Notícia

Jornal da Tarde

Um remédio brasileiro contra o câncer

Publicado em 07 novembro 2002

Por DANIELA TÓFOLI - Jornal da Tarde
Estudo brasileiro revela que o composto de paládio pode impedir a reprodução de células cancerígenas em ratos. É como tirar o dente de uma chave para ela não rodar na fechadura, explica o coordenador Uma substancia capaz de impedir que células cancerígenas se espalhem pelo corpo é a nova esperança para o tratamento da doença que, só no Brasil, mata mais de 100 mil pessoas por ano. Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) divulgou ontem o desenvolvimento do composto de paládio - molécula que impede a ação de uma das principais enzimas responsáveis pela metástase (disseminação do câncer no organismo), a catepsina-B. Sem a enzima, a célula não consegue se reproduzir ou se romper, e não se espalha. Sem a metástase, que é a principal causa de morte dos pacientes com câncer, o tratamento se torna mais simples - já que fica concentrado em pontos isolados do corpo. O composto é uma substância desenvolvida em laboratório a partir do metal paládio (parecido com a platina), que é ligado a elementos orgânicos e injetado no organismo. Por afinidade, ele se liga à catepsina-B e consegue mudar sua estrutura. Deformada, a enzima não pode -mais agir dentro da célula e perde sua função. "É como se tirássemos um dente de uma chave e ela não rodasse mais na fechadura", explica o coordenador da pesquisa, Antônio Carlos Fávero Caíres. "A catepsina-B, que está presente em 90% de todos os tipos de células cancerígenas, toma-se inútil e sua disseminação não ocorre." A descoberta já foi testada em ratos e confirmou os resultados esperados. "A molécula inibiu o crescimento dos tumores (angiogênese) e a metástase praticamente não correu", explica. "Além disso, a toxicidade das substâncias e seus efeitos colaterais são bem menores que os de outras substâncias." As células cancerígenas não cresceram porque houve redução da angiogênese - surgimento anormal de vasos sangüíneos ao redor do tumor que acabam servindo como alimento. "Com menos vasos, o tumor regredia" E o câncer não atingiu outros órgãos do corpo porque essas células não se romperam e, assim, não transmitiram a informação da doença pela corrente sangüínea. "O próximo passo, agora, é fazer os testes em animais maiores e, então, em seres-humanos." Para que um remédio á base do composto de paládio chegue às prateleiras, no entanto, ainda será preciso paciência. "Se tivermos o apoio de um grande laboratório, acredito que poderemos ter os remédios em três anos", acredita Caíres. Nove empresas farmacológicas já mostraram interesse em conhecer a nova molécula. Três delas já querem começar a desenvolver os testes em humanos. UM ANO PARA CONSEGUIR A PATENTE INTERNACIONAL A substância está sendo patenteada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (fapesp), que financiou todo o projeto, investindo US$ 2 milhões. "Agora temos um ano para conseguir a patente internacional, caso contrário a descoberta brasileira cai em domínio público", explica o coordenador. Ele acredita que, sem o apoio à Fapesp, uma equipe de cientistas de uma universidade particular não teria conseguido realizar o trabalho. "Há alguns anos a UMC vem investindo sério em pesquisa, o que não é uma regra nas instituições privadas", afirma Caíres. "Essa é uma vitória do esforço, que vai beneficiar milhões de pessoas." De acordo com o Instituto Nacional do Câncer - órgão do Ministério da Saúde responsável pela doença -, 337.535 pessoas devem descobrir que estão com câncer apenas neste ano. Não há estatísticas oficiais de quantas pessoas têm a doença no País, mas os médicos acreditam que o número já está bem acima do um milhão e afirmam que é preciso conter a euforia com a nova descoberta. "Acho que essa será mais uma arma no combate a doença", diz o oncologista clínico Hakaru Tadokoro, da Universidade Federal de São Paulo. "Mas a metástase é um processo muito complexo e, como a célula cancerígena é inteligente, pode descobrir um outro caminho para se espalhar assim que descobrir que a catepsina-B não está mais funcionando." Sérgio Simon, oncologista do Hospital Albert Einstein, concorda: "Há muitas outras substâncias que participam desse processo e talvez alterar apenas uma não seja tão eficiente". Ele também afirma que é preciso esperar pelos testes em seres-humanos antes de criar uma expectativa. "Muitas descobertas nessa área só têm sucesso em animais." Simon lembra, ainda, que há alguns tipos de câncer, como a leucemia, onde a metástase não ocorre. "Nesse caso, a descoberta não ajudará", diz. "Mas se os exames em humanos derem certo, será um bom avanço no tratamento, afinal a metástase é o grande problema da doença" EMBRIÃO DE RATO A PARTIR DE UM TUMOR Pesquisadores do Hospital da Criança de Memphis, no Tennesse (Estados Unidos conseguiram produzir embriões de ratos a partir de células clonadas de um tumor cerebral. A pesquisa foi divulgada ontem na seção de notícias online da revista Nature. Segundo o pesquisador Tom Curran, a técnica empregada na experiência transferência nuclear - foi semelhante à usada para a criação de ovelha Dolly, o primeiro clone feito de um mamífero. A diferença está no material genético usado para enxertar a célula vazia: desta vez, foi utilizado o DNA de uma célula de tumor maligno do cérebro. Uma das hipóteses era a de que a cultura a partir do núcleo das células de um tumor resultasse em tecido tumorais, Mas o embrião se desenvolveu sem as mutações de DNA características das células tumorais. Os cientistas concluíram que o processo de clonagem apaga algumas mutações e restaura as funções originais dos genes das células-tronco (primeiras células de um embrião que tem o poder de gerar qualquer tecido vivo), em um processo chamado de reprogramming. Essa mudança, segundo a pesquisa divulgada pela Nature, pode resultar de marcadores químicos reversíveis, ou de ação de genes ativos, que se confundem no código genético original. Na fecundação, genes que expressam diferentes funções, vindos do pai ou da mãe, são ativados ou desativados, em um processo chamado Imprinting. É como se todas as luzes (genes) estivessem acesas, e durante o processo de fecundação alguns se tornassem ativos e outros acabassem suprimidos. Ao clonar, os genes suprimidos podem ocupar a vaga dos genes ativos, mas mutantes. A esperança é de que se desenvolvam remédios que ajudem a reprogramar os genes ativos e suprimidos em um célula de tumor. A BUSCA DA VACINA BRASILEIRA, A TODO VAPOR Os resultados dos testes da primeira vacina anticâncer fabricada totalmente no Brasil feitos com seres humanos serão divulgados até o fim do ano. De acordo com o oncologista e imunologista Fernando Thomé Kreutz - o criador da vacina -, a primeira fase da avaliação clínica feita com pacientes voluntários está apresentando resultados "encorajadores". A idéia da vacina é "pintar" as células tumorais e tomá-las visíveis ao sistema imunológico. Assim, o organismo poderia reconhecê-las e inibir sua proliferação por meio das células T - substâncias que matam os corpos estranhos, como vírus e bactérias. A vacina é fabricada a partir das células cancerígenas do próprio paciente. Elas são retiradas em uma pequena cirurgia, como uma biópsia, e multiplicadas em laboratório. Lá, são manipuladas e se tornam diferentes para poderem ser reconhecidas pelo organismo. A criação da vacina foi divulgada há dois anos e teve de passar por duas fases de testes com seres humanos. A primeira determinou a toxicidade do imunizante no organismo e a segunda, que está em andamento, verifica o efeito clínico da vacina nos pacientes, divididos em grupos com o mesmo tipo de câncer. A comparação entre os pacientes que usaram o medicamento e os que não usaram também deve ocorrer. Teoricamente, a vacina funcionaria contra qualquer tipo de câncer e, segundo Kreutz, os efeitos colaterais estão sendo estudados. Ontem, o médico explicou ao JT que ainda não pode divulgar detalhes dos testes por causa do protocolo de sigilo estabelecido com os parceiros do projeto, mas que até o fim do ano irá contar as novidades. "A pesquisa com os pacientes continua e tem mostrado excelentes resultados", afirma. "Estamos radiantes com o impacto da vacina no organismo humano e teremos boas notícias para dar."