurso textual, há a sistemática mudança de tempos verbais e a presença elíptica dos sujeitos das frases. Isso dá um efeito de narração no qual parece que a trama é contada por uma testemunha mais ou menos velada.

O escritor valeu-se destes artifícios morfossintáticos que o português brasileiro dispõe em sua estruturação para sistematizar a textual idade da narrativa, de tal sorte que não se tem claramente a fronteira entre narradores e personagens, criando uma tensão de ações e não ações na trama dos fatos. De forma geral, essa espécie de “voz” inserida na ação não tem nem a neutralidade de um narrador anônimo nem a feição de qualquer personagem.

Ainda que pareça deslocada, esta figura, narrador-testemunha, partilha o ponto de vista e a linguagem da coletividade, evocados pelos romances, contos, crônicas. Com isso, somos então levados a supor: a presença de uma espécie de personagem implícita, que participaria da história, mas ficaria na sua periferia. Este efeito pode ser observado em: “Empurrou a porta e encontrou o bicho comendo o filho mais velho, de três anos e meio. (…) na penumbra, pareceu verde. Paralisado, não sabia se devia entrar e tentar assustar o animal, para que ele largasse a criança. Ou se devia recuar e pedir auxilio". É possível notar vestígios de que os verbos descrevem a tentativa de ação de uma personagem em um tempo pretérito perfeito (empurrou/encontrou/pareceu), o qual indica, em sua concepção teórica, uma ação terminada ou convicta de ser realizada, entoada por sujeitos elípticos nas frases, à sombra da narrativa, mas que só podem ser um “ele” ou “você”. O discurso da narrativa ancora com alguma certeza a ação da personagem diante do animal devorador, a indicar resistência, luta. Esta ação, momentaneamente convicta, anula-se, contudo, na sequência, tornando-se uma não ação à medida que o discurso narrativo, ainda com sujeitos elípticos, prossegue com o tempo verbal pretérito imperfeito (sabia/devia), o qual indica, teoricamente, uma ação inacabada ou não concluída, mas que neste caso pode ser tomada por um “eu”, ”você” ou “ele”.

A ação que iria se concretizar sanciona-se em uma não ação, com a entrada desta espécie de sombra, que narra testemunhando, interferindo, não delimitando, claramente, seu espaço como sujeito da narrativa e marcando-se no verbo pretérito imperfeito. Isso pode nos aludir à forma como a ética do autor constituiu o lugar da materialidade histórica com a qual escreveu o texto, ou seja, um tempo em que não se podia dizer qualquer coisa nem se posicionar de qualquer maneira; havia sempre um “fantasma” a lhe observar, oprimir e determinar a ação. E essa forma criativa de estruturar a narrativa, utilizando-se da concepção dos tempos verbais e da sintaxe de sujeito elíptico, deixa marcada também a expressão estética do autor na materialidade textual. Uma junção de fundo e forma a direcionar os sentidos.

1. Doutorando em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, membro do Laboratório de Estudos Epistemológicos e Discursividades Multimodais – LEEDIM e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp. E-mail: sponsoni@yahoo.com

2. Trecho extraído de “Cadeiras proibidas”, de Ignácio de Loyola Brandão, 10ª edição, ano 2003, p.35. Os verbos no pretérito perfeito estão em bold (negrito) e os verbos no pretérito imperfeito, em itálico.