Notícia

Jornal da USP

Um problema de toda a sociedade

Publicado em 13 setembro 2004

No último dia de agosto foram enterrados no cemitério Dom Bosco, em Perus, três moradores de rua mortos nos ataques realizados entre os dias 19 e 22. Como que reiterando em definitivo a condição de excluídos que a sociedade lhes aplicou, as sepulturas não trazem seus nomes, mas apenas os números pelos quais eles foram identificados nos laudos do Instituto Médico Legal: 3309, 3328 e 3333. "Como é que a gente se defende da morte, moça? Onde eu estiver um dia ela me alcança", disse certa vez um morador de rua à psicóloga Aparecida Magali de Souza Alvarez. Pesquisadora que trabalha com a população de rua há mais de dez anos, Magali fez dela o tema de seu mestrado e doutorado. Sua atual pesquisa de pós-doutorado na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP também aborda os moradores de rua, agora com a esperança de propor caminhos para que todos os cidadãos se enxerguem como parte da solução. "Falar de políticas públicas é falar da gente, e não deixá-las apenas nas mãos de quem nós elegemos", defende. "Não nos iludamos: nós é que teremos que fazer." São várias as contribuições da academia para o estudo e a compreensão da vida dos moradores de rua. Na USP, há iniciativas em unidades como a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), o Instituto de Psicologia, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e outras. "Muitos de nossos estudantes saem da zona de conforto e têm ido à rua para projetar e ampliar suas fontes de conhecimento. A produção dessas teses, dissertações e outras pesquisas só se tornou possível graças à inestimável contribuição dos moradores de rua e dos catadores de recicláveis para com nossos estudantes e pesquisadores", diz a professora da FAU Maria Cecília Loschiavo dos Santos, que desde 1994 trabalha com o tema. A professora chama a atenção para o fato de que "a chocante escalada global da miséria, como produto das mudanças políticas e econômicas", fez com que o fenômeno do morador de rua deixasse de ser exclusividade do Terceiro Mundo, transformando-se em problema social de escala planetária. "Em muitos países há bolsões de riqueza absoluta convivendo com bolsões de miséria total", diz. Um dos seus projetos em andamento aborda exatamente esse aspecto e vai resultar na participação no livro Moradores de rua em quatro cidades globais - São Paulo, Tóquio, Paris e Los Angeles, financiado pela National Science Foundation dos Estados Unidos. Ao lado da globalização do problema, há também a síndrome do Nimby (not in my backyard, ou "não no meu quintal"). "A síndrome descreve a resistência organizada das comunidades ao uso dos espaços públicos e do solo, bem como à implantação de instituições e serviços assistenciais direcionados ao atendimento das populações de rua", explica Maria Cecília. "Ou seja, tudo bem que exista o morador de rua, desde que ele não venha para perto de mim, para o meu quintal, na minha calçada." Estigmatização - Maria Cecília desenvolveu mestrado e doutorado sobre design do mobiliário e observou, a partir dos anos 90, o descarte significativo do material por ela estudado, principalmente no meio urbano, em baixios de viadutos e outros espaços públicos. "Mas o importante não era apenas o descarte dos produtos, dos materiais, e sim o descarte dos seres humanos que vivem das sobras", reflete. O tema motivou-a a iniciar estudos, em 1994, visando a compreender os repertórios e estratégias de sobrevivência dessas pessoas para facilitar sua adaptação à vida nas ruas. Graças ao apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Maria Cecília pôde estender seus estudos também a Los Angeles e Tóquio. Para a professora, o processo de estigmatização está na base da chacina contra os moradores de rua de São Paulo, pessoas que em geral só aparecem na mídia em caso de tragédias como enchentes ou crimes, ou em campanhas de arrecadação na época de Natal ou no inverno. "Como tendência geral, no mundo, observa-se a política pública reforçando alternativas assistencialistas, como a construção de grandes albergues. Talvez, para trabalhar dentro dos valores culturais da população moradora de rua, foge mais apropriado projetar serviços de atenção em outra escala, mais compatível com a humanização dos espaços. Afinal, a grande escala dos albergues, de uma maneira ou outra, acaba repetindo a escala das instituições correcionais, das prisões, dos grandes asilos", afirma. Para a professora, a verdadeira discussão é o direito ao espaço público: "Quão público é esse espaço se não pode ser utilizado? Hoje são os moradores de rua. E amanhã?". Transformação - "Nasceu uma criança na sarjeta: e agora?" Com esse título, a psicóloga Aparecida Magali Alvarez, pesquisadora da FSP, publicou seu primeiro texto já como resultado da pesquisa de mestrado que iniciou em 1993 sobre os moradores de rua. Ela acompanhou de perto o caso de Célia e Hélio, que mesmo com toda a precariedade fizeram questão de ter seu filho na rua. Na época, Magali trabalhava com o conceito de resistência, que, na definição de Edith Grotberg, é "a capacidade humana de fazer frente às adversidades da vida, superá-las e sair delas fortalecidos ou, inclusive, transformados." Para ser um indivíduo resistente, é necessário encontrar um "ponto fixo", uma alavanca que o fará reconstruir um sentido para a vida. Esse ponto fixo pode estar na religião, no encontro com alguém ou com alguma oportunidade de se reerguer - ou num nascimento, como foi o caso do bebê de Célia e Hélio. Por causa dele, ambos deixaram o álcool e as drogas e passaram a criá-lo dando todo o carinho e providenciando os cuidados necessários com alimentação e higiene. Mais tarde, entretanto, o crack levou Célia - a droga que tomou as ruas no início dos anos 90, tornando a realidade delas ainda mais violenta -, e Hélio viu-se obrigado a chamar outros moradores de rua para ajudá-lo a cuidar da criança enquanto ele trabalhava como catador de papel. "Eram bêbados e pessoas que tiveram que se reestruturar para cuidar daquela criança", diz Magali. Portador do vírus HIV, contraído provavelmente já no nascimento, o menino viveria até cerca de oito anos de idade, e seu pai despediu-se do filho que tanto amou "num enterro com todo um ritual muito bonito". No final de sua dissertação, Magali escreveu que "a resistência é uma dança bem-sucedida na música da vida - não uma dança com bailarinos solitários: ela pede parcerias, colaborações, empatias, encontros. Ela fala de amor". O passo seguinte, no doutorado, foi investigar o que chamou de "encontro transformador", ou seja, a possibilidade de que a interação específica entre moradores de rua e pessoas que os auxiliam gere espaços de transformação para os dois lados. Duas professoras que se dedicavam a um grupo de moradores de rua numa praça (ou "maloca") foram identificadas por Magali como portadoras das características que poderiam conduzir ao encontro transformador. A pesquisadora acompanhou o grupo durante cinco anos, ao longo dos quais tornou-se não apenas observadora, mas também participante. Nesse período, conheceu casos impressionantes como o da mulher que morava na "casa-caverna" - um buraco num viaduto -, e o do morador de rua identificado como "Soviético", que passou mais de vinte anos preso - sobreviveu ao massacre do Carandiru, em 92 - para quem a reconstrução da própria identidade começou a partir dos desenhos que produziu sobre sua vida. Espírito e academia - Para Magali, a chave do encontro transformador é o amor ágape - na definição da Bíblia, o amor que caracteriza o próprio Deus: é mais do que afeição mútua e expressa a valorização altruísta no objeto amado, sem ter exigências de retorno. Sua "explicação" estaria no texto da primeira epístola aos Coríntios, capítulo 13, que na maior parte das traduções usadas na Igreja Católica traz o termo "caridade": "Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse a caridade, eu nada seria" (tradução da Bíblia de Jerusalém, das Edições Paulinas). "O ágape trata de gratuidade, é o amor que dá sem pedir nada em troca, ignora a contra doação. É o amor em ação. a caridade em movimento", diz Magali. Quando quis, em pleno ambiente acadêmico, escrever sobre essa dimensão, a pesquisadora enfrentou resistência. Porém, bateu pé: "Como decepar essa parte espiritual do ser humano? Ele tem que ser olhado em seu todo". Em sua proposta, a reflexão teórica e o trabalho incorporam a multidisciplinaridade, trazendo conceitos da psicologia, da sociologia, da geografia, da complexidade sistêmica e de outras disciplinas. Para Magali. "nossa sociedade vive uma fratura relacional: há um lado de integrados e outro de uma humanidade de excluídos. É uma 'cidade de muros' que promove a inserção marginal às sobras do banquete da sociedade". Romper com esse quadro implica muito mais do que o discurso da solidariedade: "é preciso ir à rua e ser ágape", defende a psicóloga. "Meu grande desafio é como capacitar às pessoas para isso." Em seu pós-doutorado, iniciado em junho deste ano com o financiamento da Fapesp - que também a auxiliou no mestrado e doutorado -, Magali está formando grupos de universitários, técnicos e profissionais que têm contato com moradores de rua. A idéia é trabalhar com contos construídos a partir das histórias da rua ("a velha estratégia das parábolas", diz). A pesquisadora imagina que esses contos darão origem a materiais que poderão ser apropriados e trabalhados por quem se dispuser a ir à rua. "É preciso ir ao âmago do ser humano, ao cerne de sua psique", afirma Magali. "O ser humano é um ser para o encontro. O ágape se constitui quando é exercitado neste espaço do encontro."