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Sou Agro

Um perfume de manjericão

Publicado em 11 janeiro 2012

Você já ouviu falar em pau-rosa? Pois bem, essa árvore natural da Amazônia é a matéria-prima da produção de linalol, o óleo essencial responsável pelas notas florais dos perfumes da alta perfumaria, inclusive o Chanel nº 5, o preferido da atriz Marilyn Monroe.

De tão aficionada pelo produto, a atriz chegou a declarar que, para dormir, a única coisa necessária eram duas gotas de perfume. Cinco décadas após sua morte, a fragrância continua conquistando mulheres mundo afora. A diferença é que o pau-rosa está ameaçado de extinção.

Esse fato levou Nilson Borlina Maia, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), a iniciar uma pesquisa com plantas com alto teor de linalol, isto em 1998. Três anos depois, ele chegou à constatação que uma espécie específica de manjericão era a ideal para obtenção da substância.

Contou para a escolha o fato do tempero ter um crescimento rápido. Naquela época, o empresário José Roberto Gonçalves de Votupuranga soube da descoberta e fez contato com Maia. O resultado foi o surgimento da Linax Comércio de Óleos Essenciais, uma empresa de inovação tecnológica fundada com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Descoberta do linalol, óleo essencial responsável pelas notas florais de diversos perfumes, no manjericão é fruto de pesquisa do Instituto Agronômico de Campinas (IAC)

Grandes empresas de comercialização de fragrâncias, como a gigante francesa Givoudan, testaram e aprovaram, o linalol de manjericão, mas as negociações esbarraram no preço. "Nosso custo é mais alto, porque embuti o pagamento do produtor que fornece a planta e todo o processo até chegar o linalol", explica Gonçalves.

E há várias etapas: primeiro tira-se o óleo bruto da folha, depois é preciso mandar o material para uma indústria de fracionamento isolar o linalol. "No caso do pau-rosa, a pessoa corta a árvore, pega os cavacos, ferve e retira o óleo. Não há o preço do agricultor na conta, porque ninguém plantou", conta Gonçalves. Conclusão: o quilo da alternativa ecológica é US$ 200, o dobro do linalol extraído do pau-rosa.

Estudos do governo apontam que entre 2003 e 2008, a extração do pau-rosa foi 500% superior à autorizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiento e dos Recursos Renováveis (Ibama). Mas os grandes players globais do setor parecem ignorar a questão. "Quando existe a demanda não importa a lei", comenta Maia. Embora seja necessária uma autorização especial para extração, há muito pau-rosa retirado de maneira ilegal.

A concorrência desleal obrigou a Linax a mudar de rumos. "Tudo é uma questão de mercado, se não for assim, a empresa não sobrevive", diz Gonçalves. Por isso, a Linax utilizou o know-how obtido com o linalol para, por meio de lavouras comerciais, chegar a outros óleos demandados pelas indústrias alimentícia, farmacêutica e de perfumes. "Damos a elas uma alternativa sustentável, uma vez que evitamos que se pegue a matéria-prima da Mata Atlântica ou Amazônia", diz Maia.

Hoje, a Linax trabalha sob pedido. Os contratos em sua maioria são sigilosos, mas dentre os de domínio público está o de óleo essencial de café, comercializado dentro e fora do Brasil e conhecido por sua propriedade de proteção solar. Quanto ao linalol, resta torcer pelo avanço de uma visão mais sustentável entre as grandes fabricantes de perfumes.