Notícia

Jornal do Brás

Um presente do Natal:o poder da generosidade

Publicado em 01 dezembro 2018

Por Marisa Moura Verdade

A generosidade humana participa do espírito do Natal e Ano Novo. É o tempo de dar e receber, anunciando a questão primária da experiência generosa.

Tratase da experiência de pessoas que, sem esperar recompensas, oferecem livremente apoio ou recursos para quem precisa. Aparentemente, estamos diante de ações simples e corriqueiras. Quem nunca fez uma doação ou ajudou alguém de forma desinteressada? Mas, será que ajudamos os outros porque somos verdadeiramente bons e altruístas?

Tal dúvida é comum quando está em jogo a origem biológica do egoísmo e do altruísmo. Muitos estudos consideram a generosidade um imperativo biológico "egoísta", relacionado ao processo de seleção natural em animais sociais, no qual é o outro que aumenta as chances de sobrevivência individual e social, normalmente relacionadas à proteção e obtenção de alimento. Esse "egoísmo" genético igualmente estaria em ação nos grupos de pessoas, empresas e países que atuam pensando em benefício dos outros e em formas coletivas de obter o sucesso desejado.

Embora reconhecendo a inclinação humana para a guerra, a violência e o egoísmo, recentes pesquisas sobre a generosidade avaliam que ela faz parte de um conjunto de condutas extraordinárias, que associam a disposição para ajudar o próximo à ação de hormônios que geram prazer. Isso significa que pessoas generosas gostam de compartilhar e doar o que os outros precisam. Nos termos da vida biológica, a atuação generosa dessas pessoas sempre teria uma finalidade "egoísta" - promover a satisfação individual. De certo modo, a noção de um egoísmo genético propõe uma visão "desencantada" da bondade humana. E nesse caso, só nos restaria desenvolver ensinamentos sobre altruísmo e generosidade.

É possível prever resultados práticos de uma educação para a generosidade, tendo em vista que boas ações podem ter efeitos contagiosos. Vários experimentos sinalizam que, havendo propagação de ações generosas, o número de pessoas dispostas à doação costuma aumentar. Além das abordagens focadas na origem biológica da generosidade e do egoísmo, encontramos perspectivas filosóficas e psicológicas que avaliam a generosidade humana como uma virtude essencial ao bem viver. Esta é a virtude mais subjetiva, ligada ao desprendimento, à cordialidade e ao temperamento cuidadoso, atento às demandas do amor ao próximo. Nesse contexto, encontramos uma visão "encantada" da generosidade: nela convivem os bons sentimentos e as atitudes mais bonitas, como a inocência e a honestidade, a bondade, a franqueza e a liberalidade. Aqui a conduta generosa não está submetida ao egoísmo e às mesquinharias. Cada boa ação corresponde a uma doação espontânea e desinteressada, que dispensa vantagens e elogios. Nessa virtude encontramos a grandeza da alma, a gentileza do espírito, a sensibilidade capaz de identificar e compreender significados. Mais ainda, a certeza de que nada faltará a quem atua generosamente.

Tais vivências implicam dois tempos com o mesmo valor: o dar e o receber. Nem sempre é fácil aceitar o apoio e a partilha que nos oferecem. Acolher a generosidade do outro é importante para experimentar os muitos benefícios de cultivar uma vida plena de sentidos. Generosidade como virtude sempre supõe atenção para o próximo, tolerância diante das diferenças, reconhecimento de que o outro, da mesma maneira que cada um de nós, tem direito às próprias escolhas e decisões sobre seu futuro. Nossos genes até podem ser egoístas, mas tudo indica que não bloqueiam motivações humanas generosas. Provavelmente, a verdade referente à generosidade supõe que seres humanos praticam o bem seguindo diversas razões e diferentes impulsos. Desse prisma, o que importa é o cultivo das trocas generosas e seus efeitos benéficos na qualidade da vida pessoal e ambiental.

Marisa Moura Verdade é Mestra em Educação Ambiental, Doutora em Psicologia, especializada em Psico-Oncologia, pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião do IP-USP. Autora do livro Ecologia Mental da Morte. A troca simbólica da alma com a morte. (Editora Casa do Psicólogo FAPESP). Email: mmverdade@gmail.com