Notícia

Jornal da USP

Um programa para reorganizar a pesquisa

Publicado em 14 novembro 2010

Por PAULO HEBMÜLLER

A USP divulgou no dia 27 de outubro um edital com as diretrizes de seu novo Programa de Incentivo à Pesquisa. Os núcleos concorrerão a recursos orçamentários, destinados pela Reitoria, no valor de até R$ 2 milhões por grupo. O total investido no programa chega a R$ 48,6 milhões. O edital está na página da Pró-Reitoria de Pesquisa (www.usp.br/prp), onde, nesta quarta-feira, dia 10, será publicado também o formulário de apresentação de propostas. "É muito importante que parte do orçamento da Universidade seja direcionada para pesquisa. Esse esforço de financiamento demonstra que a USP está extremamente preocupada com a pesquisa e que ela é fundamental", diz o reitor João Grandino Rodas.

O programa distribuirá recursos em três modalidades: para grupos consolidados (até 15, no valor de R$ 2 milhões para cada um); para grupos promissores (até 12, no valor de R$ 900 mil para cada um); e os chamados centros de instrumentação (até quatro, no valor de R$ 1,5 milhão para cada um). Haverá ainda financiamento para enviar pesquisadores ao exterior e receber estrangeiros e para contratação de técnicos via Programa de Concessão de Pessoal Técnico de Nível Superior (Procontes).

A maior parte dos recursos para pesquisa na USP vem das agências de fomento, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) - que em 2009 destinou cerca de R$ 300 milhões à Universidade - e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Embora ressalvando que as agências têm excelentes diretrizes e parâmetros científicos, o reitor considera que a USP não pode abdicar do financiamento próprio. "Isso é uma obrigação da Universidade, mas também tem a ver com sua autonomia, que não é apenas financeira e científica, mas também é de pesquisa", argumenta.

Para Rodas, a USP alcançou posição razoável em alguns rankings internacionais, mas se quiser ser realmente de excelência mundial "não pode ficar como está". "Os últimos rankings demonstraram que não estamos subindo. Se a USP não tomar tento e começar a verificar certos aspectos que são menos positivos e resolvê-los, fatalmente vamos ficar para trás", diz.

De acordo com o reitor, o valor de quase R$ 50 milhões destinado na primeira edição do programa deve ser reajustado anualmente. Os recursos saem da parcela orçamentária de cerca de 15% destinada ao custeio da Universidade. Segundo Rodas, não será comprometido o porcentual de cerca de 85% destinado a pessoal, mas, se necessário, outros investimentos do custeio serão diminuídos em prol do programa.

Novidade - "A ideia é demonstrar que a Universidade valoriza a pesquisa e está colocando recursos nisso. É um grande volume e uma grande novidade entre as universidades brasileiras", considera o pró-reitor de Pesquisa, Marco Antonio Zago. A experiência do pró-reitor à frente do CNPq, que presidiu entre 2006 e 2008, ajudou a formatar o programa, do qual participam ainda a Pró-Reitoria de Pós-Graduação e as Vice-Reitorias Executivas de Relações Internacionais e de Administração. O modelo, diz Zago, é baseado no programa dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), lançado em sua gestão no CNPq.

As duas vertentes principais contemplam, de um lado, grupos organizados e que já possuem fonte externa de financiamento e, de outro, as ideias criativas que ainda não tenham obtido recursos de agências. "Temos que reforçar o que já é forte e estimular algo que ainda é um risco", defende o professor.

A terceira vertente, dos chamados centros de instrumentação, é um projeto piloto destinado a estruturas de suporte à pesquisa, como construção de laboratórios multiuso, aquisição de equipamentos ou prestação de serviços especializados a grupos. "Não é centrado num projeto de pesquisa, mas sim na organização para oferecer oportunidades de pesquisa para a Universidade", explica Zago. "Equipamentos importantes muitas vezes ficam restritos ao uso de um pequeno grupo. Existe uma tendência mundial de mudar esse panorama e temos que caminhar nessa direção."

As propostas serão avaliadas por comissões com assessores externos e julgadas por critérios de excelência. De acordo com o pró-reitor, as comissões podem, inclusive, decidir contemplar um número de projetos menor do que o estipulado no edital. Entre o julgamento das propostas e a divulgação do resultado definitivo, prevista para o dia 25 de abril do ano que vem, haverá um prazo de cinco dias úteis para interposição de recursos.

Contra a fragmentação

Para o pró-reitor Marco Antonio Zago, uma das intenções do Programa de Incentivo à Pesquisa é promover uma espécie de reorganização da pesquisa na USP - o que não significa direcioná-la ou determinar o que deve ou não ser objeto do trabalho. "As universidades brasileiras de modo geral abdicaram da responsabilidade de financiar a pesquisa e, portanto, abdicaram da responsabilidade de organizar a pesquisa", considera.

Paradoxalmente, acredita, o sucesso no trabalho e a obtenção de financiamento podem contribuir até para isolar e afastar o pesquisador da vida da Universidade. "O sucesso passou a ser algo desagregador, e queremos ajudar a reverter essa tendência", diz.

Outro problema, na visão do pró-reitor, é que em geral os grupos atuam de maneira individual e, quando se juntam, "são muitas vezes limitados pela estrutura departamental". Zago considera que essa estrutura é dominante e destinada principalmente às atividades didática e administrativa.

"A pesquisa não pode respeitar os limites departamentais. Qualquer temática de grande dimensão, como fontes alternativas de energia, uso da água ou novos medicamentos, não pode ser resolvida no âmbito de um único departamento ou com um único tipo de especialista", aponta. "Temos que aproveitar as diferentes competências para associá-las no sentido de resolver os problemas relevantes da sociedade."